Cavaco Silva: uma mistura de inépcia com coerência miserável

Cavaco Silva deu mostras, uma vez mais, da imensa inépcia que já me levou a caracterizá-lo aqui como um palonço que se tem numa excessiva conta. Note-se que estou a analisá-lo tomando por bitola a baixíssima “política” dos calculismos, dos golpes de bastidores e das punhaladas nas costas que fazem as delícias da vida partidária do “centrão” e do comentarismo nacional (os leitores farão a fineza de presumir que, para mim, política é outra coisa). Portanto, nessa perspectiva, Cavaco Silva deu um tiro de bazuka no pé. Arrogantemente convencido de que ia colocar os partidos da direita e do centrão no seu lugar, e que podia gozar de uma vingançazinha pessoal contra Passos Coelho e, sobretudo, contra Portas (que ele odeia), pensou que PSD, PS e CDS se iam vergar aos ditames da sua augusta pessoa. Começou então por recusar a remodelação governamental apresentada por Passos Coelho, converteu o governo em funções num mero governo de gestão e deslocou as eleições antecipadas para daqui a um ano. Ou seja: quis impor a cada um dos três partidos o contrário do que cada um desejava. De caminho, pretendeu forçar um acordo que tornaria ainda mais irrelevante a já escassa democracia do actual regime português, acarretando décadas de austeritarismo consumado por cima de qualquer resultado eleitoral.

Ontem Cavaco viu-se obrigado a engolir em seco todo este desígnio, regressando, humilhado, à posição em que se tinha auto-colocado antes: a de apoiante incondicional de um governo PSD-CDS, seja qual for a configuração que este assuma. Paulo Portas deve estar a rebolar-se de gozo: a vingança, afinal, é dele. Após a sucessão de peripécias circenses em que esteve envolvido, as quais determinariam a morte política “irrevogável” num qualquer país decente mas que, em Portugal, passam pelo cúmulo da astúcia, Paulo Portas emerge deste episódio como o grande triunfador. Cenas rocambolescas destas só na recta final da monarquia constitucional portuguesa – o que significa que há antecedentes históricos para isto e que nem nos podemos consolar com o pensamento de que Portugal nunca tinha descido tão baixo.

É claro que não poderíamos esperar outra decisão por parte da múmia pardacenta que ocupa a cadeira da Presidência da República. Cavaco não pode ser mais do que Cavaco. Manter o governo em funções significa preservar a continuação de uma política de agressão aos direitos sociais dos trabalhadores, uma política de transferência maciça de riqueza para os detentores do grande capital, uma política de perpetuação do conluio entre o empresariado monopolista e o poder executivo. Uma política com a qual Cavaco sempre se identificou e que já estava em estado germinal no seu programa enquanto primeiro-ministro. Foi ele, aliás, que deu os primeiros passos na sua direcção ao reconstituir os grandes grupos monopolistas através das reprivatizações. Na altura, as condições de acumulação de capital, com a chuva de fundos comunitários que foram alimentar as contas bancárias do costume, não necessitaram de uma destruição sistemática dos direitos sociais e laborais. E essa é a diferença significativa que distingue a era de Cavaco primeiro-ministro do momento actual (há outras, claro, como o facto de as conquistas revolucionárias de 74-75 ainda estarem, na altura, relativamente frescas e de o movimento sindical da época conservar muita da força que havia alcançado no período revolucionário). Portanto, há uma coerência na actuação de Cavaco Silva. Coerência miserável, porém, que atinge os interesses de todos os que vivem de um trabalho digno.

Seguem-se os próximos números da tragicomédia que nos anda a ser servida diariamente. O governo tem as mãos livres para propagandear agora a retórica do “crescimento”, ao mesmo tempo que se prepara para baixar ainda mais os salários dos trabalhadores do Estado e para despedir massivamente boa parte dos mesmos. A um Verão de temperatura indeterminada seguir-se-á o Outono e o Inverno do nosso descontentamento. Assim saibamos transformá-lo numa grande recusa colectiva.

Nota: Para uma interessante leitura alternativa à que eu aqui faço, leitura que atribui a Cavaco uma inteligência mesquinha e egocentrada durante todo o processo que desembocou na declaração de ontem, pode ler-se este texto do Daniel Oliveira.

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