A direita e a “suspensão da democracia”

Fazendo jus ao lapsus linguae freudiano de há uns anos da sua amiga Manuela Ferreira Leite, Cavaco Silva resolveu de facto “suspender a democracia”.

O atual desmoronamento político da coligação governamental tem na sua raiz a falência da política de austeridade prescrita pela troika (mesmo tomando como como referência os seus próprios critérios e metas), a revelação definitiva do seu caráter de agressão (visando sobretudo os mais desprotegidos e tomando como prioridade o desmantelamento do Estado Social), e a contestação de um cada vez mais alargado número de cidadãos e cidadãs.

Em particular, a resposta cidadã/popular à crise que se tem manifestado na rua e que ousa propor uma alternativa diferente, tem vindo a ser metodologicamente desvalorizada pelo governo e pelo próprio Cavaco Silva, que sublinhando os aspetos formais do funcionamento da democracia, procuram assim retirar significado e força a estes importantes movimentos. A retórica que serve este método é a de considerar muito “legítimas” e “normais” estas formas de contestação, como se elas não representassem um importantíssimo sinal de descontentamento que de facto, tal como a crise que se abate sobre a maioria das pessoas, tende a ser cada vez menos “normal”.

É certo que a contestação popular, na rua, na internet, e por todo o lado, tem tido uma certa ciclicidade na sua intensidade, com alguns “picos” em alguns momentos chave, e portanto também com alguns “baixos”. Tem, no entanto, vindo consistentemente a crescer confirmando, mas sobretudo extravasando, os quadros tradicionais de mobilização e organização, dando mostras de uma vitalidade nova que se sente também à escala europeia e mundial.

Foi portanto neste quadro geral de consumação final da destruição económica do país a curto prazo, por via da manutenção da atual política “austeritária”, que Paulo Portas, com o seu proverbial sentido de sobrevivência política, resolveu saltar do “autocarro a caminho do abismo” que é este governo.

Ora justamente em face da demonstração do falhanço da política económica e financeira do governo, confirmada inclusive, se dúvidas houvesse, pela carta de demissão de Vitor Gaspar, e perante o despedaçar definitivo da encenação de entendimento entre os partidos da coligação, o que fez Cavaco?

Em face do governo destruído cabia ao Presidente da Republica (PR) devolver a palavra aos cidadãos, demitir o governo e marcar eleições. Qualquer forma de olhar para a questão que tenha em conta o que está em causa, e que atenda minimamente a critérios que tenham que ver com a substância do funcionamento democrático, tornaria incontornável uma tal decisão por parte do PR.

Mas, perante tudo isto, Cavaco Silva agarra-se aos argumentos formais do funcionamento democrático das instituições para fazer o impensável: sonegar às pessoas o direito mais básico que existe em democracia, o de perante uma crise política, económica e social sem precedente nos últimos 40 anos no nosso país, estas se poderem pronunciar livremente sobre o seu próprio destino através de eleições.

Cavaco opta assim por prolongar artificialmente a vida deste governo, “ligando-o à máquina”, e pondo em causa a democracia no que ela tem de mais substantivo. Opera assim a tal “suspensão” pela qual suspirava inconscientemente (?) Manuela Ferreira Leite, e fá-lo em nome do valor “mais alto” da estabilidade política, para esconjurar o que considera ser o perigo insuportável de uma tal crise crise no contexto atual de pré-falência financeira e económica do país.

Este modo de agir de Cavaco, que se percebe embalado pelo mesmo modo inconfessável de pensar a política por parte Manuela Ferreira Leite, e de uma boa parte da direita em Portugal, revela na realidade o que esta direita tem de estruturante, o que está na sua natureza, o que permite explicar a sua existência e o seu papel neste momento da nossa história: o de ser, na primeira linha da luta política, a guardiã implacável dos grandes interesses do capital financeiro, dos grandes especuladores, dos grandes banqueiros, numa palavra, dos credores da nossa dívida.

Para esta direita, na senha de cumprir o seu papel, e de assim se cumprir ela própria, as pessoas a democracia e os seus direitos são pormenores, fazem apenas parte da tática e das regras de um jogo que o capital, numa dada conjuntura específica da história da humanidade, aceitou, momentaneamente, cumprir.

A direita e os seus partidos constituem-se assim como o capataz dos grandes interesses financeiros do capitalismo, velando para que tais interesses não possam ser minimamente beliscados, mesmo que para isso seja “inevitável” acabar com o Estado Social, degradando as condições de ensino e de saúde de milhões de pessoas, transformando esses direitos em mercadorias só acessíveis aos que podem pagar. O grande absurdo, à custa do qual se garante a manutenção dos obscenos privilégios de uma minoria, passa pela negação do direito à habitação, forçando milhares de despejos na Europa quando há milhares de casas devolutas nas suas principais cidades. Passa pela recusa feroz em taxar os lucros da especulação e por acabar com os “offshore”, enquanto se onera o trabalho e se lançam milhões no desemprego para forçar o embaratecimento da mão-de-obra.

O preço da política de direita que, no momento que estamos a viver, tem como principais intérpretes Cavaco Silva e este governo, é o advento de uma condição de pobreza irrevogável e cada vez mais generalizada.

É em nome desta lógica, da defesa deste modo de funcionamento e destes interesses que Cavaco assume despudoradamente a atual suspensão da democracia, negando às pessoas o direito a decidirem. É por isso que a expectativa sobre o que ele dirá hoje à noite é uma farsa: diga o que disser nunca porá em causa voluntariamente os interesses que representa. Só a continuação da luta generalizada de todos poderá vir a obter esse resultado.

Sobre Filipe M. Rosas

Geólogo, Professor Universitário
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7 respostas a A direita e a “suspensão da democracia”

  1. JgMenos diz:

    a falência da política de austeridade prescrita pela troika é um slogan que evita inventariar os efectivos falhanços e os ganhos obtidos.
    As manifestações populares assumem várias formas:
    – Uma delas – o aumento da poupança – é um dos ganhos efectivos que conduziu a um dos alegados falhanços . a quebra do consumo na economia – que engendrou outro ganho – o equilíbrio da balança de pagamentos.
    – Uma outra – o alarido das esquerdas a clamar contra o capital e tudo o que mexe na economia – lá vai fazendo o seu caminho na redução da remessas dos emigrantes, afastando investimentos e, com mais um pouco de esforço, na acelerada emigração de capitais.
    Como sempre, tem-se por inteligente recusar um capitalismo inevitável, provocar o seu mau funcionamento na defesa dos interesses de quem dele depende!!!

    • De diz:

      A trajectória “económica” de Menos:
      O aumento da poupança conduziu a quebra do consumo na economia.
      Não,não é piada. A quebra no consumo da economia derivou do aumento da poupança dos portugueses(!!!). O roubo nos salários, o desemprego galopante , a subida dos impostos foram apenas pequenas contribuições para o descalabro económico.
      A redução dos rendimentos do trabalho a cargo do gang que governa não teve nada a ver com
      O Gaspar deixou descendentes tão desonestos como ele

    • De diz:

      Quanto ao paleio do “equilíbrio da balança de pagamentos” engendrada pela quebra no consumo na economia, fruto por sua vez do aumento da poupança é o repetir do boletim saído pelas oficinas da dupla gaspar/merkel antes de alguém ter tido a verticalidade de cuspir para cima do primeiro.
      A primeira condição para o equilíbrio da balança de pagamentos e a recuperação económica do País é o aumento de produção com a máxima utilização dos recursos nacionais.

      Mas vejamos como a direita pesporrento/neoliberal mais a troika destruiram ainda mais a economia portuguesa.
      São números que deixam à beira da histeria pura os serventuários daquelas:
      ENTRE 2011 E 2013, A QUEBRA NO PIB É SUPERIOR A 7%, O QUE CORRESPONDE A 1,5 VEZES O DÉFICE ORÇAMENTAL FIXADO PELA “TROIKA” PARA 2013

      NO FIM DE 2013, EXISTIRÃO EM PORTUGAL MENOS 463.000 EMPREGOS DO QUE NO INICIO DE 2011

      EM 3 ANOS DE “TROIKA” E DE GOVERNO PSD/CDS A DIVIDA PÚBLICA AUMENTOU EM 60.000 MILHÕES €, O QUE TEVE COMO CONSEQUÊNCIA QUE OS JUROS TENHAM DISPARADO

      (Entre 2010 e 2013, os juros com a divida pública aumentaram em 53,7%, pois passaram de 4.850milhões € para 7.454 milhões € o que está a tornar a situação insustentável. Para pagar aos credores, e não para pagar pensões e salários como tem afirmado Passos Coelho, o governo procedeu a um corte brutal na despesa pública (cortou salários e pensões, confiscou subsídios de ferias e de Natal, reduziu o subsidio de desemprego, o RSI, o direito ao abono de família, etc.) e fez um enorme aumento de impostos, para empregar as palavras do próprio Vitor Gaspar.)

      Há mais.
      Sorry Menos mas não devemos pactuar com as fraudes salazarentas

  2. Manel estaline das chavez cunhal diz:

    A direita pode querer suspender a democracia. A esquerda, em especial a esquerda “cinco dias like”, quer suprimi-la, e exemplos não faltam….
    Benza-vos cunhal!

    • De diz:

      A realidade é mais forte do que o triste desarranjo do manel.
      Sorry manel mas a sua benzedura mais parece um esgar grotesco
      O maior exemplo está aí,não precisa de mais nada
      🙂

  3. De diz:

    Menos,por favor poupe-nos aos seus pungidos arremessos de propagandista em funções a tentar seguir o exemplo de outros amigos com mais inclinação mediática.

    “a falência da política de austeridade prescrita pela troika é um slogan ”
    Slogan é o seu slogan.A falência é a triste realidade.A triste e despudorada realidade.Não há inventariação de ganhos obtidos.Só se for no bolso do cartel que nos governa ou no ódio a Abril de que Menos é apenas um dos exemplos mais mesquinhos.

    “As manifestações populares” é um conceito que encalha no conceito de Menos.Parece que estas agora são convertidas em “aumento da poupança” e em boçais tentativas de encontrar modus operandis económicos saídos provavelmente da sebenta do salazar ( aquele que era burro e não usava albarda).Patético este deve e haver em jeito de balanço económico. Está de acordo com as posições de um néscio quando se saracoteava a favor dos rentistas e espumava ódio face aos desempregados.

    “O alarido das esquerdas” é o contraponto do alarido de Menos.Arremete naquele seu jeito peculiar pelas remessas dos emigrantes ( não se riam por favor) encontrando outro buraco para tentar justificar o falhanço completo da canalha que nos governa.
    Entretanto assoma-lhe o medo por entre os olhos pequeninos que lhe questionem o capitalismo que tem por inevitável.E ei-lo a nomear como tal, num esconjuro de quem esconjura não só a hipótese de lhe darem um chuto no amado Capital ,como sobretudo de esconjurar o medo.
    As suas negações repetidas são contrariadas pelo seu afã de propagandista da canalha.A sua pontuação esdrúxula, demasiado histérica para passar despercebida, revelam aquilo que procura porfiadamente esconder.

  4. bagageiro diz:

    As casas estão a ser removidas do mercado pela sociedades imobiliarias dos bancos para não rebentar a bolha imobiliaria em pportugal, parece que a prioridade é evitar a falencia imediata dos bancos

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