A hora da esquerda

Excelente análise, a que o Frederico faz aqui, e que tem o mérito de permitir pensar que possibilidades, na conjuntura actual, se abrem ou se fecham a uma alternativa de esquerda.

Há quem considere que, no quadro político-partidário em vigor, eleições antecipadas não irão alterar substancialmente as políticas austeritárias em curso. Confesso que hesito perante esta opinião. Digamos que tenho dias. A verdade é que, num sistema reduzido a promover a alternância entre Dupond e Dupont, o acesso do Partido Socialista ao poder executivo poderá muito bem pautar-se, no essencial, pela replicação das medidas e do ideário subjacente ao memorando de entendimento. Ora, como o Frederico sublinha, o PS deseja a quadratura do círculo, procurando agradar a gregos e a “troikanos”. Parte dessa postura pode ser mera poeira nos olhos a pensar já nas eleições que, tarde ou cedo, serão antecipadas, ou um ingénuo “wishful thinking” que a “dura realidade” de uma Europa hegemonizada pela Alemanha se encarregará de destruir. E, por falar na Alemanha, vários sinais apontam para que das próximas eleições alemãs saia uma posição ainda mais agressiva face aos países do Sul da Europa. Portanto, contar com soluções dependentes da escala europeia (ou da União que se reclama desse adjectivo) é incorrer numa ilusão. De uma maneira ou de outra, o PS, se insistir no caminho do austeritarismo “suave”, acabará confrontado com a exigência externa de novos ataques aos direitos sociais e laborais. E quase tudo no passado desse partido indica que ele sucumbirá – com escassa relutância – a tais pressões, assumindo um papel idêntico ao que PSD e CDS adoptam no momento presente.

A menos que…

… haja no interior do PS correntes favoráveis a um entendimento com o PCP e o BE e que estas se possam revestir de influência suficiente para conduzir o PS às necessárias rupturas – a começar pela ruptura com o próprio memorando da troika. Num quadro em que as mudanças políticas de vulto só se podem operar por via eleitoral, essa parece ser a única via para romper com os bloqueios institucionais e políticos que têm impedido a criação de alternativas dotadas de operacionalidade (é uma palavra feia, mas não me ocorre outra melhor). Dir-me-ão: com a actual direcção do PS, esperar por isso é tão ingénuo como esperar que esse partido resolva a quadratura do círculo acima referida. É muito (mas mesmo muito) provável. Porém, nesse caso, e na ausência mais do que previsível de um grande levantamento popular que arraste consigo a demolição do sistema vigente, teremos de nos confrontar com a nossa impotência. É isso que queremos?

Esta entrada foi publicada em 5dias. ligação permanente.

18 respostas a A hora da esquerda

  1. Frederico Aleixo diz:

    Sou sincero, Mário. Estou pessimista em relação a essa inversão do PS. A não ser que exista essa tal ruptura que obrigue à realização de um Congresso Extraordinário que eleve outra direcção para o partido. Mas mesmo nesse cenário o jogo está viciado à partida com o controlo da maiora das distritais por parte de Seguro. Pelo menos teoricamente. Sempre se pode especular sobre um levantamento massivo de militantes a exigir uma viragem à esquerda. Um cenário bem possível se o PS tivesse acordado este compromisso.

    Mas existe outro factor que é referido neste texto que pode ter muita influência na orientação do PS. Refiro-me ao próprio processo de ajustamento daqui para a frente. Quando as esperanças de uma Europa mais solidária se esvaziarem e as perspectivas de futuro se revelarem infundadas, temos de acreditar e lutar por uma maioria social de esquerda que rejeite este caminho. E atropelar o PS, se preciso for.

    • Mário Machaqueiro diz:

      Eu também estou muito pessimista, Frederico. E subscrevo tudo o que dizes. Quando vejo elementos da direcção do PS elegerem o PCP como adversário principal, está tudo dito. E tenho sérias reservas sobre a firmeza da coluna vertebral do António José Seguro, até porque conheço bem a sua trajectória gelatinosa quando andei metido na luta dos professores.

  2. Antónimo diz:

    Essa de aguardar que no PS surjam correntes favoráveis a um entendimento com o BE e o PCP anda a fermentar desde pelo menos as experiências bloquistas com o Alegre (há também os casos Sá Fernandes e Rui Tavares). Com todo o sucesso que se conhece.

    Só o crescimento do PCP e do BE – que se vai operando, mas que é revogável no sentido clássico – poderá forçar o PS a coligar com a esquerda.

    • Mário Machaqueiro diz:

      Caro Antónimo,

      Posso não ter dado indicações nesse sentido, mas a verdade é que concordo consigo. Descanse, pois eu também considero o Alegre um enorme (e precipitado) tiro no pé que o BE desferiu, e os casos Sá Fernandes e Rui Tavares parece-me muito pouco estimáveis (até aprecio as qualidades intelectuais de Rui Tavares, mas as últimas piruetas políticas dele não me comovem nem um bocadinho). Resta saber se o PCP e o BE têm feito (e estão a fazer) tudo ao seu alcance para crescerem eleitoralmente de modo a poderem pressionar no sentido que sugere.

      • Antónimo diz:

        Caro Mário Machaqueiro, Já me apercebi desse seu certo desapreço pelas figuras políticas de Alegre, Tavares e Fernandes, mas não é demais lembrarmos que a aposta na convergência com o PS tem, não tarda, uma década sem que isso comova os “socialistas”.

        Não sei se BE e PCP têm feito tudo, mas também não embarco na conversa de muitos (não o estou a incluir) que sistematicamente descontextualizam as afirmações dos líderes desses partidos atribuindo-lhes posições sem nuances e sem matizes, como se cada nova afirmação fosse tábua rasa do que está para trás sem qualquer enquadramento.

        Pelo que me parece – o comentário jornalístico e as notícias dizem o contrário – o PCP tem dado passos no caminho da convergência (não refiro o BE, pois no caso deles esse caminho tem sido mais que óbvio). Poderá ser curto, mas Infelizmente há muitos incapazes de lerem o que está nas entrelinhas e no tom de uum texto, demasiados amarrados ao literal. Quando o PCP diz o que quer, estará a estabelecer o seu ponto de chegada, mas também o de partida – a convidar os outros a criticarem-lhe as posições.

        E quais são as grandes questões em cima da mesa que afectam uma ligação do BE e do PCP ao PS?: A integração europeia, o euro, a negociação do memorando e a NATO.

        Embora Semedo tenha recentemente pedido a saída da OTAN, não tenho grandes dúvidas de que quer o BE quer o PCP bem deixarão essa questão de fora na altura de uma convergência. A participação em missões futuras é outra questão, mas acho que BE e PCP percebem que o Afeganistão, por exemplo, não se pode abandonar. Tenho um ponto de vista. Quem fez a merda que a limpe. E nós (com a NATO) fizemos merda da grossa por lá. Não convém que agora digamos aos gajos para se desenrascarem sozinhos e acabarem de se destruir sozinhos.

        Pelo que conheço de militantes do PS (e apoiantes como tenho em casa), boa parte deles é contra a integração acrítica na união europeia e no euro, sendo até a favor do rasganço do memorando, por saberem que aquilo é impagável. Só tornando claro o que se pensa (o que o comentário e os jornais não facilitam) podem os militantes e apoiantes forçar as direcções do PS (Costa é um homem estruturalmente de direita e foi um terrível ministro da Justiça e da Amdinistração Interna) a agir segundo o que elas pensam. Até aqui, muitos deles votam útil por causa de correntes como a alegrista ou a ferrista que na hora dos governos nunca vêem vencer os pontos de vista.

        • Mário Machaqueiro diz:

          Muitas vezes temos tendência (eu incluído) para encarar os partidos como se eles fosse entidades monolíticas, quando, na verdade, são atravessados por correntes divergentes, contraditórias e conflituais. O seu comentário toca num ponto essencial: há militantes de base do PS (conheço vários) que não se revêem numa boa parte das orientações da sua direcção. A questão é saber quantos são, que força representam, que capacidade têm de se fazer representar na Assembleia da República ou de influenciar protagonistas internos capazes (e com vontade) de operar transformações internas no partido. Não podemos, claro está, ignorar que estas transformações, no sentido que desejamos, sofrem o imenso obstáculo de o PS ser há muito tempo, tal como o PSD, uma agência de emprego para políticos profissionais que, fora do partido, estariam destinados a carreiras medíocres, sendo igualmente uma das instituições partidárias que mais tem contribuído para consolidar o “centrão dos interesses” que articula, numa espiral de corrupção e de tráfico de influências, o aparelho de Estado com os grandes grupos monopolistas que vivem de rendas garantidas por esse aparelho. O PS tem sido, sobretudo, isso, mas não é só isso. O problema é como potenciar politicamente esse “não só isso” que o PS é.
          Quanto aos quatro pontos de desacordo que refere – a integração europeia, o euro, o memorando e a NATO -, julgo que aí teria de haver cedências tanto da parte do PCP e do BE, por um lado, como do PS, por outro, caso se abrisse uma hipótese de negociação entre esses partidos. Embora eu defenda a saída de Portugal da NATO, a par de uma redução drástica dos nossos efectivos militares – Portugal precisa de pouco mais do que uma marinha para vigiar as suas águas territoriais -, julgo que esse assunto sensível teria de ser posto provisoriamente de lado pelos partidos de esquerda para obterem, por exemplo, a decisão do PS de romper com o memorando da troika. Mas convém lembrar que as questões europeias dividem os próprios partidos à esquerda do PS – o BE mais favorável do que o PC à continuação de Portugal no seio da UE, defendendo, contra o PC, a permanência do nosso país na zona euro. Creio mesmo que estas questões dividem cada um desses partidos. O que significa que estes desentendimentos em nada propiciam a construção de unidades e convergências.

          • Antónimo diz:

            Pegando só nas três questões finais – a nato é neste ponto irrelevante.

            O memorando terá de ser rasgado. nunca nos tempos mais próximos teremos dinheiro para pagar aqueles juros. Nem que o IRS e o IRC cresçam bastante.

            Quanto à Europa e ao Euro, julgo haver possibilidades de convergência mais que reais entre o PCP e o BE. O PCP é mais crítico, mas não disse nada definitivo sobre deixar a Europa ou o euro. E a permanência no euro é um assunto que divide o BE (basta ir aos Ladrões de Bicicletas) e muita gente fora do BE (veja-se Ferreira do Amaral). Por outro lado, parece-me que o PCP também não defendeu assim a saída. Defendeu é que mais cedo ou mais tarde podemos ser forçados a sair e que nesse caso devemos ir pondo essa questão em cima da mesa para nos defendermos – o que é um mundo de diferença apesar de tudo) .

          • Mário Machaqueiro diz:

            É verdade que o PCP tem feito uma evolução quanto à permanência de Portugal na União Europeia, não pelos méritos da coisa em si (cada vez menos meritória), mas pela consciência dos custos de rupturas abruptas e radicais com laços e compromissos internacionais. Eu não digo que as pontes para entendimentos à esquerda estejam cortadas à partida. Seria dramático se assim fosse.

      • Rocha diz:

        Coligar o PS à esquerda? Muitas voltas dão vocês à cabeça para salvar o regime (cuja espinha dorsal é o PS), esqueçam… este regime colonial capitalista NATO-UE está condenado.

        • Mário Machaqueiro diz:

          Está condenado? E quando ocorrerá esse desejável óbito? E, até lá, quanto sofrimento social teremos de aguentar? Em vez de se esperar, como alguns esperam há mais de cem anos, pelo sempre anunciado e nunca consumado colapso do sistema capitalista – que parece ter esta maldita capacidade de renascer das cinzas e de se renovar com as suas próprias crises – não seria preferível tentarmos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para conquistar e alargar o mais possível os espaços de liberdade e de justiça social? Não foi esse o sentido dos movimentos sociais – do movimento operário – nos séculos XIX e XX? E não implica isso ter de fazer cedências e abandonar maximalismos tão ambiciosos quanto estéreis? Afinal, os próprios partidos social-democratas – no sentido que esta expressão tinha no início do séc. XX – souberam distinguir entre um programa mínimo e um programa máximo, não é verdade?

        • Antónimo diz:

          Rocha, O José M. Júdice também quer acabar com estes partidos. Eu não acredito em coligar o PS, mas acredito em coligar a esquerda do PS, esteja ou não formalmente no partido.

  3. Nuno Cardoso da Silva diz:

    Mário,

    Há várias questões a considerar:

    1. Há alternativas face à crise, à dívida e à troika, embora não sejam bem aquelas de que se fala normalmente. Muita gente parece esquecer que, no que diz respeito a dívidas soberanas, quem tem a força é o devedor, e não o credor. Desde que, claro está, o devedor tenha tapado os buracos que levam ao aumento sistemático da dívida.

    2. Acordos da esquerda com o PS não se podem fazer antes das eleições. Só depois, e se a esquerda à esquerda do PS tiver a inteligência de concorrer em coligação, o que lhe permitiria ficar entre os 25% e os 30% dos votos. Só esse sucesso da esquerda pode levar a esquerda do PS a forçar um acordo de governo à esquerda.

    3. A Europa é, para já, para ignorar. Tal como só vale a pena falar com o PS se a esquerda coligada tiver uma expressão eleitoral que se veja, também só vale a pena falar com a Europa depois de se ter um governo PS-BE-PCP-Independentes que saiba o que quer e saiba forçar a Europa a aceitar o plano que vier a ser estabelecido. Sempre na perspectiva de que o devedor tem mais força do que o credor.

    O meu receio é que a esquerda não tenha a imaginação e a inteligência para detectar as oportunidades e agir de acordo com elas.

    • Mário Machaqueiro diz:

      Pois, Nuno. Assino por baixo. Todos os pontos e, com tristeza, o parágrafo final também. Mas acho que nunca como hoje importa frisar que PCP e BE precisam de ter uma estratégia de poder que os coloque como parceiros potenciais de um governo. E precisam de mostrar publicamente que têm essa estratégia. Oxalá tenham a tal imaginação e a tal inteligência para centrarem a próxima campanha eleitoral nessa estratégia, preferencialmente coligados, de modo a evitar os erros crassos que os atiraram – sobretudo o BE – para uma quase irrelevância política nas últimas eleições.

      • Antónimo diz:

        Não acho que o BE se tenha tornado uma quase irrelevância política. Isso não se mede apenas pelos lugares no parlamento. Não se nota a sua queda na comunicação social, quem é quem define a relevância.

  4. Jfs diz:

    O grande obstáculo a um entendimento à esquerda é a questão europeia, que nao é de menor importância. Pelo contrario, uma vez que rasgar o memorando implicaria quase de certeza a saída do Euro (Chipre foi forçado a aceitar o programa). O PS nunca vai aceitar tal facto, na população em geral essa é uma posição minoritária e mesmo à esquerda existe desacordo ( o BE foge de assumir posições em relação à Europa como o diabo da cruz).
    Confesso que a situação é complicada e só posso esperar que uma renegociação tenha algum sucesso mas duvido. Os credores ainda têm a faca e o queijo na mão e ensar o contrario é wishful thinking…

    • Mário Machaqueiro diz:

      Há gente de esquerda que tem desenvolvido ideias para combater o memorando e até romper com ele que não exigem, contudo, a saída de Portugal do euro. Um exemplo disso é o que o Francisco Louçã tem proposto (para potenciais detractores quero aqui frisar que o facto de dar o Louçã como exemplo não significa que eu aprove a totalidade das suas sugestões). Quer-me parecer que o PCP é mais evasivo do que o BE em relação à Europa. Há quem o critique por excesso de nacionalismo ou por querer focalizar as soluções numa escala predominantemente portuguesa. Já escrevi aqui que, a esse respeito, a minha posição é mista, mas inclina-se, por uma questão de urgência colectiva, a privilegiar respostas que os portugueses possam dar sem estarem à espera de uma conjugação ideal de condições a nível europeu.

      • Jfs diz:

        Em parte tem razão mas veja por exemplo este artigo do Francisco Louçã: http://www.esquerda.net/opiniao/uma-agenda-não-condescendente-para-o-debate-da-d%C3%ADvida-e-do-euro/27989

        Admite que uma renegociação da divida pode levar a uma saída do euro e em condições muito desfavoráveis visto que entraríamos em conflito com outros países europeus. Penso que até ele admite que as consequências no curto-médio prazo seriam praticamente insuportáveis. Restam na minha opinião 2 soluções: uma improvável saída do euro apoiada por parceiros europeus que o próprio Louçã admite ser praticamente impossível ou uma extensão da luta ao nível europeu. Apesar de também ser difícil de concretizar penso que será um objectivo atingível. Até lá temos de tentar diminuir a austeridade o mais possível. Não é popular defender isto sem ser imediatamente apelidado de traidor e colaboracionista à esquerda mas nao podemos saltar da frigideira para o lume só para sermos vanguardistas!

        Saudações

    • Antónimo diz:

      Em nenhum momento recente, PCP ou BE defenderam a saída da UNuião Europeia. E nem sequer do euro. Essa ideia de que sair do euro é o mesmo que sair da União Europeia, que Rui Tavares propala, por exemplo, é também falsa. PCP e BE defendem uma integração crítica da União Europeia, tal como o defendem muitos apoiantes do PS que conheço. Defendem uma Europa social e de trabalhista. Não é a presença na União Europeia que impede uma convergência. O que impede a convergência é que sucessivas direcções do PS receiam romper com a neo-liberalização, financeirização e off-shorização da Europa.

      De qualquer forma, tenho a impressão de que vamos ser mesmo forçados a sair do euro. A população acha muita coisa por medo. Mas esquecem que a perda salarial que já tiveram desde a entrada em vigor do memorando com a tróica talvez tivesse ficado ela por ela se tivéssemos saído do euro nessa altura e entretanto já poderiamos ter lançado políticas de recuperação.

      A economia é do domínio da vidência e não da ciência, mas nestas coisas prefiro seguir os que previram o que nos realmente ia acontecer (por exemplo, Joao Ferreira do Amaral, irmão e filho de um visconde, ou octávio teixeira) dos que nos venderam um sonho marado com a moeda única., com o os economistas do PS ou as Teresas de Sousa do comentário europeu.

      Para concluir, nem PCP, nem BE defenderam ainda a saída da moeda única, e por isso não será ela à partida que impedir a convergência. Agora, que PCP, quer BE quererão subir a parada e colocar a saída em cima da mesa, de modo a forçar alemanhas, holandas, finlândias e os credores a negociar. E isso deveria ser um desígnio do PS.

Os comentários estão fechados.