O doutorestranhoamor da política portuguesa

assunção dr.strangelove

«Façam o favor de se retirar, façam o favor de se retirar!», a exclamação adornada pelo amargo aroma da autoridade, que a Presidente da Assembleia da República Assunção Esteves, clamou indignada contra as galerias da AR, foi mais um desses gritos do Ipiranga desta velha-nova ou nova-velha política que há muito tomou conta do poder. Apesar de andrajosamente vestida com as roupas e as cores da democracia, da qual se diz a mais fiel guardiã, essa política espera apenas o momento certo para desferir o seu golpe final num sistema que ela própria tem vindo a corroer pacientemente. Contudo, esses lapsus linguae, cada vez mais frequentes, têm pelo menos a virtude de expor o verdadeiro conteúdo e ambição do actual poder, assim como, o seu enorme desprezo pelo demos (povo) que faz o corpo da demo-cracia.

A Presidente da Assembleia da República é assim uma espécie de doutorestranhoamor (Dr.Strangelove) da política portuguesa, essa fascinante personagem de Stanley Kubrick, um nazi americanizado que se mantinha numa constante luta com o seu braço direito que teimava constantemente erguer-se em gesto reflexo para fazer a saudação nazi. Do mesmo modo, a presidente da AR, perante as pequenas contrariedades e esses fardos da democracia, parece deixar escapar em acto reflexo esse braço escondido do discurso autoritário, fazendo cair as roupagens e os bons costumes da (sua) social-democracia. Enquanto fiel depositária da “sagrada” casa da democracia, ela é de facto imagem cristalina do actual poder político e das suas estratégias de dissimulação numa democracia absolutamente formal e esvaziada.

Ao afirmar, posteriormente ao sucedido, que «teremos de reconsiderar as regras de acesso às galerias [da Assembleia da República]», aquilo que a Presidente da AR na verdade quer dizer é que: teremos de reconsiderar as regras de acesso à democracia e da participação democrática. Algo em linha com os discursos do poder oficial que vão ecoando um pouco por todo o lado (a JP Morgan foi mais um exemplo da semana que passou). E, na verdade, o facto com o qual nos temos vindo a confrontar, seguindo essa lúcida e bem actual observação de Walter Benjamin, na qual o fascismo via a sua salvação na possibilidade que dá às massas de se exprimirem (mas com certeza não a de exprimirem os seus direitos), é que também a actual democracia parece nos conceder a possibilidade de nos exprimirmos, mas não certamente de exprimirmos os nossos direitos. E o singular direito democrático que está em causa é o direito de acedermos à esfera da política da qual fomos espoliados, isto é, o nosso direito à politização contra a estetização espectacular em que a política se tornou. A política como lugar do comum, política como único lugar possível de garantia da nossa liberdade e de um destino tanto individual como colectivo.

Perante uma narrativa que parece ter um fim já bem delineado, resta-nos estar atentos a estes pequenos lapsos, estes pequenos acontecimentos, que como clarões brilham na opacidade do discurso político, e assim fazer aparecer, expor e denunciar, as verdadeiras motivações de um poder que diz governar em nosso nome, quando, em boa verdade, não faz mais nada do que colocar-nos como penhores no mercado da dívida global. «Façam o favor de se retirar!».

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