O ministério de Nuno Crato: grau zero da decência

Publico aqui, com uma grande vénia, um texto da Fátima Inácio Gomes, professora que se destacou nas lutas de 2008 contra os primeiros passos para a destruição da escola pública dados no tempo de Sócrates. É um texto que denuncia a forma indigna como o Ministério da Educação está a tratar as escolas no momento em que estas deveriam estar à beira de anunciar as turmas e a sua oferta escolar. Assistimos a mais um golpe baixo para lançar no desemprego um número indeterminado de docentes mediante outra redução arbitrária de turmas e cursos, desta feita com prejuízo directo e imediato para muitos alunos.

E a pergunta é a mesma de sempre: temos nós a alma tão desossada que vamos assistir a isto com a fronte cabisbaixa dos bois mansos?

“QUEM VEM JANTAR A CASA?

O que se está a passar, neste preciso momento, nas escolas portuguesas é o seguinte: a 31 de julho, quarta-feira, devem ser publicadas as turmas; logo de seguida, comunicado o número de professores necessários em função das necessidades. Agosto. Concurso de professores para lá, concursos de professores para cá, fazer horários… em setembro tem de estar tudo pronto para o arranque. Está sempre tudo pronto para o arranque, as escolas fazem por isso. O Ministério não. E este ano aprimorou-se: a 26 de julho, sexta-feira, fim da tarde, indicou o número de turmas/cursos que autoriza sejam abertos em cada escola. Não, não são as escolas que decidem, em função do número de matrículas vs. espaço. E, convém frisar, em junho, há as chamadas reuniões de rede escolar, em que as escolas se sentam à mesa com a tutela e se discute esta organização/distribuição.

Mas, nesta sexta-feira dia 26, quando muitas escolas já tinham as turmas praticamente feitas, quando publicitaram as suas ofertas formativas, quando contactaram pais e alunos para regularizarem este ou aquele pormenor ou para lhes indicar que aquele curso/disciplina não iria existir na escola, informando das alternativas, enfim, quando tinham esse trabalho praticamente feito, o Ministério, através de um dos seus organismos, publicou a lista de cursos/turmas autorizados(as) para cada escola/agrupamento e lançou o caos: mudou as ofertas dos cursos profissionais, reduziu o número de turmas em várias escolas, eliminou turmas CEF com alunos inscritos, enfim, queimou o jantar pouco antes de ser posto à mesa. E fez algo mais fantástico, fê-lo em cima do acontecimento. Imagine-se o leitor em sua casa e dizem-lhe para convidar vinte pessoas para jantar: a comida será da responsabilidade de uma empresa de confiança. Manda convites atempadamente, publicita o evento convenientemente, prepara a sala com cuidado, prepara a mesa, recebe os convidados… e depois trazem-lhe duas coxas de frango para o jantar.

É assim que o Ministério tratou as escolas, as direções, os alunos. São inúmeros os casos relatados em inúmeras escolas, que se começam agora a conhecer: em várias escolas, o número de turmas autorizadas está abaixo das necessárias para o número REAL de alunos matriculados (que se faz aos restantes?); há cursos profissionais com anos de existência numa localidade, com vinte e muitos alunos inscritos, que são apagados e substituídos por outros cursos que nem sequer tinham sido discutidos, menos ainda comunicados ao público, há alunos que deveriam seguir um curso de educação formação e terão de ficar no ensino regular… e quem é que vai passar por incompetente? Quem é que vai ter que dar a cara para dar o dito por não dito? Quem vê todo o seu trabalho, um trabalho sério que merece respeito, deitado ao lixo? A três dias úteis do fim de julho?…

E é nestas condições que se trabalha nas escolas. Surpreendentemente (ou nem tanto assim, quando o interesse do poder é esse) a maioria dos portugueses desconhece esta realidade. Apesar de, direta ou indiretamente, ser parte interessada : quem não tem familiares nas escolas? ou vai ter? já para não falar do tão propalado “interesse nacional” da Educação… A maioria dos portugueses ouve o discurso dos políticos na TV, sérios e convictos, e cria uma imagem. Nuno Crato, por exemplo. Tão credível… Possivelmente, até acredita nele quando ouve coisas como “liberdade de escolha” e “mérito” e “superior interesse dos alunos” e “estamos a trabalhar para”. Pois é este o tipo de trabalho que estão a fazer: em cima do joelho, passando por cima do trabalho feito nas escolas e do “superior interesse dos alunos”, que só interessa para enfeitar discursos “politicamente corretos”. Para quem conhece a realidade, para quem vive a e na escola, este tipo de discurso é de um cinismo, de uma falta de ética, de verdade, de seriedade que ENOJA!

E isto será, mais uma vez, e à semelhança de tantas e tantas outras ocorrências, com este e com os outros governos dos últimos anos, um episódio. E este episódio faz tão pouco sentido que não pode dar em nada. As turmas terão de abrir, de acordo com o número REAL de alunos que existe no nosso país, nas respetivas localidades. Mas é o suficiente para, em finais de julho, com tanto para fazer para que tudo arranque em setembro, causar mais desgaste, mais confusão. Para, MAIS UMA VEZ, aparecerem as parangonas nos jornais e televisões e as pessoas pensarem… “lá estão os professores a queixar-se outra vez!!!”. Pois, já alguma vez pensaram que os professores PODEM ATÉ TER RAZÃO?!?!?

… que bem estaríamos todos se, em todos os anos, há anos, não fosse este circo anual em que tudo muda menos a incompetência!…

Pois é, meus amigos, confiem nas palavras mansas destes governantes, confiem… quem está, como eu, no mesmo barco e conhece a verdade, a REALIDADE, vomita ao ouvi-los. Depois ainda há quem pense que é má vontade minha…”

 

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5 respostas a O ministério de Nuno Crato: grau zero da decência

  1. JgMenos diz:

    Um pedido de esclarecimento: há professores a mais?

    • Mário Machaqueiro diz:

      Qualquer pessoa que conheça minimamente a realidade do nosso sistema de ensino e das nossas escolas sabe que a resposta a essa pergunta só pode ser negativa. Este governo – num processo que, em boa verdade, se iniciou com Sócrates – tem vindo a produzir leis e truques de secretaria para tornar “excedentários” professores que, de facto, são necessários ao sistema. O resultado é que essa criação artificial de desemprego está a sobrecarregar os docentes que se mantêm nas escolas com cargas lectivas excessivas, nas quais têm de leccionar a mais de três níveis diferentes (quem dá aulas percebe o que isso implica de desgaste e de perda de qualidade no trabalho efectuado), com turmas superlotadas, a par de toda uma série de trabalhos burocráticos que pouco têm que ver com o ensino mas que pesam cada vez mais no quotidiano dos professores. Como disse: é preciso trabalhar numa escola pública do ensino básico ou secundário, preferencialmente situada nos principais pólos urbanos das áreas litorais (onde se concentra a maioria da população portuguesa) para se perceber do que estou a falar.

    • nightwishpt diz:

      Depende de quantos putos se quer na escola e de que século se quer a educação.

  2. Antonio Osorio diz:

    Este Nuno, afinal não é mais que um “eco” da Lurdinhas! Tudo começou com essa senhora no malfadado governo Sócrates, para continuar e, quem sabe, acabar nas mãos destes coveiros!

  3. Os primeiros passos da destruição da escola pública não começam em 2008. Digo eu. Não é um processo aparte em relação ao resto.

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