A crise chegou lá a casa.

E, de repente, não havia dinheiro nem perspectivas de trabalho.

A miúda chorava porque tinha medo de emigrar, eu insistia em manter-me eu, e não me deixar tornar só num ser nervoso. O dia de pagar a renda a aproximar-se. Lá em cima, no mundo da televisão, os senhores de fato e gravata competiam com piadolas e tácticas de marketing.

Como o meu peito, era o peito de toda a minha geração, apertado, ansioso, procurando, cada vez mais timidamente, um ou dois motivos para rir sem medos. Alguns, aos trinta anos, tinham voltado para casa dos pais, com a impotência tatuada nas mão sem trabalho, os outros lutavam como podiam contra a despromoção de adulto a adolescente.

No céu da televisão, um gajo com sotaque do norte e gel no cabelo dizia que crise era sinónimo de oportunidade, um bocadinho mais abaixo, jovens casais e os seus pequenos filhos ganhavam a oportunidade de morar na rua.

A cigana em frente ao metro pediu-me trocos. Eu não lhe dei nada nem encolhi os ombros. Ri-me abertamente, com a adrenalina a correr-me no sangue.

Miguel Afonso em ANEXO
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