O ponto fundamental na política é que há inimigos. Não há só adversários, há inimigos, gente que achamos que têm visões do mundo inaceitáveis. Esta clarificação é fundamental para perceber que a política não é uma questão de pormenores, nem de alternâncias: é uma escolha entre visões inimigas. Quando não se permite a expressão desse antagonismo é porque a dominação de uma parte faz dela um jogo de sombras e de ilusões.
Vendem-nos que acabou a divisão de classes na sociedade e que vivemos uma época de expansão permanente da idílica classe média. Esta classe seria o suporte ideal desta sociedade sem cafeína que seria a democracia dos consensos, com discussões, divergências, mas sem inimigos. E, sobretudo, com pessoas que se sabem comportar à mesa.
A dificuldade de quem quer mudar a sociedade é extirpar essa lógica do consenso. As nossa sociedades apenas admitem inimigos externos: o terrorismo, o fundamentalismo islâmico, os jovens dos subúrbios, os anarquistas etc… Essas sociedades admitem polícia, mas não querem nada de política.
Todo o mundo civilizado, aqueles que estão nos arcos da governação e que comentam nas poltronas da televisão, garante que a nossa sociedade não se vai alterar e que capitalismo e esta “democracia parlamentar” estão cá para toda a eternidade. A resolução da crise que vivemos apenas exige, segundo essa gente, um consenso social, uma “salvação nacional”, como se os interesses de Ricardo Salgado, dos vendedores de moedas de prata do BPN fossem os mesmos da maioria da população.
Infelizmente, hoje em dia ser de uma certa esquerda é ocupar um certo lugar dentro do sistema político dominante a que chamam “a democracia”. Neste sentido ela não passa de uma categoria interna do consenso, uma categoria que o sistema precisa para que tudo pareça mudar, para que tudo fique exactamente na mesma.
A esquerda que se queda no parlamento não passa de uma variável de ajustamento do sistema no seu conjunto. É uma espécie de subprograma, como no filme “Matrix Reloaded”,que nos dá uma ilusão de livre arbítrio, enquanto aceita os limites do pensável que o Estado e a ideologia dominante nos impõem.
A política, é segundo Alain Badiou, “o conjunto dos processos que permitem ao colectivo humano tornar-se activo e capaz de criar possibilidades novas em relação ao seu destino”.
Quando olhamos para o Partido Socialista actual, é preciso dizer que a grande modificação que António José Seguro nos propõe é fazer uma troika com rosto humano, embora entediante.
Nós precisamos de actos que abram na trama do real novas possibilidades que escapem ao controlo do Estado e da ideologia dominante. Sejamos realistas e exijamos o impossível, e isso não passa por almoços com apoiantes da troika.
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Um muito bom post que se quis inaugural.Perdão,um bom post, seja ele inaugural ou não.
Só discordo da caracterização da troika modificada por Seguro.”Com rosto humano, embora entediante”.
Acho que o tal rosto humano rapidamente desaparecia.E o entediante …não escolheria propriamente tal qualificação
🙂
Nuno Boss, you’re back!
Nem mais, é preciso impôr outra narrativa… parafraseando o outro.
Pingback: A política, os amigos, os inimigos e outras coisas complicadas | cinco dias
Volto a ler este texto.A honestidade intelectual também passa por aqui.Infelizmente nem todos podem dizer o mesmo,
O que torna as diferenças ainda mais abissais,pese o débito das palavras
Para que não haja confusões espúrias …este texto:”Da dialéctica dos convites (ou um roubo descarado a Alain Badiou”