Crise política, alguns pontos nos iis

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1º Vivemos uma crise política

Parece básico, mas muito fariseu ainda diz “temos que evitar uma crise política”, ou “é preciso manter a estabilidade política”. Estamos em crise política pelo menos desde o episódio da TSU e da manifestação de 15 de Setembro. Neste momento essa crise atingiu um clímax, a única forma de, temporariamente, atenuar essa crise seria através de novas eleições. Embora a contra gosto, um número crescente de intelectuais do regime já perceberam isso (aqui ou aqui alguns exemplos). Reconhecem que a permanência deste governo apenas agudizará a instabilidade política. No entanto, haverá sempre alguns reaccionários fanáticópatéticos que serão irredutíveis, as suas hostes diminuem a cada minuto.

2º O povo não apoia o governo e quer a sua demissão. 

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Que este Governo já não tem apoio popular é óbvio. O mais interessante é que explicitamente deseja a sua demissão! Regra geral existe um certo conservadorismo inato e medo da mudança no seio das massas. É muito comum os governos perderem apoio da população, mas ao mesmo tempo a maioria social não desejar a queda do governo. Só em momentos excepcionais é que existe uma maioria que explicitamente deseja o derrube do Governo. A mais recente sondagem sobre o assunto de que tenho conhecimento, foi publicada em Abril pelo Expresso. Nela 60% dos inquiridos dizem não querer que o governo se mantenha em funções. Nos inquéritos feitos no jornal i e no DN recentemente, a maioria defende a convocação de eleições. É certo que esses inquéritos não são de grande rigor científico, mas de momento é o melhor que temos e corroboram o resultado acima apresentado.

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3º Subida dos juros da dívida e degradar dos resultados económicos, são a causa do agudizar da crise política, não são uma consequência deste episódio!

O recente texto publicado no Ladrões de Bicicletas vale a pena ser divulgado, tomo a liberdade de aqui colocar um gráfico muito ilustrativo que daí tirei.

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Coloco abaixo um outro gráfico retirado da agência Bloomberg, representa a evolução dos juros da dívida a 10 anos nos últimos meses.

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Desde 22 de Maio que a tendência dos juros da dívida a 10 anos tem sido de subida. O agudizar da crise política provocou uma subida dos juros, mas a tendência já era essa! Gaspar confessa na sua carta que falhou, que as políticas do governo e da troika falharam. Não foi este episódio que “pôs o país à beira do segundo resgate”, ou que “dificulta a 8ª avaliação”, ou “põe em risco o corte de 4,7 mil milhões de euros”. Não. O segundo resgate (seguindo esta lógica de subserviência à Troika e banca) é inevitável (podem é dar-lhe outro nome), a 8ª avaliação seria sempre muito mais dura que  7ª avaliação (e essa já não foi fácil), o corte de 4,7 mil milhões é política e socialmente impossível de aplicar (graças à resistência social). Este episódio ocorre agora devido ao  crescer destas contradições irresolúveis, não é a sua causa, é uma consequência.

Obviamente que existe aqui uma relação dialéctica, à medida que a catástrofe económica e a resistência social se torna cada vez mais indisfarçável, o agudizar da crise política é inevitável. Mas por sua vez, episódios agudos na crise política reforçam a crise económica e social numa espiral tenebrosa.

As idiossincrasias de Passos e Portas moldaram a forma como a “Ópera bufa” a que assistimos decorre, mas não é a sua causa, mesmo que eles não fossem uns “garotos” (que são), algo no género iria acontecer. Como disse aqui há uns tempos:

Do ponto de vista institucional a situação está bloqueada, com o Presidente a assumir-se claramente como baluarte do executivo. Essa é uma falsa segurança, ou melhor, até é uma segurança, mas é insuficiente para aguentar um governo quando as tensões sociais, financeiras e económicas vão se agigantando, tanto por via externa como interna. Pode ser uma explosão social, um resultado devastador nas autárquicas, dissensões internas (PSD vs CDS e mesmo dentro do PSD), uma conjunção destes factores, o que é certo é que este governo cairá. A questão é como. Sobre isso já expus a minha opinião, quanto mais claro for que a queda do governo é resultado da agitação social melhor.

Medina Carreira é um bom exemplo de um fariseu armado em heterodoxo, mas que no fundo é um disco riscado troglodita. Diz se surpreso por termos chegado ao “manicómio”, mas depois acha que os loucos devem continuar a governar… e ainda há quem leve a sério semelhante personagem…

Quem diz que defende “a estabilidade” entra em contradição quando defende a permanência deste governo a qualquer custo. Quem diz que a queda do governo e alteração destas políticas agravaria a crise económica é ignorante ou mentiroso, a manutenção destas políticas e governo é que é a mais certa garantia de aprofundar da crise. Dizer que novas eleições “deitariam a perder os sacrifícios dos últimos 2 anos” é de um cinismo supremo, é absurdo continuar este percurso que não leva a lado nenhum, quanto mais depressa este rumo for travado menos perdas ocorrerão.

4º A crise em Portugal aprofunda-se com a crise Europeia e por sua vez reforça a crise na Europa.

Os juros da dívida Portuguesa desceram na sequência de uma promessa de Draghi e subiram após um discurso de Bernanke. Aliás, não foram só os juros da dívida portuguesa que desceram graças ao BCE, foram até os da famigerada Grécia. E a tendência de subida não é só da dívida Portuguesa, também é da dívida Espanhola e outros periféricos (no gráfico a verde está a evolução da dívida do Estado Espanhol, a laranja está da dívida Portuguesa). Não foi a acção do executivo que mais afectou a trajectória dos juros da dívida ou um hipotético “regresso aos mercados”, foi a acção externa do BCE e da Reserva Federal dos EUA.

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A crise da periferia Europeia é geral e a própria Irlanda está em recessão. Permanecer agarrado às receitas ditadas por Bruxelas-Berlim é suicidário. As mais importantes iniciativas no plano político-económico para vencer a crise são do domínio da nossa relação com a União Europeia e é a forma como lidamos com a dívida. Ou seja, a narrativa de que temos é de “fazer o nosso trabalho de casa” e de que “se falharmos não será por nossa causa”, são um profundo absurdo e reveladoras de uma brutal ignorância ou má fé. Sem mudarmos a política de pagamento de uma dívida que não é nossa, sem repensar a nossa relação com a UE e a permanência no Euro  não haverá “trabalho de casa” que nos safe. Aliás, isso sim é grande parte do “trabalho de casa”.

Se o agravar da crise na Europa torna impossível a retoma em Portugal (neste paradigma político-económico), o agudizar da crise em Portugal também reforça a crise na Europa e para lá dela. A intervenção da Troika em Portugal em muito ajudou ao agudizar da crise Europeia. A “política do bom aluno de Merkel” não só teve consequências explicitas nas políticas destrutivas adoptadas em Portugal, a nível Europeu geral reforçou o “caminho único” da austeridade e contribuiu para a recessão na zona Euro. Um dos grandes crimes deste governo foi exactamente o apoio dado às políticas ditadas por Bruxelas-Berlim nos palcos Europeus.

Conclusões

O derrube deste governo é a prioridade número 1 de quem quer vencer a crise de forma justa, fraterna, progressista e solidária. Neste momento em que “a novela continua” e em que “só os astros sabem que governo teremos daqui a uma semana”, parece-me determinante haver um forte sinal da rua. No Sábado às 15h há uma manifestação convocada pela CGTP para Belém, a que outros movimentos se estão a juntar. Quanto mais expressivo for este protesto melhor.

Se o primeiro passo para sair da crise é deitar abaixo este governo, o segundo é a suspensão do pagamento da dívida impagável e a revisão da nossa relação com a União Europeia, o que incluí iniciar o processo de saída do Euro. O terceiro será a nacionalização da banca, que está sistemicamente falida.

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6 respostas a Crise política, alguns pontos nos iis

  1. Respública diz:

    Fazem as contas todas, indicam que tudo o que está efectivamente mal e qual é a vossa solução? Fazer eleições e meter no poder o partido que nos levou a este estado de coisas. Brilhante.

  2. Gambino diz:

    Excelente post!
    A verdade é que este é um problema europeu e que cada um de nós terá que fazer a sua parte, sendo que a nossa é derrubar este governo.
    Infelizmente, mesmo em Portugal, onde a faca da austeridade está a entrar a fundo, tem sido cada vez mais difícil levar as pessoas para a rua – vamos ver como vai correr a manif de sábado. Os espanhóis ainda mantêm algum ímpeto, mas os gregos começam já a acusar o cansaço de terem lutado sozinhos durante três anos.
    Nós somos uma das linhas da frente e uma vitória da austeridade em Portugal, ainda que retórica, terá efeitos catastróficos. Vamos torcer para que os portugueses percebam isso e no sábado, em vez de irem para a praia, rumem a Belém.

  3. CausasPerdidas diz:

    Desculpe-me, não venho falar do seu texto, para não ser redundante, apesar de não deixar de afirmar que contém algumas apreciações que substituirão muito bem os textos que por estes dias me invadem a caixa de correio. Quero, antes, dar uma opinião sobre os cartazes aqui reproduzidos: ambos enfermam de um mau gosto impressionante.
    Um, do “que se lixe a troika”, tem o efeito inverso ao pretendido – fazer a representação do “Coelho” através dum desenho anatomicamente correcto do pobre animal!… ali ninguém faz frente a um monstro e se desfaz de uma ameaça. Parece a glorificação da brutalidade “tuga” perante os bichos. Não, não sou nenhum taradinho religioso pelos animais – mas concordo com a tal frase do Ghandi;
    O outro, valha-me deus!, espero que não seja da CGTP mas de algum designer muito jovem ou de alguém que não estudou muito a história deste país… para abreviar: a última vez que vi o tal monumento representado com um intuito de exaltação política foi antes do 25 de Abril… de 1974. Se ir pedir qualquer réstea de dignidade ao cretino que colocaram na PR não me mobilizaria por ir além, estes cartazes fariam o resto.
    É com esta imaginação que se pretende varrer o “Nada” que consome este país ou é preciso fazer um boneco?

  4. Rocha diz:

    Camarada Francisco, os últimos desenvolvimentos no Egipto (militares derrubam Irmandade Muçulmana) pelas suas evidentes ligações e consequências para a Guerra na Síria e para todo o Xadrez de confrontação entre os eixos pro e anti-imperilistas no médio Oriente pedem que faças mais uma das tuas análises.

    A situação da Síria está a ter desenvolvimentos muito importantes em países árabes e muçulmanos, depois da Síria e o Líbano já estão mais dois colossos mergulhados em profundas confrontações internas: a Turquia e o Egipto.

    • Francisco diz:

      Pois, estou a seguir mais ou menos o que se passa. Mas sinceramente agora o que se passa no teatro nacional é mais importante porque aquí podemos influenciar qualquer coisa. É preciso estar na RUa e em em força e aproveitar o momento. A análise sobre o Egipto e a Síria pode esperar, nada do que eu disser influenciará muito o que lá se passa… Sobretudo num momento em que a coisa ainda está por decidir aqui e a intervenção da rua é decisiva!!!! As manifes de Sábado são muito mais relevantes do que a malta acha. Parece-me que há muita gente à esquerda que está algo desmotivada/desorientada…

  5. Pingback: Cavaco, Troika e PSD/CDS perdidos no labirinto… Das contradições insanáveis e de como a Esquerda deve celebrar este momento | cinco dias

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