Adormecer em Portugal, acordar na China

Com as indemnizações por despedimento a caírem e a possibilidade de se despedir trabalhadores por extinção do lugar de trabalho abre-se a porta a despedir virtualmente todas as pessoas que ainda têm trabalho com direitos. Uma parte destas pessoas ainda   ganham mais do que precisam para viver, no imediato, e podem por isso descontar para quem já está reformado.

Imagine o leitor como é fácil «extinguir o posto de trabalho». Subcontratualiza-se mais serviços de enfermagem ao Grupo Mello explicando depois aos enfermeiros do SNS que já não têm «utentes»; abre-se uma nova empresa de estiva a 100 metros da outra explicando depois aos estivadores que essa outra já não tem trabalho; enchem-se turmas com 32 alunos dizendo aos professores que não há horário para eles. Como é fácil de compreender não é em 2035 ou 2015 mas é amanhã que as pensões entrarão em ruptura porque se só há trabalhadores precários que ganham um salário de simples reprodução biológica (comer, alimentar-se e no dia a seguir ir trabalhar) não há segurança social que resista.

Interessante porém é perceber que os limites destas políticas estão nas nossas mãos. Porque há algo que ninguém pode duvidar – o Porto de Lisboa não trabalha sem estivadores, as aulas não se dão sem professores e os hospitais nada podem fazer sem enfermeiros. Eles têm o mundo nas mãos. O mesmo mundo que continua a rolar (e melhor) se se dispensar, sem indemnização, a cadeia de parasitas que está a transformar este país numa China, onde nem a sessões de propaganda diária brega somos poupados.

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Site de Raquel Varela

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19 respostas a Adormecer em Portugal, acordar na China

  1. China não estados unidos da américa

    • von diz:

      Pois, porque a China é aquele poço de virtudes…

    • Carlos Carapeto diz:

      Bem; eu na qualidade de desempregado de longa duração e já com muitos aninhos encima deste cabedal (para não dizer coirão que , com tanta porrada que tem apanhado ao longo da vida este corpo está transformado num coiro daqueles bem rijos que já só serve para fazer solas). Como dizia a idade já não me permite arranjar trabalho facilmente, neste caso o meu maior receio não é entrar na porta de uma qualquer China mas atirarem-me por uma janela de alguma India ou Bangladesh que é bem pior.
      Em Portugal há quem trabalhe próximo dessas condições sem ninguém se incomodar.

  2. Calos diz:

    eu acho é com a redução das indemnização já não há razões para continuarem a existir as empresas de outsourcing.

  3. Petição: Secretaria Nacional dos Povos Indígenas.
    No futuro os seus netos for pesquisar no GOOGLE. Eles vão lhes perguntar: – Oh! Vovô, por que você não deu conta desse extermínio lento dos índios? E sua consciência vai sentir gosto amargo em saber que os índios por mais 500 anos sofreu injustiça, violência e opressão e outras brutalidades. O Brasil de hoje, se transformou num exemplo de democracia para a América Latina. Mas, persiste esta chaga concreta que nos denigrem como Nação Desenvolvida. Portanto, uma criação de uma Secretaria Nacional dos Povos Indígenas. http://www.avaaz.org/po/petition/Secretaria_Nacional_dos_Povos_Indigenas/?fgsJddb&pv

  4. josé sequeira diz:

    Raquel, você tem toda a razão do mundo, mas…
    Recuando alguns anos. Aquando de uma das cíclicas secas do sael, ainda por cima acompanhadas de uma guerra civil, também infleizmente periódicas, li, num jornal, uma notícia terrível que me deixou completamente de rastos. Populações africanas em fuga através do deserto, abandonavam as crianças pequenas (para morrerem de fome, sede ou comidas pelos animais), porque isso lhes atrasava o passo. Aí percebi que há duas coisas que nos comandam e que, para nós, europeus de barriga mais ou menos cheia, podem não ser perceptíveis: a chamada natureza humana e o instinto individual de sobrevivência. Todas essas lutas de que v. fala falham exactamente pelas mesmas razões. Desde 1982/83, por acaso através de leis de governos em que o actual esquerdista Mário Soares pontificava como primeiro-ministro, que os trabalhadores do sector privado são precários, através dos recibos verdes e dos contratos a prazo. Sim, estas leis já têm 30 anos e, como estivadores e funcionários públicos sempre tiveram o “deles” garantido as coisas passaram. Além disso, por exemplo, os professores do quadro sempre conviveram com os colegas precários e, sempre com pena, lá foram vivendo. Lá está, é o instinto de sobrevivência que radica na natureza humana.
    O erro é dar-se pouca importância ao voto – esse sim, dá poder para mudar as coisas – em detrimento das “lutas” que, se virmos as coisas com alguma abstracção, só vão adiando as derrotas que, cada dia que passa vão acontecendo. Ao longo dos últimos 30 anos as primeiras (as lutas) têm sido incontáveis; infelizmente as derrotas têm sido o contra-ponto certo das primeiras.
    Aquele célebre poema atribuído ao Brecht (… primeiro levaram…) por algum motivo, passados tantos anos, continua a ser citado e continuará a sê-lo por muitos e muitos mais, unicamente porque se trata da constatação de uma realidade imutável.

    • m diz:

      Tenho uma amiga que trabalha em Lisboa e vive em Alverca. Há dias contou-me que se apercebeu que no trajecto que faz diariamente Alverca-Lisboa-Alverca, que o comboio tem menos gente porque há mais desemprego, mas sobretudo que, bem cedo de manhã, o comboio tem parado inúmeras vezes, de repente, como se fosse aos soluços. Como aconteceu muitas vezes, demasiadas, e ela que é uma pessoa atenta, procurou a resposta para tais paragens repentinas. A resposta que obteve foi que as pessoas se mandavam à linha, isto é, que se suicidavam e por isso é que o comboio parava.

      Quando a minha amiga me contou isto calei-me, fiquei sem palavras para dizer. Também podemos desistir da «chamada natureza humana e do instinto individual de sobrevivência» no contexto desta crise de «barriga cheia». Também me pode acontecer a mim. Se isto faz algum sentido, não sei …

      Li num jornal no fim de semana passado, que se realizou um estudo sobre a taxa de suicídio na Península Ibérica no contexto da crise em que vivemos. A conclusão do estudo foi que não houve aumento da taxa de suicídios.

      Pensei para mim, vou lá acreditar nestes estudos «amestrados» e na desinformação.

      • José Sequeira diz:

        Caro m
        Não tenho obviamente nada contra o que diz. Não sei se são suicídios consumados, se apenas maneiras de criar algum caos social. Eu sou do tempo em que líamos religiosamente o manual de guerrilha urbana do grande revolucionário brasileiro Carlos Marighela. Essa de ameaçar suicídio numa linha de comboio sub-urbano, dos que andam devagar e que levam essencialmente trabalhadores, também fazia parte. “A gente foge no último instante, o comboio pára, a malta chega atrasada, a circulação complica-se…”; Uma outra consistia em passar várias vezes pelos tipos que entregavam folhetos de partidos rivais e aceitar sempre, colocando-os depois convenientemente no lixo. Haverá sempre pessoas que se suicidam por diversos motivos, muitos sem ter nada a ver com questões exógenas mas apenas más opções de vida, mas serão sempre a minoria que confirma a regra.
        Agora, evidentemente existem pessoas que passam muito mal, Eu costumo dizer, quando me perguntam se sinto a crise, se alterei a minha vida devido à crise, etc… que, trabalhando há 46 anos, sempre vivi em crise. Qual crise? pergunto, Só se for a vossa que a minha já cá anda desde sempre.

  5. LGF Lizard diz:

    E eu a pensar que a malta de extrema-esquerda era só elogios e hossanas aos chineses….

    Aliás, a malta do MRPP andava à uns tempos atrás a pregar as virtudes do camarada Mao, a “superioridade” do sistema chinês e como os proletários eram felizes no grande paraíso da Revolução Cultural.

    Cada vez mais é necessário acabar com a globalização desregrada.

  6. JgMenos diz:

    Imagine o leitor o que levaria alguém a subcontratar um serviço feito pelos seus trabalhadores.
    … ter o mesmo, por menos dinheiro ou menos problemas ou melhor feito? Certo!!!
    Ora, como quem o faz tem que incorrer nos custos de indemnizações, entre outros, isso significa que a situação que o motiva tem características bem desinteressantes.
    Ora aqui é que se coloca a questão essencial: devem os trabalhadores e seus representantes dedicar-se à Luta, ou a actuar sobre tais motivos até que desapareça uma racional justificação dessa iniciativa?
    O ‘verdadeiros líderes’ dirão: vamos à Luta! Verdadeiramente não sabem dizer outra coisa e dos trabalhadores têm a ideia central de serem massa a mobilizar e conduzir. Quem não é capaz de promover acções cooperativas ou de cogestão também não sabe propor acordos.
    Mas quem acredita nos trabalhadores e na sua capacidade de lidar com problemas proporá outros meios. Tais meios não são muitos e normalmente serão limitados pela lei que, na defesa dos trabalhadores, não lhes permite negociarem, ainda que transitoriamente, condições de excepção!

    • Carlos Carapeto diz:

      Marx explicou isso muito bem, quem não pretende fazer um esforçozinho para compreender aquilo que o homem ensinou o melhor é recatar-se, evitando assim debitar opiniões histriónicas.

      • JgMenos diz:

        Marx era um físico notável que resolveu meter a história em carretos; pelas suas contas de há muito que deveríamos ser comunistas!
        Entretanto…talvez outras opções?

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  8. anonimo diz:

    “abre-se uma nova empresa de estiva a 100 metros da outra explicando depois aos estivadores que essa outra já não tem trabalho”
    Porque é que os estivadores não criam uma cooperativa e não abrem eles próprios uma empresa a 100m da outra? Assim viam-se livres da exploração e levavam os capitalistas à falência! Ah pois, mas isso dá trabalho e ainda pode resultar, credibilizando a economia de mercado.

    • Nuno Cardoso da Silva diz:

      Essa é de facto a solução definitiva, em todos os sectores. E sa as organizações sindicais defendessem realmente os trabalhadores, teriam como prioridade ocupar as empresas em vias de fechar ou de se deslocalizar, transformá-las em cooperativas, e dar assistência técnica a essas cooperativas – se necessário – até elas serem capazes de singrar pelos seus próprios meios.

    • Carlos Carapeto diz:

      Muito simplista.

      Não percebe patavina do assunto, ou na pior das hipóteses está a tentar trespassar demagogia ao desbarato.

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