Se o cinema português fosse um pastel de nata era internacionalizado

Que o cinema português não tem apoios, já o sabemos. Que a esperança legitimamente criada nos profissionais do cinema com a “Lei do Cinema” foi absolutamente gorada, também o sabemos. E triste é o país que não valoriza, de forma alguma a arte, quem a cria e quem nela trabalha enquanto que jorra milhões para helicópetros com plumas e cede os espaços mais nobres ao marketing enquanto a maioria dos artistas não tem sequer um local para trabalhar (quanto mais para expôr) também sabemos.

Mas o cinema português lá vai sobrevivendo, ao preconceito e à falta de dinheiro, com interesse e voluntarismo de gente que não desiste. Dos artistas e de quem gosta de cinema, como é o caso dos organizadores do Shortcutz, que em Lisboa, Faro, Porto, Berlim dão a conhecer o cinema português todas as semanas, gratuitamente.

E sobre as internacionalizações, se fossem jogadores da bola ou pastéis de nata, tinham apoio, mas não é o caso. E mais estranho quando é a comunicação social que ignora em absoluto o que se vai passando a menos que venha uma Palma de Ouro atracada, mas rapidamente se esquece desse cinema.

Mas recentemente, o filme de Nuno Costa, Um Documentário Bestial, foi internacionalmente reconhecido e depois da selecção para o Festival de Tróia, entra na selecção oficial do American Behavior Society Film Festival 2013. Um filme que aborda a questão das touradas de uma forma absolutamente genial, com humor, sarcasmo, caricaturando as várias posições sobre o assunto.

um doc bestial

Mostra-nos as várias bestialidades da tourada (das científicas às literárias), deixa uma grande margem de discussão a quem o vê, não tomando uma posição demasiado evidente (embora se intua qual é), perspectivando toda a discussão sobre o tema em todas as abordagens que ele pode ter. E sempre com uma inteligência aguda e uma ironia que torna o filme absolutamente imperdível e absolutamente inesquecível. Não é todos os dias que se vê uma cena amorosa (estilo pornochachada) entre um touro recuperado e o seu tratador ou o Carlos Alberto Moniz no Campo Pequeno (vamos fazer amigos entre os animais?).

Fica aqui o apontamento. No circuito comercial o filme não será visto. Na televisão e jornais não será noticiado. Mas o cineclubismo e o genuíno gosto pelo cinema ainda nos deixa uns bravos que o fazem e que o exibem. E parabéns à equipa toda que fez este documentário…bestial, mas que claramente está além do brilhantismo do pastel de nata (da nata, como se diz na minha terra).

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25 respostas a Se o cinema português fosse um pastel de nata era internacionalizado

  1. Slint diz:

    Eu acho que o Shortcutz até é algo interessante…mas alguma vez algum de vocês já lá foi assistir a filmes?
    Aquilo é absolutamente ridículo e de um mau gosto. Só promovem merdas. Este novo tipo de cinema modinha em que as pessoas pegam numa canon 5d, filmam com muita profundidade de campo e fazem um filme sobre a avó e afins. Completamente absurdo.
    Mas deixo um link para o youtube, onde o amigo Costa descreve bem em 2 minutos esta nova geração de “cineastas”: http://www.youtube.com/watch?v=IZ59NIun1dE

    • Lúcia Gomes diz:

      Desculpa mas não concordo nada. Há anos que vou ao Shortcutz e acho que isso é demasiado linear. Por um lado acho que a criação de cinema e a sua exibição deve ser livre. E claro que há coisas que não gostei. Mas foi ali que vi este filme, o homem da cabeça de papelão (que é absolutamente genial), filmes do antónio pinhão botelho, a antestreia do último filme do Edgar Pêra, o banana motherfucker, tanta, mas tanta coisa genial, que não fosse o shortcutz jamais teria visto noutro lado qualquer.

  2. Jfs diz:

    A democratização dos recursos ( que ainda nao foi conseguida) leva também a que se tenha de aceitar o julgamento do povo. Se nao querem arte e querem uma porcaria qualquer estão no seu direito…

    • Lúcia Gomes diz:

      Verdade, mas a questão é que os que querem não têm o direito de ver. Os que fazem não têm direito a fazer…

      • Rafael Ortega diz:

        Têm direito, o que não têm é outra coisa começada por d. dinheiro.

        Parem de pedinchar, façam filmes que as pessoas estejam dispostas a pagar bilhete para ver, e esse problema resolve-se. Se quiserem fazer filmes para meia dúzia de pessoas, então têm os meios que podem pagar com meia dúzia de bilhetes vendidos.

        • Lúcia Gomes diz:

          isso é muito injusto. mas enfim, são opiniões.
          faz-se muito bom cinema por cá.

          • Rafael Ortega diz:

            Se é bom ou não o público decidirá.

            O público não terá problemas em pagar um bilhete se o filme for do seu agrado.

            Se o filme não agrada a gente suficiente para gerar dinheiro que chegue para tornar rentável a sua produção, terá o realizador que se virar para outro lado.

            Tente encontrar um mecenas. Não obrigue todos os outros portugueses, que não reconhecem no filme qualidade para os fazer gastar 5€, a patrocinar a coisa.

          • Lúcia Gomes diz:

            a cultura é um direito. não um negócio.

          • Rafael Ortega diz:

            E tem todo o direito de ter a cultura que quiser, desde que não obrigue ninguém a pagar a cultura que não “consome”.

            Por outro lado, essa ideia de que a cultura é um direito é uma coisa relativamente recente.
            Ao longo da história os artistas não produziam o que lhes apetecia (regra geral), mas o que os mecenas entendiam patrocinar. Não foi por isso que deixou de haver grandes artistas e grandes obras.

            Finalmente, a cultura não ser um negócio é um desses chavões bonitos, mas não é verdade. Para o perceber basta entrar numa livraria. Se a cultura não fosse negócio os livros eram todos dados, não vendidos.

          • Lúcia Gomes diz:

            essa seria toda uma outra discussão em torno de direitos de autor e propriedade, mas a afirmação que faço não é um chavão. É o que é, mesmo que a realidade não lhe corresponda. E será um direito relativamente recente, se olharmos aos séculos que passaram, mas não o é no ordenamento jurídico português. Está consagrado na CRP desde 76. E em muitos países é muito anterior, basta ver a quantidade de países onde não se paga para entrar num museu. Onde os livros são muito mais baratos. Onde os Estados garantem o direito à produção e fruição cultural: isto é, um direito não só para quem cria mas para quem assiste. E para mim violenta-me muito mais obrigarem a ter que escolher entre 100 blockbusters e joana vasconcelos e para ver cinema português ou outro que não seja comercial, tenho que procurar entre festivais e nos cineclubes que vão sobrevivendo.

        • Não andas a ver cinema português de certeza.

  3. José Sequeira diz:

    Se – no caso exposto – o cinema português tem dificuldades, a culpa é dos portugueses.
    Apoio o cinema e o teatro portugueses da única maneira que entendo como válida: frequentando as salas e pagando o meu bilhete. Como o dinheiro não chega para tudo, deixo de ver os grandes êxitos internacionais, para poder ver os nossos. Se todos fizessem assim, os cineastas, actores, encenadores e demais técnicos viveriam dignamente e poderiam continuar a desenvolver a sua actividade. Infelizmente há uma grande diferença entre a conversa fiada e a acção.

    • Lúcia Gomes diz:

      Não é tão simples assim. A maior parte dos filmes portugueses nem entra no circuito comercial, não tem distribuição e acabam por ser vistos apenas em festivais.
      Nem que se queira, não se consegue. E mais, a inexistência de apoios ao cinema, implica que ele nem chegue a ser feito, ou a depender de financiamento privado para tal.

    • Slint diz:

      Isso é bom para quem vive num grande centro urbano. Na minha situação, vejo bastantes trailers na televisão de filmes portugueses novos, e nenhum deles chega a onde eu vivo, que apesar de ter alguma programação de cinema, e por vezes até bastante boa, não chegam lá muitos filmes portugueses.

  4. JP diz:

    Bom dia, onde podemos ver o documentário?
    Obrigado

    • Lúcia Gomes diz:

      Neste momento penso que não está em exibição em lado nenhum (como disse, está fora do circuito comercial, eventualmente só em festivais), mas vou ver se estará disponível online (não me parece). De qualquer forma, na página de facebook do filme há mais informação 🙂

  5. Pode ser que passe no Avante.
    Só posso dizer que nas ditaduras Franco, Salazar, Hitler, mussolini… a cultura era um alvo a abater, e agora é igual. Dá que pensar.

    • Lúcia Gomes diz:

      Sim,o programa do Cineavante ainda não está fechado 🙂

    • Slint diz:

      Hitler..nem tanto. o Fritz Lang foi convidado para dirigir o cinema alemão após a sua subida ao poder. Nessa mesma noite fugiu da Alemanha nazi para os Estados Unidos. Depois tens o Karl Ritter, que apesar de ser assumidamente nazi tem algumas obras interessantes, de longe o melhor dessa época. E ainda claro, possivelmente o único artista de direita que tenho consideração pela sua obra, mas muito pouca como pessoa, o Ernst Jünger.

    • Lúcia Gomes diz:

      Eh pá, no nazismo apostavam no cinema de regime. Todas as formas artísticas de expressão cultural diferente eram censuradas, daí que Fritz Lang não tenha pairado por lá muito tempo…

  6. José Sequeira diz:

    Uma das maneiras de promover e apoiar o cinema português era a RTP passá-lo no canal 2, pagando aos autores. Gosto muito das séries do canal 2 (ex.: Sopranos, Mad Men…) mas essas séries poderiam muito bem ser compradas por canais comerciais, sendo esse espaço e dinheiro reservados para o cinema e o teatro portugueses.

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