Que a situação anda propícia à idiotice, já toda a gente percebeu. Mas tal como já existiam capitalistas antes da crise, também já existiam idiotas antes de toda a situação. Para quem não conhece, tenho todo o gosto em apresentar Isilda Pegado:
A Isilda é deputada do PSD. A Isilda é a cara bafienta da aversão a qualquer avanço legal do movimento LGBT-Queer. A Isilda é uma bronca. A Isilda faz lembrar aquele gajo que se dizia irritado com o termo ‘homofóbico’ porque se estava a desculpar uma coisa que não era fobia nenhuma, era só idiotice pegada. A Isilda é um asco. Desculpem-me, tenho a mania de me perder em enumerações tautológicas.
Voltando ao que interessa: A Isilda anda em altas ultimamente (deve ser inspiração francesa). Há dez dias, a Zisi escreveu um texto sobre os dramas terríveis da Teresinha. Uma sinopse contar-nos-ia como dois terríveis paneleiros quase que sequestraram a Teresinha da sua família materna, utilizando-se da lei portuguesa mas contra todo o bom senso do mundo, nunca lhe falaram dos seus laços biológicos maternos, não tinham registos nenhuns do historial médico da mãe, lançaram a pobre miúda num turbilhão de confusão e “numa busca incessante pela sua identidade”. E os cabrões dos panilas ainda têm a lata de se divorciar no final da história! Ai, António de Oliveira, o que é feito dos bons velhos tempos….
Uma sinopse não é suficiente para poder transmitir um texto que junta alguns fortes preconceitos contra a homoparentalidade, uma pobreza linguística muito, mas muito maior que a dos livros da Anita e uns pós de pirlimpimpim de sensacionalismo extremo que não pára de recorrer a todos os miserais clichês de uma disney imatura. Por isso, se quiserem rir uns dez minutos, façam um favor a vocês mesmas e leiam o texto. De qualquer forma, nunca se pode realmente estar a perder tempo se o site que o publica se chama A VOZ DA VERDADE.
O texto da Zisi, que literalmente me deixou em lágrimas, acaba com o inevitável grito esperançoso: “Teresinha, nós estamos aqui!”
E efectivamente estão. Isilda Pegado encabeça agora a moblização para uma Vigília pelas Crianças, “contra a adopção por pares homossexuais”, na próxima terça-feira em frente ao parlamento.
A página do facebook do evento, apesar de vá, hein…. fraquinha, tem já algumas pérolas nos comentários: nunca é demais esquecer a posição da Andreia, por exemplo:
“Os Tribunais tomam por vezes, decisões vergonhosas! Não sou preconceituosa! Só Deus pode julgar, eu não! mas se há tantos homossexuais no poder, como não hão de aparecer estas aberrações?! Deus é liberdade mas isto é libertinagem!”
Ou as próprias publicações da vigília:
“podemos afirmar com clareza que as nossas crianças NUNCA poderão ser entregues a estas pessoas [activistas LGBT] e outras como elas. O seu comportamento social, sexual e moral revelam sintomas acentuados de uma doença grave e profunda.”
Mas eu não vim para aqui fazer publicidade à Zisi [se bem que devia, porque todo o evento chega a meter pena]. Vim aqui para vos apresentar um colectivo fantático: As Bichas Cobardes. Fazem parte uma nova geração de colectivos, como o Projecto Cotovia ou o Exército de Dumbledore, que não têm intenção de “política de massas”, que se multiplicam como cogumelos, que tentam uma desconstrução ideológica sem vergar a slogans políticos. São os micro-movimentos.
E as Bichas Cobardes são fantásticas. Tão fantásticas que marcaram já uma contra-vigília, um”arco-íris nocturno para lhes ir apagar as velas e limpar as lágrimas”.
Eu lá estarei. Não tenho casaco verde para levar. Levo o que emprestei ao Cavaco já faz uns anos.
[E como sempre: texto escrito ao abrigo do Acordo Queerográfico]