Lewis F. Powell, JP Morgan e Cavaco

A tese da magnum opus escrita por Friedrich Hayek sempre me pareceu paradoxal. Com efeito, “O Caminho da Servidão” estabelecia uma correlação entre a liberdade económica e a liberdade política. A julgar pelo apoio entusiasta do autor ao regime imposto por Pinochet – Presidente do Chile que ascendeu ao poder em 1973 depois de um Golpe de Estado que depôs Salvador Allende-, a democracia e a liberdade são conceitos inócuos e sujeitos à instrumentalização do paradigma capitalista liberal.

Em 1971, Lewis F. Powell, nomeado juiz do Supremo Tribunal dos Estados Unidos por Nixon no ano seguinte, escreveu um memorando ao director da Câmara de Comércio onde apelava a uma contra-revolução operada pelo tecido empresarial sobre o modelo social advindo do New Deal. Nele incitou, entre outras acções, a uma infiltração do poder económico nas decisões políticas para liberalizar os mercados. Para muitos, este momento marcou simbolicamente a ascensão do neoliberalismo. As grandes empresas começaram a financiar os dois principais partidos dos sistema político norte-americano assim como os lóbis e think tanks. Deste modo, conseguiram criar uma relação complexa de interesses entre os decisores políticos, os círculos intelectuais e as corporações económicas de maior dimensão.

Mais recentemente, a JP Morgan redigiu um relatório datado de 28 de Maio de 2013 que ataca o constitucionalismo de países como Portugal. Advoga que se tratam de sistemas políticos que impedem reformas estruturais económicas devido a bloqueios como a excessiva protecção aos direitos laborais e o direito ao protesto em relação a mudanças impostas pelo ajustamento europeu em curso.

A questão é: as situações descritas estabelecem alguma relação com a comunicação realizada ontem por Cavaco Silva? Sim, em tudo.

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14 respostas a Lewis F. Powell, JP Morgan e Cavaco

  1. 28 de Maio? Só isso chega-me.

    • Frederico Aleixo diz:

      Bem lembrado. E só terminou numa Constituição de 1933. Será que vem aí a suspensão da democracia até a chegada de uma revisão constitucional?

  2. É por causa de coisas destas – «tudo estaria bem se o mercado fosse deixado funcionar sem entraves constitucionais» (uma crença religiosa…) – que eu insisto na necessidade do combate ideológico ao nível do paradigma neoclássico em ciência económica…
    Mesmo em blogues internacionais em que vou participando, a coisa está «sombria»…
    O mais que se consegue é alguma simpatia «pós-keynesiana»…
    E alguma abertura – aqui e ali – por uma conjunção de esforços entre «keynesianos» e «marxistas» para irradicar o maldito paradigma neoclássico.
    Confesso (desabafo…) que «cada vez me sinto mais isolado».
    Nem alguns marxistas com quem falo parecem perceber aquilo que estou a tentar explicar.
    E cada vez mais percebo melhor a tese de Lénine quando dizia que os «marxistas precisavam de estudar a “Ciência da Lógica” de Hegel para de facto perceberem o “Das Kapital” de Karl Marx»…
    Ora como toda a gente diz que a leitura de Hegel é quase impossível…

    • Frederico Aleixo diz:

      Completamente de acordo, caro Fonseca-Statter. Mas posso acrescentar um autor que muita falta faz para perceber o aparelho ideológico estabelecido? Antonio Gramsci. Necessitamos de criar uma contra-hegemonia.

      • Sim, sim… Gramsci deu um precioso contributo para a compreensão dos processos ao nível do «controle idfeológico». Confesso que que tenho andado “obcecado” com a lógica de funcionamento da «estrutura» e tendo a descurar (ou deixar para outros) a lógica da «superestrutura».

  3. Pedro Mota diz:

    Olhe que há sítios na Net onde talvez não se sinta isolado. Veja Monthly Review, onde se escreve muito sobre isso, Le Grand Soir, Counter Punch, Truthout, Global Research, etc. Quanto ao Gramsci, não foi o primeiro a tematizar a retroacção da superestrutura. O próprio Marx já o tinha feito e muitos outros a seguir, na linha marxista. Gramsci, aliás, tem uma concepção muito pouco marxista da práxis. Leia os Cadernos da Prisão.

    • Pedro Mota, obrigado pelas dicas…
      Não conhecia o «sítio» ou «portal» Le Grand Soir… Tem coisas com MUITO interesse.
      Quanto aos outros, já conhecia, uns melhores do que outros.
      No entanto, para o URGENTE combate pela «revogação» do actual curriculum universitário de «ciências económicas» encontram-se mais «coisas» em «Post Autistic Economics» – http://www.paecon.net/
      Mesmo aí, por experiência vivida, não parece muito «polite» referir o nome de Marx…
      Fala-se em «non-equilibirum social sciences» como se fosse o último grito em «economia pós autista» (digo eu…) e como se Engels não tivesse escrito «A Diáléctica da Natureza» já há mais de cem anos.
      No blogue «Real World Economics» – http://rwer.wordpress.com/ – vão predominando ideias keynesianas muito progressistas, o que – convenhamos – já não é nada mau. Pelo menos caminha-se no mesmo sentido… Já o INET – Institute for New Economic Thinking (financiado pelo sr. George Soros) é mais «selectivo»: parece que só entram os sociais democratas que queriam «remediar» o sistema que temos.

  4. De diz:

    O conluio ( não confundir com identidade) entre os liberais e o fascismo é uma das questões que tenho por centrais.
    Um dos exemplos de articulação entre neoliberalismo e fascismo pode ser extraído da vergonhosa entrevista dada por Hayek ao jornal chileno El Mercúrio em abril de 1981. Depois de dar apoio à ditadura, justificou: “Uma sociedade livre requer certas morais que em última instância se reduzem à manutenção das vidas; não à manutenção de todas as vidas, porque poderia ser necessário sacrificar vidas individuais para preservar um número maior de vidas. Portanto, as únicas normas morais são as que levam ao ‘cálculo de vidas’: a propriedade e o contrato”.
    A identificação do liberalismo com “democracia” tem sido uma das questões ideológicas mais manipuladas, mistificadas e marteladas por parte do poder dominante,Uma história muito mal contada mas que tem servido como armamento pesado para a luta ideológica e que tem sido descurada pelas forças de esquerda.Quando as “coisas” começam a não correr de acordo com a narrativa pretendida pela lógica dos mercados, surge uma outra face, verdadeiramente sinistra, por parte dos defensores da “liberdade económica” .

    A importância deste pequeno texto de Frederico Aleixo vai muito para além dos escassos (mas preciosos sob o ponto de vista do conteúdo ) comentários que motivou ou do que eu agora aqui escrevo. E está a anos luz das pretensas análises dos nossos comentadores políticos que enxameiam os amestrados media nacionais

    • Frederico Aleixo diz:

      É bem verdade esse conluio. Basta recordar outras passagens históricas como a relação do Thatcherismo com os sindicatos e o famoso slogan TINA (there is no alternative) ou as eleições mexicanas em que Carlos Salinas venceu Cárdenas através de fraude eleitoral para aplicar um programa neoliberal. Enfim, toda a história do FMI e Consenso de Washington na América Latina é bem demonstrativa que no fim o importante é aplicar primordialmente o liberalismo económico custe o que custar com esse utilitarismo de que fala. Ainda que vise uma sociedade que beneficie uma pequena classe dominante.

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