Uma maioria, um presidente, uma merda

as revoluções começam sempre nas ruas sem saída-1

(Desenho fanado à Gui)

Este Presidente afirmou hoje que quer garantir este governo, durante toda a legislatura, independentemente dos resultados desastrosos da sua política, ou mesmo para garantir os resultados desastrosos dessa mesma política. O que Cavaco pretende não é a recuperação económica do país e do emprego, mas é a concretização do plano da troika: tornar Portugal um devedor crónico que seja obrigado a executar durante décadas um plano de empobrecimento generalizado da população, para criar uma China na Europa do sul. E, ao mesmo tempo, garantir uma nova fatia dos rendimentos ao capital financeiro à conta da destruição do Estado Social e alienação das empresas públicas.

Não existe um interesse nacional, existem vários interesses em Portugal, este governo e este Presidente defendem os do capital financeiro e dos credores internacionais, mesmo à conta da perda de direitos sociais e políticos dos portugueses.

Não é preciso ser muito esperto para perceber que com a continua destruição de empregos e do aparelho produtivo, com o crescimento da dívida e com o aumento da recessão provocado pelos novos cortes de mais de 4 mil milhões de euros, vamos chegar ao fim do período de intervenção da troika, em Junho de 2014, com mais problemas económicos de que quando a famosa “ajuda” cá chegou.

Mesmo que os juros da agiotagem caíssem para valores abaixo dos 5%, isso não significa um regresso duradouro aos mercados: um país não pode ir buscar dinheiro a 5%, se não cresce mais que esse valor. Acresce que para atingirmos os valores de dívida que nos obrigam é preciso nos próximos 20 anos andarmos a pagar mais de 5 mil milhões por ano, para além dos juros crescentes do serviço da dívida.

Depois do primeiro resgate, seguir-se-á o segundo, o terceiro e assim sucessivamente, caso não seja alterada esta política.

Obviamente, do ponto de vista meramente económico esta política é um desastre, como até o demissionário Vítor Gaspar reconheceu na sua carta de demissão. Ela tem outros objectivos. Existe um plano a nível europeu de reduzir os direitos sociais na Europa e de destruir o Estado Social europeu, dando mais rendimentos e novos mercados ao grande capital financeiro. Depois da crise de 2008, os decisores políticos falaram em controlar os mercados financeiros e extirpar as offshores, mas nada disso foi feito. Pelo contrário foram desviados biliões de dólares para garantir que a banca sobrevivesse à crise que provocou e foram-lhes dadas as condições políticas e económicas para continuarem a lucrar à conta do empobrecimento dos contribuintes e a perda de direitos dos cidadãos europeus.

Num recente estudo do Instituto Europeu da Faculdade de Direito revelou-se que apenas 10,8 % dos portugueses tinham confiança no Memorando da troika e pretendia que ele continuasse inalterado. É por essa razão que Cavaco e Passos não querem eleições. Sabem que há muito perderam a confiança dos portugueses. Não é de admirar que Passos Coelho afirme que “não há nada mais incerto que as eleições” e que por isso se deve evitar dar a voz ao povo. Não vão os “mercados” constiparem-se. Aliás, não fazemos nada sem mendigar a aprovação desses ditos “mercados” mesmo que a benção, daqueles que lucram com a política para “os mercados”, nos conduza sempre a uma posição subalterna em que estejamos a pagar juros de agiotagem para garantir a sua fatia crescente de lucros.

O Presidente retirou a possibilidade que o normal funcionamento das instituições garanta o cumprimento da vontade popular de alterar esta política e de correr com este governo. Mas por muito que queira, os governos não conseguem sobreviver contra a vontade da sua população para todo o sempre. Cavaco pode declarar a sua inutilidade total para a democracia, mas não pode calar a vontade do povo. Quem costuma construir muros esquece-se que eles podem ser derrubados e que, na maioria das vezes, os autores, ficam soterrados nos seus escombros.

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12 respostas a Uma maioria, um presidente, uma merda

  1. Nuno Cardoso da Silva diz:

    É evidente que a resposta a este Presidente, não podendo ser dada normalmente em eleições, terá de ser dada na rua, através de grandes manifestações que provem qual é a vontade do povo português. O Presidente não quer eleições porque tem medo da vontade do povo? Pois o povo vai impor-lhe a sua vontade de forma clara e inequívoca. Engana-se quem pensa que o povo é ignorante, estúpido e impotente. O povo terá, como sempre, a última palavra. E era muito melhor que essa palavra fosse dada pelas urnas. Mas os estúpidos que nos desgovernam não percebem isso, até que nós lhes enfiemos pela boca abaixo a nossa verdade e a nossa vontade. O caminho agora é para a rua, às centenas de milhar, por esse país fora, até que os tiranetes sejam derrubados.

  2. De diz:

    A merda acabará por cair sobre os responsáveis pela merda.

    Vamos à luta

    (com um abraço pelo outro texto)

  3. Adão Contreiras diz:

    Para mim para alem do que aqui é dito e que concordo, há na atuação do “Presidente” um revanchismo da mediocracia: promete uma “cenoura” ao PS – eleições antecipadas, para que aceite as condições da troika, dos mercados e dos interesses instalados; como não deu resultado imediato, vingou-se – toma lá, então, eleições no fim da legislatura! O Sôr Silva é esperto!!!!

  4. O Presidente de alguns Portugueses, exige que o Desgoverno quevai tomar posse, apresente uma moção de confiança. Isto é gozar com o povo. Os deputados da oposição devem entrar mudos e sairem calados, sem exprimirem o seu voto, será o descrédito da AR, por culpa exclusiva daquele que Sousa Tavares chama “artista de circo”

  5. Adão Contreiras diz:

    digo: um revanchismo da mediocridade

  6. Hugo diz:

    Dentro de dois meses haverá eleições autárquicas. O PSD e o CDS-PP vão sofrer nas urnas o que andam a fazer aos portugueses há dois anos. Por certo, que haverá outra crise na coligação fascista no dia 29 de Setembro. Resta saber, qual o discurso que Cavaco Silva irá fazer no dia 30 de Setembro ou se terá primeiro de encenar mais uma visita a outra ilha portuguesa?

  7. José Sequeira diz:

    Uma pergunta: Porque é que “vocês” não organizam uma manifestação gigantesca até que o governo caia, fazendo, por exemplo, do Terreiro do Paço uma praça Tahir, uma revolução como existiu na Ucrânia ou até o que se vê no Brasil ou na Turquia. Atenção, tem de ter permanentemente, noite e dia, pelo menos 300 a 400.000 pessoas. Com 2,5 milhões de reformados a passar dificuldades e 1 milhão de desempregados e centenas de milhar de funcionários públicos roubados, não deve ser difícil. Não podem é ser manifestações de 20 ou 30 pessoas, sempre as mesmas, profissionais do sindicalismo ou funcionárias do partido, a chatear ministros e deputados. Isso não dá nada.
    Fica a pergunta. Eu sei a resposta mas tenho curiosidade em conhecer a vossa.

    • De diz:

      Ó Sequeira .mas vossemecê tem cada ideia.
      Mas agora quer copianço no modo de acção? Tchtchtch.que falta de originalidade.

      Ó Sequeira, mas vossemecê mistura o que não é misturável?A Turquia com o Brasil e com a Ucrânia? Houve alguma revolução na Ucrânia que deva ser imitada? E fala na Turquia onde a extrema-direita com cariz fundamentalista religioso, neo-liberal por opção económica, mostra o motivo pelo qual tem como aliado principal os EUA? Da forma brutal como esse país da Nato o faz?Tchtchtch..que confusão vai nessa cabeça

      Ó Sequeira., mas agora vossemecê tem regras (não ginecológicas mas quase) em que tenta estabelecer um plano para a queda deste governo de crápulas?Tchtchtch,que limitado.Porque diacho não aventou outras hipóteses com efeitos mais duradouros?Por exemplo no 25 de Abril lembra-se?Claro que não faço ideia onde estava…
      Ó Sequeira mas há mais exemplos elucidativos.Por exemplo no século XVIII quando decidiram avançar a História avançando para a liberdade,igualdade e fraternidade.A Revolução Francesa lembra-se?
      Ou então porque não uma fita à Portas , com gritos semi-histéricos à mistura? Ou a prisão de elementos do governo com ligações ao BPN ou ao João Rendeiro que motivem a falta de quórum do dito cujo

      Ó Sequeira ,mas vossemecê não satisfeito com uma tão medíocre paleta de casos, ainda por cima quer impor limitações quanto ao modo,exigindo “não profissionais do sindicalismo ou funcionários do partido”?.Mas ó Sequeira vossemecê endoidou?Agora quer pedir o passaporte ou o BI a quem se manifesta contra os crápulas?Que trejeitos esses ó Sequeira que lhe ficam tão a matar e que lembram tanto o 24 de Abril. Uma espécie de “identifique-se” para que possa exercer os seus direitos,? Por outro lado que ideias de coscuvilheira tonta fervilham nessa sua cabeça, que aparece assim formatada para achar que as manifestações têm apenas 20 a 30 pessoas e que são constituídas pelo pessoal que diz

      Ó Sequeira então se vossemecê sabe a sua resposta, quer que a “nossa” seja a mesma que a sua?Francamente Acha mesmo? E já agora Sequeira estamos aqui par lhe satisfazer essa curiosidade serôdia? Tchtchtch

      Ó Sequeira mas porque será que, mesmo no campo das legitimidades estritamente democráticas o governo, o seu presidente e os serventuários dos mesmos mostrem tanto medo perante a apresentação de uma moção de confiança perante os portugueses e se acagaçem tanto perante a hipótese de eleições?

      Ó Sequeira quer ouvir os esgares do chefe do cartel ? P. Coelho a 18 de julho perante jornalistas, no Conselho nacional do PSD: “Não há coisa mais incerta que as eleições, se não tivermos cuidado a lidar com este tópico específico, podemos estar a criar condições de incerteza que acabem por comprometer os esforços que queremos realizar de (sic) regressar aos mercados com confiança dos investidores”.
      Coelho convive tão mal com a democracia e tão bem com os mercados,não é?

      Ó Sequeira mas a História não acabou pois não?
      🙂

  8. josé sequeira diz:

    Meu caro De
    É claro que sei a minha resposta. E é também claro que a minha resposta é apenas uma das muitas possíveis para esta questão.
    Sabemos (eu pelo menos acho) que só há três maneiras de fazer cair o governo e promover as tão ansiadas eleições (podíamos discutir o que se pretende com as eleições, mas isso são outras contas): ou por implosão interna total, ou por intervenção do Cavaco, ou por pressão da rua. Como a implosão que existiu foi minimamente controlada pelos partidos do governo, o Cavaco não se meteu nisso (ou saiu a meio, não interessa), só resta a rua. Ora a rua (aí a razão do meu comentário), para funcionar, tem de ser “à séria”, daí a comparação com as situações que referi, mas apenas no que respeita ao NÚMERO de manifestantes e à DURAÇÃO das manifestações, nunca em termos de comparações com pressupostos políticos ou organizacionais de cada uma das outras.
    O seu comentário é longo e concordo consigo em quase tudo; apenas acho que a democracia é mesmo assim: Há eleições de 4 em 4 anos. Nesse dia, graças à revolução do 25 de Abril, todos podemos votar em igualdade e liberdade. Os resultados são o que são. Quem acha que foi enganado (o que eu duvido) tem nova oportunidade num prazo relativamente curto.
    Cumprimentos.

    Já agora, no 25 de Abril, estive parte do dia aquartelado e a outra parte (a melhor) na rua, vestido de verde e com uma “canhota” ao ombro; por acaso não me calhou nenhum cravo no cano.

    • De diz:

      Acho que a mania de ver as coisas dessa forma tão mecanicista tem coisas que depois não combina a bota com a perdigota.
      A cena triste dos papagaios emplumados em que vimos Portas a competir com o pior aldrabão de feira ,Passos a fazer cenas de malabarista medíocre e Cavaco a cumprir da forma invertebrada que se reconhece, o seu penoso papel, não resultou do nada.
      Tais cenas tristes foram fruto directo da contestação de que foram alvo os que governam para os seus interesses de classe.
      Até teve o seu papel histórico (dizem as más línguas) quem crismou aquele ministro neoliberal. Ele percebeu enfim o que as pessoas pensavam dele
      Daí que esse seu esquema rebenta logo com o primeiro tiro.Os esquemas feitos a régua e a compasso dão nisto.As contradições avolumam-se e geram-se também no ventre de quem governa. O poder, a ambição, a falta de escrúpulos, a tentativa de se safar, a corrupção, mas também a contestação, a luta, as pressões externas e internas tudo isto e muito mais contribuiem e fazem o seu caminho.
      À séria também tem sido a contestação a este governo.E à séria continuará. As leituras não se devem fazer a priori.

      Quanto à questão das eleições cito ipsis verbis o que a Lúcia Gomes já postou.Cansa ter que estar sempre a colocar as pintinhas nos is:
      Problema: o programa de governo não foi o programa eleitoral sujeito a sufrágio.
      Problema: o Governo não acata decisões dos Tribunais superiores (nem de nenhum, vá)
      Problema: o Governo viola sucessiva e objectivamente leis e a CRP
      Problema: o Governo desvia dinheiros públicos.
      E acrescento este:
      Problema: maiorias conjunturais não estão mandatadas para vender o país por tuta e meia, nem para o hipotecar aos grandes interesses económicos.a quem serve e obedece
      Conclusão : o governo está neste momento à margem da legalidade.

      Quanto á sua participação a 25 de Abril aí só me resta parabenizá-lo.Fez parte da História e isso deve ser contado e recordado

      Até o resultado de eleições pelo meio….

      • josé sequeira diz:

        Caro De
        Obrigado, embora, no tempo do SMO, a participação, é certo radiante de alegria, constituiu um mero acaso.
        Como já escrevi, venho a este espaço uma vez que estou disposto a ceder o meu voto, nas próximas eleições, a um partido à esquerda do PS, neste caso o PCP. Garanto-lhe que não vou ler o programa do partido nem ouvir qualquer comício, nem escutar quaisquer promessas. Confio na honestidade dessas pessoas e que farão o melhor que puderem e souberem em prol do povo, caso obviamente possam governar e levando sempre em linha de conta que não estamos sozinhos no mundo e quase nada se pode prever. Se, ou por inépcia ou por maldade, isso não acontecer, cá estarei para, mais uma vez, ceder o meu voto a outrém. É o que vai acontecer com estes que lá estão.
        Cumprimentos.

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