A Sagração da Desigualdade – III: Deixa-te de Políticas

«De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário em construção

Olhou em volta: gamela
Banco, enxerga, caldeirão,
Vidro, parede, janela,
Casa, cidade, nação,
Tudo, tudo o que existia,
Ele, um humilde operário,
Um operário que sabia
Exercer a profissão!»

(in O Operário em Construção, de Vinicius de Moraes)

Vimos de que forma o trabalhador se dá conta de como existe entre ele e o patrão uma relação de compra e venda de força de trabalho, e se torna regateador perante o segundo, procurando vender-lha por preço mais alto. Este primeiro passo, que demonstrámos vir ainda enredado e maculado por uma adesão à moral burguesa que cauciona e institui como pressuposto da conversa a subalternidade social do explorado, é todavia, já de si, de grande monta: se a mercadoria força de trabalho for objecto da mesma gestão, pelos trabalhadores, que os capitalistas devotam aos produtos que leva ao mercado, encurta-se a taxa de mais-valia, e a razão de ser fundamental das relações de produção capitalistas fica comprometida. A tendência para a venda das mercadorias pelo seu custo antagoniza-se com outra tendência, a da redução do salário ao mínimo indispensável à subsistência: e esse antagonismo, que é a expressão material do antagonismo de classe, verte-se na repressão dos (ainda) rogos dos trabalhadores, com extrema brutalidade em alguns dos casos. Esta atitude do patrão permite ao explorado compreender que lhe importa dar o salto para fora dos quadros mentais dentro dos quais organiza a sua argumentação reivindicativa: porque é despedido, vítima de represália, repreendido, empregue nos trabalhos mais penosos, porque é que em último caso o agride a polícia (logo a polícia – porquê a polícia?!) quando ele faz o que qualquer vendedor faz, ou seja, procurar melhor preço de venda para um produto seu? A luta vai tornando o trabalhador progressivamente mais consciente de todas estas contradições e ajuda-o a forjar a sua ideologia de classe, a qual vem associar-se, como vemos nos versos que abrem este texto, a uma progressiva consciencialização da importância social do trabalho, e do trabalhador como produtor. É aí, compreende o trabalhador no auge da sua consciência, que reside o essencial do problema: a característica essencial da mercadoria que vende, a força de trabalho, é a de conferir valor e transformar o capital, de coisa morta e improdutiva, em valor de uso e de troca. É essa característica que é disputada entre si e o patrão. Em última análise, todos acabam por o perceber, fica com o valor quem tem os meios de produção. E essa vem sendo a grande saga, a grande luta, do movimento operário com a burguesia que o explora.

Quando a consciência de classe dos trabalhadores aqui chega, o patrão deita mãos à cabeça e lamenta não ter deixado as coisas como estavam quando, pela primeira vez, os seus subordinados lhe vieram tentar vender a pele mais cara. Com efeito, a repressão que sobre eles exerceu foi o que foi e não podia, aliás, ter sido de outra maneira. Era o fundamento das relações de produção que estava em risco. Ele já o sabia. Todavia, em face da sua repressão, os trabalhadores ficaram também a sabê-lo. Compreendem agora na globalidade o processo histórico que os integra, sabem onde reside o problema real, e querem uma solução que erradique esse problema. Não transigirão com alguma caridade, nem sequer com muita cedência. Passaram, simplesmente, a não reconhecer ao patrão o direito de o ser. A este só lhe restam dois caminhos: o de um esforço de convencimento dos trabalhadores sobre a validade e relevância social do seu estatuto, que o fará mandar os trabalhadores para uma escola que lho ensine (e já agora os adestre para o trabalho), e conceber ulteriormente todo um arsenal de bombardeamento ideológico, nos jornais, nas rádios, na televisões, no cinema, na publicidade, que atribua à divisão da sociedade em classes um glamour que a torne digerível; e quando esta conversa não pega e os trabalhadores partem para a greve, a manifestação, a desobediência civil, os demais actos de insubordinação e avanço transformador da sociedade, um aumento progressivo da repressão a mover contra eles, que atingiu o seu pico na constituição das ditaduras fascistas.

A sagração da desigualdade só é possível com uma transigência, a partir daqui. E essa transigência é a de aceitar a discussão com os trabalhadores, sim – contanto estes aceitem um regresso à pressuposição da sua subalternidade e abdiquem das reivindicações caracterizadas por maior radicalidade. O patrão já tolera falar de melhores salários, já admite alargar o período de descanso, já consente que lhe sugiram o pagamento de férias, já apoia na doença, na velhice, na maternidade, na invalidez, no desemprego. A menos que o sistema entre em crise e lhe seja preciso, para obviar a quebra da taxa de lucro, ir buscar uma fatia da riqueza social alocada até aí ao trabalho, ou que a correlação de forças se inverte por alguma forma de desorganização dos trabalhadores (que o patrão incessantemente promoverá), transigirá com reformas, até ao limite da resistência. Desde que o coração do sistema, a propriedade privada dos meios de produção e a extracção de mais-valia por meio dela, fiquem de fora. Tal pedido, afirma o patrão aos operários que o escutam, já cruza a linha do razoável, do pragmático, e torna-se um pedido perversamente «ideológico» e «político». E política não. «Deixa-te de políticas, que a tua política é o trabalhinho», cantava Zé Mário Branco. E pregam os patrões há anos e anos.

Dizíamos que o patrão promoverá, incessantemente, a desorganização dos trabalhadores. Sabe cedo uma verdade que Lenine ensinou: a de que no capitalismo a única arma dos explorados é a sua organização como classe para a luta. Essa desorganização tem como ferramenta mais preciosa a da exploração habilidosa da desigualdade na consciencialização política entre o conjunto dos trabalhadores. É que se o adensar da resistência dos trabalhadores vai criando as condições para  a sua progressiva consciencialização política, consciencialização de classe, o processo de coisificação dos trabalhadores que ontem vimos não cessa: e é além disso auxiliado, fora do local de trabalho, por poderosos aparelhos ideológicos que instituem e difundem nas mais variadas tonalidades a ideologia do patrão, e veiculam uma mensagem de mediocrização social do trabalhador. A isto não pode deixar de se associar a vigência, a despeito da resistência, do «esquema de caserna», com oficiais subalternos, sargentos, e uma hierarquia de supervisores, contramestres, capatazes, directores disto e daquilo, até aos «generais» detentores da empresa, que impõe uma disciplina aterradora num local de trabalho onde as liberdades tão caras ao burguês raras vezes entram. Some-se ainda a isto o efeito dissuasor que a repressão, ou a sua possibilidade, tem junto de alguns, e o efeito que o suborno pode ter na criação de bufos e amarelos – e temos criadas todas as condições para que a classe se desorganize, e se consigam manter as reivindicações dentro da moral burguesa, da disputa pelo preço a que é vendida a força de trabalho, e nunca pela questão radical de a quem pertencem os meios de produção. Em tal caso, o patrão até acolhe a discussão com o trabalhador: toma-a por benfazeja, porque afinal é a conversar que a gente se entende, e demonstrativa de como, sem vozearias nem palavras de ordem, se pode negociar calmamente, em gabinetes atapetados e com a intervenção salvífica e supraclassista da lei, como se reparte, na observância de uma «natural» desigualdade entre classes, a riqueza que se produz. O patrão consagra a desigualdade, curiosamente, admitindo que se discuta a desigualdade. Desde que não seja para erradicar essa desigualdade. Isso já é política. E o trabalhador deve deixar a política «para quem sabe», não tem direito de se meter nela – fazendo-o, entra pelo campo funesto das «reivindicações ideológicas», foge ao consenso, está de má fé.

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