“A democracia é isso: uma arte do diálogo mesmo entre surdos.”

Mais actual que nunca: abaixo um escrito do Jorge de Sena de Fevereiro de 1976 juntamente com um vídeo do inimitável Mário Viegas na declamação.

 

Não, não, não subscrevo, não assino que a pouco e pouco tudo volte ao de antes, como se golpes, contra-golpes, intentonas (ou inventonas – armadilhas postas da esquerda prá direita ou desta para aquela) não fossem mais que preparar caminho a parlamentos e governos que irão secretamente pôr ramos de cravos e não de rosas fatimosas mas de cravos na tumba do profeta em Santa Comba, enquanto pra salvar-se a inconomia os empresários (ai que lindo termo, com tudo o que de teatro nele soa) irão voltar testas de ferro do capitalismo que se usou de Portugal para mão-de-obra barata dentro ou fora. Tiveram todos culpa no chegar-se a isto: infantilmente doentes de esquerdismo e como sempre lendo nas cartilhas que escritas fedem doutras realidades, incompetentes competiram em forçar revoluções, tomar poderes e tudo numa ânsia de cadeiras, microfones, a terra do vizinho, a casa dos ausentes, e em moer do povo a paciência e os olhos num exibir-se de redondas mesas em televisivas barbas de falácia imensa.

E todos eram povo e em nome del’ falavam, ou escreviam intragáveis prosas em que o calão barato e as ideias caras se misturavam sem clareza alguma (no fim das contas estilo Estado Novo apenas traduzido num calão de insulto ao gosto e à inteligência dos ouvintes-povo). Prendeu-se gente a todos os pretextos, conforme o vento, a raiva ou a denúncia, ou simplesmente (ó manes de outro tempo) o abocanhar patriótico dos tachos. Paralisou-se a vida do pais no engano de que os trabalhadores não devem trabalhar senão em agitar-se em demandar salários a que tinham direito mas sem que houvesse produção com que pagá-los. Até que um dia, à beira de uma guerra civil (palavra cómica pois que do lume os militares seriam quem tirava para os civis a castanhinha assada), tudo sumiu num aborto caricato em que quase sem sangue ou risco de infecção parteiras clandestinas apararam no balde da cozinha um feto inexistente: traindo-se uns aos outros ninguém tinha (ó machos da porrada e do cacete) realmente posto o membro na barriga da pátria em perna aberta e lá deixado semente que pegasse (o tempo todo haviam-se exibido eufóricos de nus, às Áfricas e às Europas de Oeste e Leste).

A isto se chegou. Foi criminoso? Nem sequer isso, ou mais do que isso um guião do filme que as direitas desejavam, em que como num jogo de xadrez a esquerda iria dando passo a passo as peças todas. É tarde e não adianta que se diga ainda (como antes já se disse) que o povo resistiu a ser iluminado, esclarecido, e feito a enfiar contente a roupa já talhada. Se muita gente reagiu violenta (com as direitas assoprando as brasas) é porque as lutas intestinas (termo extremamente adequado ao caso) dos esquerdismos competindo o permitiram.

Também não vale a pena que se lave a roupa suja em público: já houve suficiente lavar que todavia (curioso ponto) nunca mostrou inteira quanta camisa à Salazar ou cueca de Caetano usada foi por tanto entusiasta, devotamente adepto de continuar ao sol (há conversões honestas, sim, ai quantos santos não foram antes grandes pecadores). E que fazer agora? Choro e lágrimas? Meter avestruzmente a cabeça na areia? Pactuar na supremíssima conversa de conciliar a casa lusitana, com todos aos beijinhos e aos abraços? Ir ao jantar de gala em que o Caetano, o Spínola, o Vasco, o OteIo e os outros, hão-de tocar seus copos de champanhe? Ir já fazendo a mala para exílios? Ou preparar uma bagagem mínima para voltar a ser-se clandestino usando a técnica do mártir (tão trágica porque permite a demissão de agir-se à luz do mundo, e de intervir directamente em tudo)? Mas como é clandestina tanta gente que toda a gente sabe quem já seja? Só há uma saída: a confissão (honesta ou calculada) de que erraram todos, e o esforço de mostrar ao povo (que mais assustaram que educaram sempre) quão tudo perde se vos perde a vós. Revolução havia que fazer. Conquistas há que não pode deixar-se que se dissolvam no ar tecnocrata do oportunismo à espreita de eleiçõesPode bem ser que a esquerda ainda as ganhe, ou pode ser que as perca. Em qualquer caso, que ao povo seja dito de uma vez como nas suas mãos o seu destino está e não no das sereias bem cantantes (desde a mais alta antiguidade é conhecido que essas senhoras são reaccionárias, com profissão de atrair ao naufrágio o navegante intrépido).

Que a esquerda nem grite, que está rouca, nem invente as serenatas para que não tem jeito. Mas firme avance, e reate os laços rotos entre ela mesma e o povo (que não é aqueles milhares de fiéis que se transportam de camioneta de um lugar pró outro). Democracia é isso: uma arte do diálogo mesmo entre surdos. Socialismo a força em que a democracia se realiza. Há muito socialismo: a gente sabe, e quem mais goste de uns que dos outros. É tarde já para tratar do caso: agora importa uma só coisa – defender uma revolução que ainda não houve, como as conquistas que chegou a haver (mas ajustando-as francamente à lei de uma equidade justa, rechaçando o quanto de loucuras se incitaram em nome de um poder que ninguém tinha). E vamos ao que importa: refazer um Portugal possível em que o povo realmente mande sem que o só manejem, e sem que a escravidão volte à socapa entre a delícia de pagar uma hipoteca da casa nunca nossa e o prazer de ter um frigorifico e automóveis dois. Ah, povo, povo, quanto te enganaram sonhando os sonhos que desaprenderas! E quanto te assustaram uns e outros, com esses sonhos e com o medo deles! E vós, políticos de ouro de lei ou borra, guardai no bolso imagens de outras Franças, ou de Germânias, Rússias, Cubas, outras Chinas, ou de Estados Unidos que não crêem que latinada hispânica mereça mais que caudilhos com contas na Suíça.

Tomai nas vossas mãos o Portugal que tendes tão dividido entre si mesmo. Adiante. Com tacto e com fineza. E com esperança. E com um perdão que há que pedir ao povo. E vós, ó militares, para o quartel (sem que, no entanto, vos deixeis purgar ao ponto de não serdes o que deveis ser: garantes de uma ordem democrática em que a direita não consiga nunca ditar uma ordem sem democracia). E tu, canção-mensagem, vai e diz o que disseste a quem quiser ouvir-te. E se os puristas da poesia te acusarem de seres discursiva e não galante em graças de invenção e de linguagem, manda-os àquela parte. Não é tempo para tratar de poéticas agora.

 

(Jorge de Sena, Fevereiro 1976).

P.S.: Os sublinhados, itálicos e negritos são meus.

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3 respostas a “A democracia é isso: uma arte do diálogo mesmo entre surdos.”

  1. JgMenos diz:

    Improvável ser ouvido por quem vive no embalo de slogans e palavras-chave, e que se abandonados a pensar no silêncio da razão se sente só, abandonado, e se prefere por vítima do que por autor de um qualquer destino.

  2. Caro colega de blogue,
    Não sei se já reparou (reparou certamente), mas a escolha deste texto vai atiçar contra si todos os infantilismos esquerdistas e os dogmatismos pcpistas que campeiam, não neste blogue em si mesmo (haja deus), mas nas caixas de comentários. É que Jorge de Sena era um homem genuinamente independente, que pensava fora de todas as cartilhas e que, por isso mesmo, não poupava nem a direita, nem a esquerda. O texto que o Alexandre aqui publica é, na verdade, um terrível requisitório contra os erros e os desvarios do famoso PREC, experiência imensamente libertadora e emancipatória, é certo, mas cujos desmandos abriram caminho para o triunfo da contra-revolução e, por conseguinte, para toda a merda social e política que, desde 75-76, não tem cessado de nos cair em cima.

    • Caro Mário,

      não tenho dúvidas disso. E é precisamente por isso é que achei que muitos de nós (“nas esquerdas”) precisamos de ler e reler este testemunho. É polémico? Claro. Mas vai ao coração das placas tectónicas que dividiram a esquerda e tornaram-na em muito daquilo que ela é hoje, na qual ao fim de 37 anos continuamos a remar quase na mesma onda. Talvez por medo dos esqueletos que cada um tem. Talvez por, como disse o Zé Mário Branco, “por não ver, por não ouvir, por não querer ver, por não querer entender nada, por precisarmos de paz de consciência, porque não andamos aqui a brincar”.

      Um abraço.

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