[escrito na última sexta-feira, dia seguinte à greve geral]
Quando começaram a surgir as notícias da resistência popular na Turquia, há umas duas semanas, toda a gente aplaudiu: aqui está um povo como deve ser!, a lutar pelo que é seu!, sem medos e com toda a radicalidade!
Aplaudimos quando reocuparam o Parque Gezi, desocupado pela polícia. Aplaudimos quando formaram barricadas para o defender. Aplaudimos quando, expulsas brutalmente pela polícia, as manifestantes se envolveram em confrontos na rua, reinvidicando o seu direito a lá estar, mostrando estar à altura do braço armado do Estado. Viva a solidariedade internacional!
Aplaudimos porque víamo-las começar um caminho que queríamos fazer por cá.
Mas também aplaudimos porque por enquanto é isso que continuamos a fazer bem; aplaudir. Por cá fizeram-se duas concentrações de apoio às manifestantes turcas. Não foi muito mau: éramos as do costume mais o pessoal turco de lisboa e quem tinha vindo de erasmus de lá.
No entranto começou a transbordar o Brasil. E mais uma vez toda a nossa solidariedade! Concentrações alegres e com bastante gente (bastou trocar o número de turcas a viver em Pt pelo número de brasileiros, mas ’tá bem…). E viva esse povo que luta pelos seus direitos e não se verga!
E todas nós, todas solidárias, fizemos o de sempre: apoiámos em grande solidariedade a transformação mundial que queremos fazer. E voltámos a ouvir as vozes que nos perseguem mais intensamente de há dois anos para cá: portugal é um país de panhonhas, por cá é que não se faz nada, sempre as mesmas merdas e não muda nada.
[INTERLÚDIO
Porque, porra!, já lá vão dois anos de luta social mais intensa, manifestações com centenas de milhar de pessoas na rua, de indignação; já passaram 9 meses desde que o país se engasgou em conjunto com a TSU e veio para a rua com uma energia e com uma potência como antes não tinha sido possível. E ficamos contentes com o quê? Um recuozito, talvez até estratégico, do governo para podermos escrever no facebook “vêm como a luta funciona? :D” ? Uma sondagem que correu melhor para a esquerda? A exigência de eleições antecipadas? Uma greve que correu um bocado melhor que a última? (Vão contá-las à Grécia e dêem-me conclusões, por favor)]
Mas é, andamos por cá, certo? Fazemos mais ou menos o que vamos podendo, afinal de contas temos os nossos empregos e estudos, mas nunca esquecemos a luta que queremos travar cá e a solidariedade com os outros povos, não é?
Ontem um grupo de centenas de pessoas decidiu que a greve não parava quando a CGTP deu por encerrada a manifestação e seguiram em frente com aquilo que é um processo de mudança, e não um processo de estagnação: apropriação das ruas, contacto directo com pessoas, manifestações sem hora marcada por trajecto pré-definido, emancipação face a qualquer controlo.
Ontem, por uma hora, senti um pouco daquilo que senti quando estive na Turquia nos dias em que desocuparam Gezi: um sentimento comum espontâneo, uma sensação de partilha e de proximidade, uma miscelânea de trajectos pessoais unidos na experimentação da radicalidade.
Hoje já há duas narrativas sobre o que aconteceu. A primeira condena a nossa acção: ora porque somos traidoras de esquerda a tentar desviar a atenção da greve ou porque somos vândalos irresponsáveis – pouco me importa a justificação.
A segunda é pior: foi ouvir hoje alguns discursos que se desresponsabilizavam da manifestação em direcção à Ponte 25 de Abril, que diziam que tinham sido só encaminhadas pela polícia.
Eu percebo que agora seja preciso com a parte judicial, e garantir que ninguém vai dentro; mas deixar passar isto como uma uma mera ocorrência cheia de vitimização face à polícia… Isso não.
Eu não consegui estar na manifestação, só mais tarde fui apanhado pela polícia para dentro do quadradinho. Mas sim, o meu objectivo era ir para a ponte. E o meu objectivo era bloqueá-la. E fico sinceramente triste com o descompromisso para com uma das únicas acções suficientemente radical para valer a pena que aconteceu nos últimos tempos.
Porque precisamos da acção que rompa com a regra imposta – ou é para fazer a revolução toda legalizada, carimbada e com controlo de qualidade?
Quando manifestantes cortaram a ponte sobre o Bósforo, em Istambul, e atravessaram a pé esta ponte que não tem caminho pedestre, todas pusémos os olhos nas imagens e nas notícias num misto de desejo e esperança. Mas quando é cá a reacção é diferente: aparentemente somos os vândalos irresponsáveis.
É essa a solidariedade, no fim: dizer que apreciamos algo com que não somos capazes de nos comprometer, que aplaudimos o que não conseguimos perceber em total consciência, o que não conseguimos fazer.
Talvez valha a pena lembrar que a palavra turca para vândalo é çapulcu, esse epíteto que se generalizou de tal forma que até se traduziu para inglês; esse epíteto que usávamos orgulhosamente ao peito. Mas só quando acontece à distância, é?
Talvez para próxima seja diferente. Afinal de contas tudo isto é apredizagem, tudo isto é caminho a ser feito. Talvez para a próxima toda a gente que nos acusa, e se auto-acusa, de povo panhonhas venha para rua, tente chegar à manifestação, ou bloqueie o marquês, ou bloqueie os aliados. Talvez para a próxima o povo farto fique cansado de ver os outros povos pela janela dos media, e decida sair de casa. E talvez aí em vez de sermos 226 sejamos 226.000, e talvez aí a ponte pare.
O que vem a seguir eu não sei. Desde que não seja o que já veio, pela minha parte acho que vale a pena.
PS: Como diz a Gui: Mãe, estou no 5dias! E também a semelhança dela aviso que tenho mão leve nos comentários testosterónicos; o que quer dizer que os apago mais depressa.
[Este texto foi escrito em consonância com o Acordo Queerográfico: http://acordoqueerografico.wordpress.com/]