Favelas de Bolívar

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Enquanto soam os acordes do grupo porto-riquenho La Sonora Ponceña, agarrado a uma escandinava, um venezuelano agita o corpo. A salsa arranca os pés do chão a dezenas de estrangeiros que tentam embalar a cintura ao mesmo ritmo que os autóctones. Aos mais tímidos, Gustavo Rodriguez dispara o trocadilho: “Quitate ese peo [problema], euro…peo!”. É a gargalhada geral. Entre os que dançam e os que esvaziam garrafas de rum Santa Teresa, repete-se o refrão: “Hay fuego en el 23, en el 23”.

Qualquer estrangeiro habituado a ler o que diz a imprensa sobre a criminalidade em Caracas ficaria de boca aberta. Não há nada mais pacífico do que este bairro pobre da capital venezuelana. Bem longe das discotecas onde a maioria dos turistas e uma parte dos caraquenhos procura divertir-se com segurança, este grupo de estrangeiros mistura-se pacificamente entre os moradores e não há qualquer tensão senão a de quem se estreia pela primeira vez nos caminhos da salsa.

São, principalmente, suecos, irlandeses, australianos, canadianos e fazem parte de organizações solidárias com o processo bolivariano. Vêm visitar o bairro 23 de Enero, bastião da revolução. Até à chegada de Hugo Chávez à presidência, em 1998, foi trincheira de combate a todos os governos. O bairro das guerrilhas tupamaras é hoje uma espécie de Belfast com centenas de murais dedicados a todos os que se levantam no mundo contra a opressão.

 

O bastião da revolução bolivariana

Aqui não há polícia mas consegue ser a zona mais segura de uma cidade com um índice brutal de criminalidade. São os próprios habitantes que vigiam as ruas e combatem a delinquência. Chamam-lhe vigilância revolucionária. Foi aqui que se refugiaram vários ministros de Hugo Chávez quando a direita, em 2002, tomou o poder durante dois dias através de um golpe de Estado legitimado por vários países europeus e pelos Estados Unidos.

Em 1989, a explosão popular que rebentou em todo o país contra o governo de Carlos Andrés Pérez, controlado pelo FMI, teve no bairro 23 de Enero um dos epicentros. A população resistiu de armas na mão à reacção militar. Caíram centenas de mortos e, ainda hoje, é impossível contar o número de assassinados ao longo de mais de cinco décadas de resistência. Não espanta, pois, que seja neste bairro que descansem os restos de Hugo Chávez.

No 23 de Enero, vivem hoje quase 100 mil pessoas. Mas para se perceber a dimensão da lenda em que se transformou este bairro, há que ir às origens. Entre o luxo das zonas ricas e o verde das montanhas, havia sido projectado pela ditadura de Marcos Pérez Jiménez uma urbanização a que se havia de dar como nome a data do golpe fascista. A urbanização 2 de Dezembro seria ocupada por camadas médias da população e os apartamentos estavam praticamente acabados quando cai a ditadura. A 23 de Janeiro de 1958, quando se derruba o regime, milhares de pobres invadem os apartamentos por estrear e resistem à violência policial.

No ano seguinte, na primeira visita ao exterior depois da revolução cubana, Fidel Castro é recebido em Caracas como herói e visita o 23 de Enero. A população decide, então, chamar Sierra Maestra a uma das zonas do bairro. Ali, não havia organização de esquerda que não tivesse implantação. Por ali passaram militantes do histórico Partido Comunista da Venezuela, guerrilheiros das Forças Armadas de Libertação Nacional (FALN), da Bandeira Vermelha e, mais tarde, dos Tupamaros.

 

Che Guevara nos céus de Caracas

As explosões de foguetes são comuns em Caracas. É uma das expressões mais comuns de felicidade dos venezuelanos. Em noites eleitorais, há quem se possa atrever a adivinhar resultados olhando para as manchas de luz que rebentam no céu da capital da Venezuela. É só olhar para que zonas da cidade estão em festa. Quando as favelas explodem em alegria é porque a vitória cabe aos candidatos bolivarianos.

Para o bairro 23 de Enero, o dia 8 de Outubro é sinónimo de foguetório e toda a cidade sabe que se trata do aniversário da morte de Che Guevara. Gustavo Rodriguez, antigo guerrilheiro urbano e um dos representantes da Coordenadora Simón Bolívar, explica ao grupo de estrangeiros como tudo começou: “Na década de 80,  várias organizações do bairro 23 de Enero combinaram assinalar o aniversário da morte de Che Guevara. À meia-noite, a partir das açoteias dos prédios, íamos desafiar uma vez mais o regime com o lançamento de foguetes sobre o céu de Caracas”.

Mas nem tudo correu bem. Um grupo de jovens tinha ficado de lançar o primeiro. Tentavam compensar o atraso com o passo acelerado sobre as escadarias de um dos principais edíficios do sector Monte Piedad. Quando soa o sinal das zero horas numa emissora de rádio, ainda não tinham passado o décimo primeiro piso. Faltavam mais três andares e um dos camaradas decide acender um foguete. A pressa e o nervosismo não ajudam. Em vez de subir, o foguete rasga o ar a toda a velocidade e entra por uma janela do prédio vizinho.

A explosão ilumina todo o apartamento donde sai disparada uma mulher em roupa interior. Quis o acaso que o primeiro foguete lançado em memória do guerrilheiro fuzilado na Bolívia rebentasse sem pedir autorização na casa da amante de um polícia. Enquanto explodiam os céus de Caracas, a mulher gritava semi-nua.

Apesar do começo anedótico, a acção teve um grande impacto. Durante semanas, haviam recolhido dinheiro clandestinamente e centenas de subversivos enchiam os telhados das principais favelas de Caracas e da Universidade Central. Só no dia seguinte é que a maioria da população soube que se tratava de uma homenagem e, desde então, antes e durante a revolução bolivariana, é assim que se vive o 8 de Outubro, o dia do guerrilheiro heróico.

 

Os anos de pólvora dos Tupamaros

Durante décadas, o bairro 23 de Enero foi alvo da repressão policial. Depois da derrota do ditador Marcos Pérez Jimenez, os três partidos do arco do poder assinaram um acordo que ficou conhecido como Pacto de Punto Fijo. A Acção Democrática (AD), a União Republicana Democrática (URD) e o Comité de Organização Política Eleitoral Independente (Copei) juntaram-se “para assegurar a estabilidade no país” mas na prática para assegurar a alternância e a partilha do poder nas instituições. O Partido Comunista da Venezuela (PCV) foi excluído e mais tarde ilegalizado.

Depois da experiência bem sucedida dos guerrilheiros conduzidos por Fidel Castro, as experiências armadas espalham-se como pólvora por toda a América Latina. Na Venezuela, o PCV e outras organizações decidem criar as Forças Armadas de Libertação Nacional e nas montanhas surgem núcleos guerrilheiros. Oficialmente, as FALN dissolvem-se em 1966 mas até à vitória eleitoral de Hugo Chávez houve diversos grupos armados a operar na Venezuela.

O 23 de Enero ficou conhecido como território tupamaro. Um pouco por culpa de Gustavo Rodriguez. O antigo guerrilheiro emprestou um manual da organização armada uruguaia a um jovem amigo e pediu-lhe que o escondesse bem. Um dia, a polícia invade uma série de apartamentos vizinhos e, amedrontado, o jovem lança o livro pela janela. As autoridades descobrem o documento e no dia seguinte as manchetes dos jornais arrancam-nos do anonimato: “Tupamaros no 23 de Enero”.

Gustavo Rodriguez conta que desde criança via do apartamento os tiros que o exército e a polícia disparavam contra as janelas dos edifícios. “Pode dizer-se que desde pequenos estivemos expostos ao fogo dos inimigos do povo. Lembro-me perfeitamente da minha mãe que nos escondia na casa-de-banho, lugar onde não podiam chegar as balas”, explica. Depois de terminar a escola primária, o antigo guerrilheiro entrou na escola técnica donde saíam carpinteiros, metalúrgicos, electricistas e muitos outros profissionais. Em luta pela criação de uma associação de estudantes, foram barbaramente reprimidos pelo governo de Rómulo Betancourt. Num dos dias houve 72 feridos e um morto. Gustavo tinha 13 anos.

“Mais tarde, na universidade, começámos a ler revolucionários como Lénine, Mao e Che Guevara. Começámos a sentir-nos identificados com a criação dessa sociedade onde o ser humano possa ser respeitado e valorizado”. Estavam criadas as bases teóricas. No 23 de Enero começaram a denominar-se J23, Jovens do 23 de Enero. Enquanto a polícia submetia o bairro a um controlo parecido com aquele que faz o exército israelita ao povo palestiniano, os mais novos começavam a estrear-se na resistência. Aos tanques de guerra, às metralhadoras anti-aéreas, às revistas e aos interrogatórios violentos, respondiam com pedras e cocktails molotov.

Nessa época estava na moda a Guerra de Guerrilhas, de Che Guevara, e o Manual do Guerrilheiro Urbano, de Carlos Marighella. É então que se dá a entrada dos membros da J23 em várias organizações guerrilheiras. Ao 23 de Enero já lhe chamavam “Vietname”. Gustavo Rodriguez, sob o pseudónimo de David, entrou para a Bandeira Vermelha e na segunda metade dos anos 70 acaba por entrar na clandestinidade. Mais tarde, acabará por fazer parte da frente guerrilheira “Antonio José de Sucre” na zona oriental do país.

Hoje, Gustavo Rodriguez é um dos que levam adiante o projecto da rádio Al son del 23, uma emissora comunitária que opera no bairro. Imitando o histórico programa de Hugo Chávez, Aló Presidente, chamou ao seu programa Aló 23. Na Coordenadora Simón Bolívar, juntaram-se muitos antigos combatentes que continuam a desenvolver a actividade política no 23 de Enero, agora por meios pacíficos. A não ser que regressem aqueles que deixaram um passado de miséria no país.

Aquele sítio, onde se levanta agora a emissora de rádio e o edifício da Coordenadora Simón Bolívar, era o quartel da polícia. Conta quem por ali passou que era um centro de tortura. Foi alvo de dezenas de investidas dos guerrilheiros urbanos. Gustavo Rodriguez ainda se lembra da noite em que teve de escapar da resposta policial a golpe de niples. Niples? “É um explosivo de fabricação caseira. Utilizávamos tubos metálicos e enchiamo-los de pólvora e pregos, tudo bem aconchegado. Tapas bem as pontas e metes uma mecha. Nós tinhamos um método nosso em que metiamos uma tampa e quando a tirávamos acendia a mecha. Ia empapada de ácido e clorato de potássio. Ao lançá-lo, em poucos segundos, explodia”.

 

Trincheira anti-imperialista

Apesar de ser destino de visita para muitos simpatizantes da realidade política venezuelana, o bairro continua a receber os ódios da oligarquia e as queixas de embaixadas de vários países. Os partidos da oposição e vários governos acusam o 23 de Enero de servir de refúgio para colombianos, bascos e irlandeses. Em 2008, seis meses após a morte de Manuel Marulanda, comandante histórico das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército do Povo (FARC-EP), a Coordinadora Simón Bolívar, com a presença de membros do PCV e de outras organizações venezuelanas, promoveram uma homenagem que arrancou um protesto do governo do então presidente colombiano Álvaro Uribe.

Nesse dia, foi inaugurada a Praça Manuel Marulanda e o busto do guerrilheiro. Financiada pela comunidade, a obra foi acompanhada pelo porta-voz da Coordenadora Simón Bolívar (CSB), Juan Contreras. Quem esculpiu o rosto de Manuel Marulanda fê-lo nas entranhas da selva colombiana e a estátua foi transportada por guerrilheiros das FARC. Entre as centenas de pessoas que aplaudiram e deram vivas à organização comunista estavam dezenas de representantes políticos de estruturas comunistas e progressistas de vários países.

Enquanto se destapava o rosto do lendário combatente das FARC, soava o hino da guerrilha e o hino da Venezuela. Jovens queimavam a bandeira dos Estados Unidos perante os holofotes e os disparos da imprensa que assistia estupefacta ao carinho por alguém que sempre trataram de demonizar. A noite acabou em ritmo de festa ao som do cancioneiro fariano.

Para Juan Contreras, as gentes do 23 de Enero sentem-se identificadas “com a luta que trava o povo colombiano, admiram a figura de Manuel Marulanda”. E acrescenta: “como organização popular, continuaremos a apostar pela paz e que esse povo irmão conquiste definitivamente uma nova Colômbia onde não se persigam os camponeses, onde não haja massacres impunes e o narcotráfico amparado pelo Estado”.

Sentado na praça Manuel Marulanda, onde agora brincam crianças, o membro da CSB é taxativo e clarifica que não podem considerar terroristas aqueles que lutam pela liberdade dos seus povos. “Em todo o caso, são os povos que escolhem as suas formas de luta e a luta armada é uma combinação de formas de luta que nós não podemos censurar. Só temos de respeitar”.

Juan Contreras e Gustavo Rodriguez são apenas alguns dos que arriscaram a vida para que o povo pudesse arrancar a Venezuela da miséria. Estão orgulhosos do seu bairro. Foi a primeira zona do país em que o analfabetismo foi erradicado. Hoje, velhos e novos tratam de construir um modelo de justiça social e seguir o exemplo de Hugo Chávez. Questionados sobre a ausência do histórico presidente, são peremptórios: “Todos somos Chávez”.

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13 respostas a Favelas de Bolívar

  1. Von diz:

    Mesmo sem me identificar com algumas coisas, gostei de ler. Um relato interessante e bem explicado. Uma escrita esclarecida. Mas não resisto a comentar lacónicamente um apontamento: “…Mais tarde, na universidade, começámos a ler revolucionários como Lénine, Mao e Che Guevara. Começámos a sentir-nos identificados com a criação dessa sociedade onde o ser humano possa ser respeitado e valorizado…” Mao? Lenine? O ser humano respeitado e valorizado???…

  2. josé sequeira diz:

    Bruno
    Do ponto de vista romântico o seu post é excepcional.
    Vou contar-lhe uma pequena história que se passou comigo, no período já longínquo entre o Natal de 1959 e a Primavera de 1960.
    Nessa altura participei numa espécie de brigada infantil que serviu como meio possível às entregas do livro do americano Caryl Chessman, “2455, a cela da morte”, proibido e confiscado pela PIDE ao editor Publicações Europa-América, da família Lyon de Castro, resistentes de muitas décadas ao Estado Novo.
    O livro, em si, nada continha de apologia ao comunismo. Simplesmente, uma vez que punha em causa o sistema judicial dos Estados Unidos, podia constituir um “ensombramento” à visita do Eisenhower a Portugal, prevista (e realizada) em Maio de 60.
    Os miúdos, como eu, filhos de empregados e amigos da editora, eram levados discretamente pelos pais até às traseiras do prédio da Rua das Flores, onde, depois de acolhidos pela porta de serviço, eram abastecidos, nas suas maletas escolares, com dois ou três exemplares do livro que, mais tarde, eram sorrateira e convenientemente entregues “ao sr. Fernando do talho”, ao “sr Reis, vizinho do 1º andar” ou ao “dr Farmhouse do consultório da Alexandre Herculano”.
    Numa dessas “expedições” (compreenderá o fascínio que tal trazia a um miúdo de 7 anos), fui contemplado com um conjunto de folhetos, em finíssimo “papel bíblia”, os quais deveria, no sossego de casa, incluir em cada um dos exemplares.
    Com a curiosidade própria da idade não pude deixar de ler (ou tentar ler, já não me lembro bem) o tal folheto; era sobre a União Soviética, as suas realizações, os seus fabulosos planos quinquenais, a heróica resistência ao inimigo nazi, a alegria dos primeiros de Maio de festa, as vitórias do piloto sem pernas, os heróis do trabalho, os pioneiros de lenço ao pescoço, o Sputnik com os seus “bips” que lançaram o terror na “américa”, o…, o…., o…. Confesso que a leitura me causou ainda mais emoção que a leitura dos livros de “o falcão”, onde o major Alvega e o Ene3 davam cabo dos nazis às pazadas.

    A aura desse país e do regime que lhe estava associado manteve-se durante muito tempo. No entanto tudo foi arrasado pela História e posto a nú definitivamente após os consulados duma espécie de Guterres dos Urais (o Gorby), devidamente continuado pelo bêbado que se lhe seguiu. Dos tais “homens novos” restaram os Putins e quejandos.
    Esta sua arenga sobre o regime bolivariano também poderia ter feito chorar qualquer um se vivessemos em 1959 e não houvesse, por exemplo, internet. Agora já não é tão fácil. Qualquer um (supondo mal intencionado) pode colocar a pergunta:
    Na favela pobre? Ao fim de tantos anos de “chavismo” ainda há favelas? Ainda por cima pobres? Ah, esqueçam, é tudo culpa do imperialismo.

    • Nuno Rodrigues diz:

      Só mesmo alguém que já perdeu o ideal de transformação é que acha que radicar a pobreza é acabar com a favela. É isso que nos distingue: Somos a favela. A favela da Venezuela, o bairro Português, a cooperativa Cubana. Somos povo. E não vemos como solução acabar com o que temos, mas conferir-lhe dignidade. E nisso, o Chavez teve uma acção essencial.

      • josé sequeira diz:

        Caro Nuno
        “radicar”? presumo que uma gralha lhe roubou o “er”. Ficamos assim. Eu até admiro o Hugo Chavez enquanto revolucionário, enquanto pessoa honesta, dedicada à sua causa. Só que não acredito que as coisas vão correr bem. Gostava de estar enganado mas penso não ser o caminho certo. Você acredita! Tubo bem, como já disse, para bem do povo venezuelano, espero que você tenha razão.

  3. JgMenos diz:

    Das justas revoltas aos cenários para turismo de esquerda…

    • huy diz:

      … e das malfeitorias da elite da fina flor do entulho.Aproveite as acções do Banif-uma oportunidade de ser dono de um banco.Viva o Capitalismo Popular!

  4. Henrique diz:

    Não li todo mas vou terminar e do que li gostei mesmo (=

  5. m. diz:

    Este texto é uma preciosidade.

    Esta noite, vou entrar no sonho do bairro 23 de Enero, e não acordar dentro dos meus pesadelos.

    Muito obrigada.

  6. De diz:

    Um excelente texto.

  7. Carlos Carapeto diz:

    Bruno!

    Obrigado por me ter premiado (e aos outros leitores que têm alguma sensibilidade social) com este maravilhoso trabalho. É muito mais que maravilhoso, é encorajador para quem pretende prosseguir a luta contra a as injustiças sociais, comovente para aqueles que rejeitam o sofrimento imposto ao seu semelhante.

    Obrigado

    Trabalhei na Venezuela nos princípios dos anos 80, embora tivesse lá pouco tempo, foi o suficiente para conhecer a miséria e as terríveis condições em que a maioria do povo vivia.

    Ainda nos anos oitenta fui trabalhar para a URSS (em plena efervescência da perestroika) por conta de uma firma Italiana (a poucos Km da cidade de Gorki). E a partir daí nunca mais perdi o contato com esse país e essa cidade. Por razões da vida!

    Isto para lembrar ao Caro Amigo José Sequeira, se julga que aquilo era um inferno em chamas, pois quando lá cheguei nem cinzas vi.

    Considero estranho para não dizer ridículo o esforço inglório que certas pessoas fazem para se tentarem identificar com a esquerda, para depois atacarem o melhor que a luta dos trabalhadores alguma vez produziu na história da humanidade, colocando-se ao lado daqueles que tinham o dever de combater, o capitalismo.

    Mas que raio foi só a União Soviética que cometeu erros? Será que o capitalismo tudo quanto fez foi bom?

    E se foi esse fracasso como os inimigos do Socialismo pretendem fazer crer, como era possível uma sociedade atrasada, ainda mergulhada nos conceitos do feudalismo, depois de destruída por uma guerra civil cruel, arrasada por as hordas nazis e em poucas décadas tornar-se na segunda maior potencia mundial, subsistindo apenas dos seus próprios recursos.
    A União Soviética nunca teve multinacionais para rapinar as riquezas de outros países.

    Será que essas pessoas julgam que se conquista o espaço cósmico, se alcançam avanços nas altas tecnologias em todas as áreas da sociedade com analfabetos e escravos?

    Com inimigos destes , Hitler tinha vencido a guerra.

    • josé sequeira diz:

      Caro Carlos
      Eu apena salientei a diferença entre realidade e propaganda. A segunda acaba por estoirar nas mãos dos seus mentores porque é desmentida pela primeira. Mas, tudo bem, cada um vive como quer, ou à solta, ou dentro das quatro paredes da ideologia, cercado de controleiros morais, sedentos de lhe lembrarem que, “se és destes, não podes fazer ou ser como…”.
      De resto a socieade actual permite felizmente a existência de situações que não se podem classificar dicotomicamente como apenas carne ou peixe; a esquerda e a direita, embora continuem a existir (nem eu teria a soberba de as considerar extintas), são obrigadas a acamaradar com indivíduos, ou seja seres humanos cujos conceitos não são facilmente enquadráveis. Entram muitas vezes em contradição, aparente ou verdadeira? Verdade insofismável!. Têm uma existência mais complexa porque normalmente não vivem agradavel e tranquilamente numa mole qualificável? Certo! Em tempos de crise, quando o maniqueismo se manifesta mais acaloradamente, são sistematicamente acusados de não tomar partido a 100%? Pois é! Penso que o futuro (as gerações de miúdos e jovens) serão muito mais como eu tento ser do que como aqueles que ainda pensam que direita e esquerda, capitalismo ou socialismo (o verdadeiro), significam o cardápio completo “A” e o cardápio completo “B”.
      Quando, há cerca de trinta e tal anos, começaram a aparecer as pizzarias e nos apresentavam 40 ou 50 opções, com nomes sugestivos, eu sempre fui conhecido por escolher os ingredientes à minha vontade. É evidente que, tal como agora, “pagando o preço”.
      Um dia, quando e se o 5Dias organizar uma espécie de encontro entre sócios e simpatizantes, poderemos discutir estas coisas mais profundamente.
      Cumprimentos.

  8. CF diz:

    Interessantes injeções de força… merci!

  9. Obrigado pelo belíssimo texto.

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