
1. Enquanto não cai o governo cuja vergonha na cara caiu há muito, parece-me importante que possamos ir tomando nota daquilo que aos poucos já tem caído e que, a brincar a brincar, não é tão pouco quanto isso. E caiu por exemplo a estratégia hipócrita do “parecer bem” aos olhos dos outros. Como se depreende das atitudes expressas por Passos e Portas, a preocupação com a “boa imagem externa” deve passar a ser encarada como coisa dispensável, sobretudo se o ego dos executantes governamentais pesar mais que aquilo a que chamam “sentido de Estado”. E mesmo que haja alguém neste governo que esteja convencido da importância “da máscara” para a política que leva a cabo, o que é certo é que é precisamente este governo o primeiro a provar a toda a gente que, além de tudo o resto, também nisso é incompetente. Pior que este lamaçal é impossível. Maior e mais vergonhosa palhaçada que esta, raramente se viu. E digo mais. Começa a ser muito difícil discutir temas políticos relacionados com este governo, ou falar dos actuais governantes deste país, sem cair na tentação ou na deselegância de fazer julgamentos de carácter. Já não há pachorra.
2. Outra curiosa nota digna de registo é verificar o grau de poluição em que se encontra mergulhada a consciência de muito boa gente. E nisto, parabéns – irónicos – à comunicação social, que calcula rapidamente o custo de greves e oscilações bolsistas, mas que nunca relembra quanto custa aos portugueses – em dinheiro e em sacrifício pessoal e profissional – uma política que, dizendo-se salvadora do país, a única coisa que salva é o couro e o bolso de banqueiros e poderosos do sistema. Há muito quem olhe para o comportamento da bolsa e se assuste – oh céus! – com a escalada dos juros da dívida provocada pelas mais recentes “notícias”. E, no entanto, ninguém se questiona sobre a perversão que prefigura a ideia de termos os pilares do Estado e da própria democracia assentes nesta areia movediça da jogatana bolsista, neste antro negro de especulação e agiotagem.


Cheira a podre, cada vez mais podre e malcheirosa, esta palhaçada que só não envergonha quem já não tem vergonha.