O deserto cresce…

… Dizia Nietzsche. Fiquei agora a saber, com um aperto naquela zona do cérebro responsável pelos afectos, que a Livraria Sá da Costa vai deixar de existir a partir da próxima segunda-feira. Depois do encerramento da Livraria Portugal, na rua do Carmo, da Barateira na Trindade e de um muito respeitável alfarrabista um bocadinho mais acima, no Largo da Misericórdia, o deserto instalou-se ainda mais no vazio cultural já imenso da Baixa lisboeta. Tendo em conta a redução cada vez maior do espaço reservado nas Fnacs ao mundo dos livros – havendo até más-línguas que andam a prenunciar uma falência próxima dos estabelecimentos desta rede – havemos de acordar um dia para uma Lisboa deserta de livrarias. Haverá talvez um cantinho nos hipermercados para aqueles livros produzidos como iogurtes, que de livros mantêm só uma aparência lustrosa. O deserto cresce. Em Lisboa e em nós.

Nota à margem (ou no centro): a Livraria Sá da Costa estava ultimamente a ser gerida pelos seus próprios trabalhadores, que tudo fizeram para a salvar da falência, agora decretada por um tribunal. Para eles vai o meu abraço e a minha solidariedade.

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7 respostas a O deserto cresce…

  1. JgMenos diz:

    O livro traduzia saberes e sentimentos que permaneciam no tempo, um tempo que abordava o futuro sem desprezar o passado.
    Entre o alucinante comércio das notícias e o desprezo pelo dia de ontem, o livro está para muitos como que fora de um tempo que se quer renovado a cada instante.
    Bem hajam os livros que nos tiram deste tempo!

  2. Miguel diz:

    O Fascismo é inimigo da cultura.

  3. AN diz:

    Puxem logo da pistola!

  4. josé sequeira diz:

    Eu, que em certa medida, pelas vossas concepções políticas, sou fascista, tenho a colecção completa dos “Clássicos Sá da Costa”, comprados, muitas vezes com dificuldade, ao longo dos últimos 40 anos. Quantos livros compraram vocês na Sá da Costa? É que as livrarias e os seus trabalhadores não sobrevivem com solidariedade e palmadinhas nas costas. Vendem livros!!!

    • Mário Machaqueiro diz:

      Caro José,
      Começo por dizer que, nada sabendo a seu respeito nem tendo lido qualquer outro comentário seu, não presumo que seja “fascista” e ignoro em absoluto em que consistem as suas simpatias políticas. Que fique claro que, para mim, a classificação de “fascista” só se aplica a convicções, a valores e práticas muito peculiares, e não gosto nada de banalizar esse termo.
      Dito isto, devo confessar que, frequentador assíduo da Bertrand e da Livraria Portugal desde há vários anos, quase sempre releguei a Sá da Costa para um plano recuado. Concordo inteiramente com a noção de que comprar livros é mais importante do que belas declarações de solidariedade. Isso não me impede, porém, de expressar aqui o meu lamento por ver a Baixa lisboeta transformar-se, gradualmente, num deserto de pedra.

      • José Sequeira diz:

        Caro Mário
        A Sá da Costa (Editora) conseguia ter a função simpática de lançar colecções diversificadas, com relevância para os clássicos, a preços módicos, poupando no tipo de papel, com capas de cartolina mole e até algum acabamento e encadernação modestos. A minha paixão pelas livrarias da Baixa começou quando o meu pai, polícia, completava o salário com a função de cobrador de uma outra editora (a Publicações Europa América, de 1945), pertença dos irmãos Lyon de Castro, um dos quais, o Francisco, simpatizante do PCP desde muito novo, várias vezes preso e permanentemente incomodado pela PIDE, foi para mim um modelo de rectidão. Percorríamos a “volta” das livrarias (a Portugal, a Bertrand, a Parceria A.M.Pereira, a Sá da Costa…) e, enquanto o meu pai, no escritório, tratava de contas e recibos, eu ficava, deslumbrado, a mexer nos livros,a aspirar aquele cheiro que todos os frequentadores de livrarias conhecem. Amiúde, eu, menino pobre de bairro popular, um pouco para premiar o meu interesse, era contemplado com a oferta de um livro, uns melhores, outros piores; pelo menos, na Sá da Costa, eram sempre bons. A baixa, nos últimos anos da década de cinquenta, era muito diferente dos nossos dias; mais cheia, mais movimentada, mais conspiradora, livrarias e pastelarias a abarrotar, com os dois grandes armazéns (o Chiado e o Grandella) sempre cheios, no fundo o verdadeiro centro da vida da cidade. Tudo muda e também a baixa mudou; aparentemente, nos últimos anos, com o crescente fluxo turístico, a “vida” recomeçou. Só que, as livrarias, mercê de muitas coisas que o Mário até saberá melhor do que eu, ficaram definitivamente para trás. Como dar a volta?
        Cumprimentos.

        • Mário Machaqueiro diz:

          Caro José,
          Também eu partilho consigo o encantamento associado às livrarias e o fascínio por esses estranhos objectos que nelas habitam. Mas, tal como o José, não sei como dar a volta ao desamor actual pelas livrarias, o qual se está a estender aos próprios livros. Vários factores militam contra eles: no caso específico de Portugal, a persistente escassez de hábitos de leitura, que a crise financeira acentua ainda mais (os livros são, com frequência, objectos caros); mas a isso acrescentam-se causas estruturais que transcendem o espaço português: o livro, tal como o conhecemos há milénios, está hoje a desaparecer, substituído pelo ciberespaço e pelas suas emanações virtuais. Os “e-books” tendem a multiplicar-se, bem como os aparelhos que permitem armazenar centenas de livros, bibliotecas virtuais portáveis. Dir-me-á, e com razão, que nada disso substitui o encanto do papel, o seu cheiro – uma das coisas que eu fazia em miúdo (e ainda faço) é cheirar os livros como quem absorve um perfume -, a experiência de folhear, de andar para trás e para a frente na descoberta das páginas impressas. Há toda uma metafísica do livro – o livro como metáfora da totalidade, a biblioteca como metáfora do cosmos – que depende da sua materialidade palpável. E isso vai perder-se inevitavelmente se o livro impresso for substituído pela sua versão digital. Se isso vier a acontecer, as livrarias tornar-se-ão meros repositórios de antiguidades para coleccionadores e o livro impresso em papel será um objecto de luxo (o que significará a estranha consumação de um círculo, regredindo-se ao tempo em que os livros medievais, repletos de lindíssimas iluminuras, se destinavam mais a ornamentar as estantes do que a ser lidos). Eu, que não tenho o fetiche das novas tecnologias e que as trato com alguma distância desdenhosa, lamentarei profundamente o tempo em que tal venha a ocorrer, se vier.
          Um abraço.

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