Já aqui falei disto mas volto ao tema puxada por este magnífico e genial vídeo sobre a profundidade das análises que um comentador consegue. Em Portugal, pelo menos duas gerações de jornalistas foram colocados na reforma antecipada, prateleira, viram cargos de direcção ser-lhes retirados, muitos sobrevivem com traduções, revisões e outros trabalhos.
Foram substituídos, em primeiro lugar, por estagiários, escravos ou mal pagos, formados em 3 anos, fast education, que condensam e reproduzem as notícias das agências noticiosas internacionais – também elas mega concentradas. E em segundo por comentadores políticos que, em Portugal, não são, ou raramente são, o médico que vai à TV falar sobre medicina ou o cientista discorrer sobre o Bosão de Higgs, o sociólogo sobre pobreza ou o professor de literatura sobre um romance. Em Portugal os comentadores falam de tudo, a qualquer hora, basta convicção nas afirmações, mesmo que o grau de superficialidade sejam acintoso. E ele não é só acintoso para os intelectuais profissionais, felizmente – quem perder umas horas em redes sociais vai ter um panorama sobre o que largas camadas da população escolarizada e educada pensam do que lhes é oferecido na TV e jornais, em particular dos «comentadores», que, creio, a prazo pode mesmo passar a profissão.
Estou convencida que este triste espectáculo foi feito não para criar um sistema de propaganda mas para evitar quebras no lucro. Ter bons jornalistas implica pagar-lhes bem, dar-lhes tempo para pensarem as peças, investigarem, irem aos locais, saírem das redacções, implica enviar equipas, implica uma formação maior nas universidades, implica uma formação humanista, e exige provavelmente, espantem-se, alguns anos de vida boémia e desprodutiva perdida na política e na cultura, mas ganha para o humanismo e a capacidade de se compreender o que está em redor.
Lucro e riqueza não são a mesma coisa. Nós, quem trabalha e não é médio ou grande accionista dos media, ficámos mais pobres com esta mudança, a todos os níveis. Perdemos riqueza porque estes jornalistas estão parados sem produzir de acordo com a sua formação (são uma força de trabalho em potência mas não realizada), perdemos descontos para a segurança social. Não se ouvem notícias fora de Lisboa, não se consegue ver ou ler uma reportagem decente, não se sabe nada do que se passa realmente no país com excepção dos lugares comuns repetidos ad nauseam, sobrou uma mão, talvez nem cheia, de correspondentes estrangeiros. Para falar de segurança social aparecem imagens de um idoso num lar com 95 anos! a greve tem números de adesão à praia; a Turquia é uma luta contra o islamismo. No fim das «notícias», o embrulho: horas sem fim de comentário político, uma gigante conversa em família, que se tornou tema de piada em qualquer lar com escolaridade acima da média.
Tudo isto quando os últimos jornalistas que conheço têm um machado em cima da cabeça com ameaças de despedimentos, veladas ou assumidas – na Lusa e na RTP -, e tudo a coberto de que já não são precisos tantos jornalistas na era digital. Basta abrir uma televisão ou jornal para perceber que o que mais nos falta são mesmo jornalistas, nesta era digital. E não é por serem de direita ou de esquerda, trocaria já um jornalista de direita de há 40 anos por 20 comentadores de esquerda de hoje, da mesma maneira que prefiro ser tratada por um médico de direita do que por um curandeiro de esquerda de rua. Quem percebe o que é o trabalho (a formação, a execução, a produtividade que nele está contida), compreenderá por quê.


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Pelo seu interesse publico aqui este texto da Raquel Varela
tanta adoração ao trabalho, é o seu deus nao é Raquel? O Deus Trabalho? Querem tenta-lo ressuscitar? Ou mante-lo vivo artificialmente? Situação caricata essa dos adoradores do Trabalho. Eu cá prefiro adorar a preguiça e abundancia de mercadorias cada vez mais gratuitas, na época do fim do dinheiro. Engraçado que pela primeira vez na história, a abundancia de mercadorias é feita por uma minoria de trabalhadores. Engraçado que os trabalhadores ja nao sejam mais a maioria, e que os preguiçosos e ociosos já estejam em maioria. O seu deus parece que está a morrer, pode continuar a gritaria que ele nao vai voltar. Isso tenha a certeza.
A sua tese tem um problema, ela não bate com a realidade. Nos últimos 15 anos o números de trabalhadores duplicou, com a ida massiva de camponeses da China e da Índia para o mercado de trabalho.
Não fique afectada como uma católica por dizer que o seu Deus-Trabalho está morto e deixou de existir.
É mais que sabido que em dados globais nunca na história do capitalismo existiu tanto desemprego e tantas pessoas sem trabalho. O caso da China, India, Brasil, assemelha-se ao desenvolvimento do capitalismo vivido pela Europa, Japão, Coreia, EUA, Canada, antes da entrada nesta fase de abundância de mercadorias e do capital ficticio. É natural que o capitalismo ainda possa absorver algum trabalho nesses países, pois ainda existe produção de capital real, contudo, a longo prazo se juntará aos países que já vivem em abundância de mercadorias.
O unico dado é que o trabalho está morto, vive artificialmente, nunca na historia se criou tanto trabalho artificial, é programas disto e daquilo que já nem as empresas que resistem conseguem absorver. Aqui na Europa, nos EUA, no Canada, no Japão, na Coreia, já não precisamos de mais trabalho. Precisamos do Direito à Preguiça, do Direito a fazermos aquilo que bem nos apetecer. Se isso implica mandar um pontapé no cu do Deus Trabalho, uma cuspidela o que for preciso, mandemos. A abundância de mercadorias está em todo o lado, esse é o novo Deus. Não é preciso mais trabalho, é preciso Menos trabalho e mais acesso à abundâcia. Não sejamos como os escravos, que depois de libertados da opressão do Trabalho, voltemos para trás para colocar de novo a triste coleira.
Ah, e não se preocupe, que isso significa o realizar de um dos seus sonhos o fim do capital. O capital só pode existir se tiver a possibilidade de explorar trabalho. Se não explora trabalho, e acrescento para ser um bom marxista, trabalho produtivo, é apenas capital ficticio, sem substância. Logo o fim do trabalho é também o fim do capital, que também agora na sua maioria só é criado através dos engenhos financeiros de dinheiro produz dinheiro, tudo sem a substância do valor e do trabalho, que dada a evolução tecnológica é impossível cada vez mais de concretizar.
A sua falsa consciência está a leva-la a fazer um papel de adoração ao Deus Trabalho, e a representar o papel da esquerda desesperada por ressuscitar um sistema na sua totalidade ligado às máquinas. A longo prazo não desempenha um papel revolucionário, mas um papel reaccionário. A história o provará.
Nem os livros da Carochinha onde se inspira a sua filosofia, nem mesmo esses, são gratuitos!
Refiro-me ao comentário, completamente absurdo de G Martins!
“exige provavelmente, espantem-se, alguns anos de vida boémia e desprodutiva perdida na política e na cultura, mas ganha para o humanismo e a capacidade de se compreender o que está em redor”
sou completamente a favor de vida boémia e desprodutiva, na política e na cultura.
por mim estaria as tardes a passear ou num museu e as noites nos bares, até à hora de fecho.
se arranjar alguém disponível para bancar esta ideia avise, sou o primeiro candidato.