A Sagração da Desigualdade – II: Pobrezinhos mas honestos

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Perante a meritória burguesia de que ontem falávamos, surge a massa dos réprobos, dos inferiores, dos que nunca chegaram, dos fracos, dos pobres.

Há relativamente a eles, da parte dela, muito pouca noção do que os distingue fundamentalmente de outro aparelho qualquer. As moderníssimas teorias de gestão falam indistintamente de «recursos» para referirem verbas disponíveis, materiais de trabalho, mercadorias em stock, e os «recursos humanos» da empresa. Tudo está ali, à mão, para a isso se «recorrer» quando necessário. E a concepção não é de agora: para não irmos buscar os objectos animados e inanimados do velhinho Aristóteles, veja-se como era definida, por «especialista» britânico do séc. XIX, a noção de fábrica: «autómato imenso composto de numerosos órgãos, uns mecânicos outros conscientes, que operam de mútuo acordo e ininterruptamente para produzir um objecto comum, subordinados a uma força motriz que se regula a si mesma». Órgão consciente de um imenso autómato, parte integrante, peça da fábrica. Esse é o seu estatuto: apendicular e subalterno, dominado, à disposição de quem o dirige. Enquanto variável independente e autor do seu destino não existe. Assim se caracteriza, nos termos de Marx, a sociedade do sistema fabril moderno.

Naturalmente, esse estatuto não é tolerável sem resistência pelo dominado. O que não significa que essa intolerância seja, imediatamente, uma rejeição radical do modo de produção. Aliás, nunca significou. Vejamos o tempo em que a burguesia era uma classe dominada na sociedade senhorial, e descrevia o seu percurso histórico rumo ao estatuto de classe dominante: o fito do prestamista, do mercador, do pequeno manufactureiro ou do armador de navios não era, desde o início, o derrube da aristocracia e o guilhotinamento do rei. Se pudesse, almejava ascender à nobilitação. Se tal lhe estivesse vedado, procurava a justificação, dentro do quadro de valores da época – e nesse ponto a lógica do «engrandecimento do reino» e do «robustecimento da fazenda do rei» foi determinante -, para o exercício das actividades a que se dedicava, e que eram as mais das vezes criminosas. O mesmo ocorre, naturalmente, com o proletário dentro do sistema burguês: o desenvolvimento da sua consciência de classe, da percepção da real amplitude do problema no que concerne às relações de exploração e opressão, do papel da propriedade privada dos meios de produção no estabelecimento das contradições do sistema, de como estas são apenas resolúveis pela acção revolucionária – tal é um moroso processo de consciencialização. O que estabelece um hiato entre a opressão que se abate sobre o trabalhador e a consciência política que este tem, que o compele para a luta, mas para uma luta a que chega desarmado num primeiro momento.

Marx coloca nos seguintes termos, n’O Capital, o discurso do trabalhador que «subitamente» toma a palavra «quando estava emudecido no turbilhão do processo produtivo»: «tu e eu só conhecemos, no mercado, uma lei, a da troca de mercadorias. E o consumo da mercadoria não pertence ao vendedor que a aliena, mas ao comprador que a adquire. Pertence-te, assim, a utilização da minha força diária de trabalho. Mas, por meio do seu preço diário de venda, tenho de reproduzi-la para poder vendê-la de novo (…) preciso ter amanhã, para trabalhar, a força, a saúde, a disposição normal que possuo hoje. Estás continuamente a pregar-me o evangelho da parcimónia e da abstinência. Muito bem: quero gerir o meu único património, a força de trabalho, como um administrador racional, parcimonioso, abstendo-me de qualquer gasto desarrazoado (…) sem fazer apelo ao teu coração, que quando se trata de dinheiro não há lugar para bondade». O humor de Marx é conhecido, já o disse, mas julgo que esta passagem é, por inteiro, para levar a sério: este é o ponto de partida de todo o trajecto de luta que levará à revolução e ao socialismo, mas ele começa aqui, neste ponto e desta forma. O primeiro utensílio teórico de que o trabalhador dispõe para se bater com o patrão é, nada menos, a própria moral de classe do patrão. Coloca-se a si mesmo num ponto análogo (e não diferente, e muito menos antagónico) ao de quem o explora, reconhecendo abertamente com quem aprendeu («estás continuamente a pregar-me», note-se!), e manejando, a seu favor, a moral de classe da burguesia. Marx não podia ser mais claro quando, linhas abaixo, põe na boca do operário a sua primeira reivindicação: «exijo uma jornada de trabalho normal [sic], porque exijo o valor da minha mercadoria, como qualquer vendedor» (o itálico é meu). É escusado repetir o que acima vai dito: a primeira reivindicação dos trabalhadores é, claramente, uma reivindicação «comercial», decalcada dos códigos de conduta e das regras que normalizam o capitalismo. Os homens são em essência, é bem verdade, a soma das suas condições sociais.

A luta assim movida, no fundo transformada num exercício de exegese da moral do patrão e de emulação dos seus comportamentos no trato com fornecedores e clientes, comporta dificuldades que só o salto qualitativo da consciência de classe e da ideologia proletária vai suplantar. A grande dificuldade inicial é que ela é o ponto central na sagração da desigualdade, por mais que pareça, discursivamente, uma igualitarização das posições entre patrão e trabalhador, e até porque parece isso mesmo: aceitando discutir no campo do patrão, de acordo com as suas regras e os seus princípios, o trabalhador emaranha-se num mundo em que ele não está em igualdade de circunstâncias, e em que cada aperfeiçoamento aprofunda a sua desigualdade relativamente ao patrão. Só as reivindicações que garantam rupturas transformadoras, ou no mínimo melhores condições para chegar àquelas, são, ele o acabará por perceber, do seu interesse. Até aqui, o trabalhador discute como quem vende discute com um comprador, não como quem produz discute com quem explora. Esta diferença é toda a diferença, quanto mais não seja dada a velhinha divisa do comércio de bairro segundo a qual «o cliente tem sempre razão».  Para assumir seja que estatuto for que lhe garanta autoridade bastante para peitear o antagonista, ao trabalhador só lhe resta, porque joga na casa do outro, porque escolheu assentar na premissa de que lhe vendia alguma coisa e queria essa coisa bem paga, jogar o jogo mais antigo do comércio de todo o mundo: regatear com quem compra para que aceite despender mais. Leiloar-se, portanto. E fazê-lo rigorosamente nos mesmos termos de um leilão qualquer: se o pregoeiro de uma mobília incentiva lances mais altos elogiando-lhe as formas, o desenho, as decorações e a robustez da madeira, o trabalhador terá de se elogiar a si mesmo, bendizer a sua força de trabalho, explicitar a forma como se deixa explorar diligentemente: como chega todos os dias à hora; como nunca falta ao emprego; como nunca se alonga a almoçar; como não pára para tomar café, nem para ir à casa-de-banho, nem sequer para respirar fundo, se disso for caso; como, em suma, apresenta resultados do seu trabalho e procede com correcção (o que, veremos noutro local, significa também proceder despolitizadamente) para com o patrão, fazendo tudo o que este lhe pede. Malhas que o império tece! Para mitigar – nem sequer para se libertar: apenas para mitigar – a sua exploração, o trabalhador começa por… dar provas de que se deixa explorar convenientemente. Por apresentar certificados de bom explorado. Por dizer, alto e bom som, que é pobrezinho mas honesto.

Esta forma de luta, inevitável entre as massas mais recuadas, é o sonho maior do capitalista. Associando o merecimento à honestidade e a honestidade à submissão, transforma os avanços dos trabalhadores em compensações pela subserviência, nunca em vitórias do seu combate. Consagra uma moral pública que permite a caça aos vadios, aos alcoólicos, aos desocupados, aos que «não querem trabalhar»: porque ser explorado determina a partir daqui a própria valia social, e não ser  explorado (nem um respeitável explorador) transforma o desgraçado que em tal estado se veja num homo sacer sobre o qual todas as punições podem legitimamente recair – como em tudo isto se está a observar, com rigorismo, a segmentação da classe, a trabalhar para o patrão, a solidificar os interesses do patrão! E quanto à desigualdade essencial entre partes, como em nada mais, fica aqui bem patente e entranhada no modo como a sociedade funciona: porque se o critério mediante o qual se afere a justiça do que o trabalhador pede é o empenhamento que este deposita na sua própria exploração, então a desigualdade entre classes é mais do que óbvia – é um princípio essencial, uma categoria definidora, uma substância da verdade na inexistência da qual nada faz nenhum sentido.

Aqui se encontra a raiz de um visceral anticomunismo presente em fracções menos politizadas das massas. Aqui se encontra o que sustenta a política de medo-pânico e a impiedosa repressão dos patrões quando se insinua a política nas lutas operárias. Aqui se vê o esteio fundamental da dominação – e se abre a porta para o próximo texto…

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4 respostas a A Sagração da Desigualdade – II: Pobrezinhos mas honestos

  1. JgMenos diz:

    Sobre recursos sabe pouco, e não lhe convém saber.
    Simplificadamente: um bem económico caracteriza-se por ser escasso e útil; o mercado determina-lhe a escassez e a utilidade satisfaz necessidades ou acrescenta valor.
    Fala enfim do que sabe: do pensamento do guru do séc.XIX que se sustenta na mesma realidade que começa por citar numa demagógico-piegas digressão por esse sec.XiX de inovações extraordinárias e de dramáticas transformações sociais.
    ‘Uns, com os olhos postos no passado,,vêem o que não vêem:…’

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