Onde estão as pessoas?

“But do not trust to hope. It has forsaken these lands.” Afirmava Eomer, ao encontrar Aragorn (que procurava os hobbits) após um massacre de Orcs e Uruk-Hai.

É esta frase que subitamente me inquieta quando vejo a fogueira de vaidades. Enquanto Mota Soares se ri, empossado com o Ministério do Emprego, que já nem do Trabalho é. Enquanto Moreira se ri, Machete, Pires de Lima e Paulo Portas são abraçados e beijados por uma plêiade de gente bem vestida e laca no cabelo.

São estes, que percorrem os seus caminhos sempre intocáveis, por maior que seja o escândalo dos submarinos, da Sociedade Lusa de Negócios, das fotocópias roubadas e destruídas, das brincadeiras de miúdos que custam milhares ao país.

Confesso que fiquei particularmente desesperada ao olhar Mota Soares. Um carreirista que sempre soube exactamente o que queria. Independentemente da sua qualidade técnica, que a tem, é demasiado perigoso: a sua convicção ideológica fá-lo olhar para os desempregados como criminosos, para as pessoas que recebem o RSI como preguiçosos, o abono de família como prestação que não pode ter lugar, até conseguir reduzir a Segurança Social ao seu terceiro pilar – o assistencialismo. Alguém que olha o trabalho como uma mercadoria sujeita às leis do capital. Não serves para trabalhar vais embora. ‘Tás doente, vais embora. ‘Tás grávida, vais para casa que é lá o teu lugar. ‘Tás velho, vais embora, mas só ficas num lar se o puderes pagar. És novo, mais vale um emprego precário do que nenhum.

E é nas mãos de um partido com quase nenhuma representatividade eleitoral que ficam todas as pastas sociais, sendo que é este o partido que olha para os assuntos sociais com a visão mais perigosa e bafienta.

De repente penso, como chegámos aqui?

Onde estão as pessoas se não é na rua que estão?

Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.

Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.

Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?

O mar da história
é agitado.

As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.

(Maiakovski, 1927)

Rompamos ao meio então as ameaças e as guerras. E que cada um de nós venha para a rua, tomar nas suas mãos o destino das suas vidas.

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19 respostas a Onde estão as pessoas?

  1. von diz:

    Afinal a consciência humana é igual em todo o lado. A pessoa, o indivíduo, é dispensado, destituído da sua dignidade tanto aqui como na China, tanto nos USA como na URSS, tanto em Espanha como na Coreia do Norte. Afinal, todos os regimes políticos e económicos, descartam a pessoa quando não precisam dela!

  2. josé sequeira diz:

    Ó Lúcia, com todo o respeito que tenho por si, apesar de perceber que não passa de uma “girl” do Partido (pela maiúcula no “P” já sabe a qual me refiro), acho que está a ser extremamente injusta para com o Pedro Mota Soares.
    Você lá terá as suas razões pessoais, as quais desconheço, mas “olhe que não!”.

    • Lúcia Gomes diz:

      Em primeiro lugar, caro José, não sou nenhuma apparatchick.
      Em segundo lugar, levo oito anos de audição atenta do deputado, depois Ministro Mota Soares. De leitura atenta das propostas por este assinadas, quer em matéria de Segurança Social, quer em matéria de Direito do Trabalho, incluindo as horas infindáveis de discussão do Código Contributivo e do Código do Trabalho.
      Não é pessoal o que me move. É político.

      • De diz:

        Isto já foi denunciado aqui no 5 Dias:
        “O ÚLTIMO ACTO DE V. GASPAR FOI UM ROUBO
        O último acto de Vitor Gaspar como ministro das Finanças foi um roubo a todos os trabalhadores portugueses. A Portaria 216/A/2013 foi publicada em 2 de Julho, no mesmo dia em que V. Gaspar se demitiu do Ministério das Finanças. É assinada tanto por ele como por Mota Soares, que na altura também considerava demitir-se. Essa portaria passou quase desapercebida em meio a crise política que se seguiu. No entanto, é gravíssima pois concretiza as ameaças do governo ao Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social (FEFSS). O referido diploma ordena ao Instituto de Gestão de Fundos de Capitalização da Segurança Social (IGFCSS) que proceda à substituição dos activos em outros estados da OCDE por dívida pública portuguesa até ao limite de 90% da carteira de activos do Fundo. Ou seja, o dinheiro pertencente aos trabalhadores, acumulado naquele Fundo para servir a Segurança Social, será lançado à voragem do financiamento da impagável dívida pública portuguesa. Este governo moribundo até o último minuto cumpre as imposições da Troika. E o governo recauchutado que eles pretendem seria a continuação deste”
        Pedro Mota Soares é a face visível dos cappos ao serviço de.
        Mas há mais

        • JgMenos diz:

          Finalmente os ‘trabalhadores’ vão aperceber-se que os défices do Estado lhes podem ir ao bolso? Um muito bom princípio!

          • De diz:

            Equivocado mais uma vez.
            As pessoas já se aperceberam que o estado ao serviço do capital vai sistematicamente buscar ao bolso dos que trabalham o dinheiro de que necessitam para pagar as PPP, swaps, BPN,BPP; Banifs e juros aos agiotas de turno.Desta forma o “muito bom princípio” invocado pelo Menos é directamente proporcional às aspas que o referido menos coloca na palavra “trabalhadores”.
            Até lhe queima os dedos.
            🙂

  3. Miguel diz:

    Lúcia Gomes, os meus parabéns pelas merecidas e justas palavras que teve com o carreirista, fascista e mentiroso Pedro Mota Soares.
    Pedro Mota Soares é uma pessoa irritante, com a mania e a desculpa de falar muito e depressa para meia dúzia de microfones, mas se queremos o Pedro Mota Soares realista, veja-se o modo como tratou um grupo de deficientes que procurava ser atendido pelo ministro. Para além de os não atender, utilizou as televisões para se queixar do mesmo grupo, dizendo que se o tivessem procurado os teria atendido. Um acto medíocre de um ministro revestido de mediocridade em todos os níveis e sentidos.
    Se há pessoas que o defendem, é porque essas mesmas fazem parte de uma sociedade doente que, por sua vez, defendem aqueles que lhes fazem mal.

  4. josé sequeira diz:

    Cara Lúcia
    Se me enganei em relação a si, retiro imediatamente o que escrevi, ao mesmo tempo que lhe apresento o meu pedido de desculpas.
    Em relação à discordância com o que v. escreve sobre o actual ministro da Solid., Seg. Soc. etc… a opinião mantém-se.

  5. libertário diz:

    Claro que não é apparatchick…

    Lúcia Gomes

    Natural de Santa Maria da Feira
    Advogada, 28 anos
    Membro da Comissão do PCP para os Assuntos Sociais
    Membro da Comissão do PCP para a luta e movimentos de mulheres
    Membro da Direcção Nacional do Movimento Democrático de Mulheres
    Membro fundador da Associação Fronteiras – Associação para a Defesa dos Direitos e Liberdades Democráticas
    Eleita na Assembleia Municipal de Santa Maria da Feira

    (http://santamariadafeira.pcp.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=353:lucia-gomes&catid=87:eleitos-cdu&Itemid=76)

    • Lúcia Gomes diz:

      Caro libertário,
      se ainda não aprendeu com o hoax do PSD ou o processo contra o Correio da Manhã, informe-se.
      De qualquer forma, obrigada por me dar 28 anos. Onde já vão.
      E não, não sou apparatchick.
      Mas não me faz comichão nenhuma se fosse.

    • isabel p. diz:

      onde se escreve “libertário”, leia-se “pide”

  6. Rafael diz:

    AI, as pessoas não saem á rua…Vamos levá-las à Praça de Espanha.
    Ai, as pessoas não saem à rua…Vamos convocar uma greve geral para 2 meses depois do 15 de Setembro.
    Ai, as pessoas não saem à rua…Vamos esperar para fazer uma manif até 2 de Março.
    Ai, as pessoas não saem à rua…Vamos levá-las para a Praça do Comércio e não para São Bento e depois não vamos esperar sequer que as centenas de milhares chegam ao Terreiro e vamos já apagar as luzes e arrumar o palco.
    Ai, as pessoas não saem á rua…Vamos fazer uma manifestação dois longos meses depois até à Alameda.( Que miúfas de ir á São Bento).
    Ai, as pessoas não saem à rua…Vamos marcar uma greve geral para finais de Junho, quase 5 meses depois da última manif de massas a 2 de Março.

    Mas tomam-nos por palermas ou quê?

    • Miguel diz:

      Infelizmente, tomo o seu comentário como palerma e o seu ataque a Lúcia Gomes como degradante. A fórmula “apparatchick” é usada pela JSD e por vastas camadas de juventudes do chamado centro democrático cristão para atacar comunistas. Faz lembrar aqueles que usavam da propaganda nazi para atacar comunistas, mas pessoas como o Rafael não aprendem. São aquilo que podemos chamar de “palermas”.

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