Um novo partido de esquerda? («Ressuscita, PRD»…)

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Este post vem na linha de um outro publicado esta tarde pelo Luís Bernardo, a propósito da discussão sobre o possível aparecimento de um novo partido à esquerda, suscitada por uma entrevista que Rui Tavares deu ao «i» e de um artigo de José Vítor Malheiros no Público de hoje (sem link, mas que reproduzi aqui.)

Estando genericamente de acordo com o que o Luís escreveu, é-me impossível não estabelecer um paralelismo entre esta discussão recorrente sobre um hipotético espaço eleitoral entre o PS e os dois partidos com assento parlamentar, que se situam à sua esquerda, e aquela que deu origem, em 1985, à criação do Partido Renovador Democrático (PRD).

Os tempos e as motivações são outros, e alguns dos condicionalismos também, mas nem todos: se é verdade que a arena do PRD se situava entre o PSD e PS, e não à esquerda deste, é bom recordar que aquele partido nasceu em consequência da insatisfação com a política de austeridade posta em prática pelo governo então vigente (do bloco central, PS-PSD, 1983-1985, com Mário Soares como primeiro-ministro e com o FMI por cá…) e que foi precisamente a esse facto que ficou a dever-se o seu sucesso eleitoral nas eleições legislativas que se seguiram à queda desse mesmo governo: 18% nas legislativas de 1985, conseguidos sobretudo à custa do PS que desceu espectacularmente de 36 para 21%. Mas em 1987, quando o governo minoritário de Cavaco Silva foi derrubado por uma moção de censura e ocorreram novas eleições, o PRD passou de 18 para 5% de votos e de 45 para 7 deputados. O resto é conhecido: foi desaparecendo e acabou por vender a sigla para a legalização de um partido da extrema-direita.

Ou seja: não existia «espaço» real entre o PS e o PSD, como não existe hoje, julgo, entre os PS e o que está à sua esquerda. Há um grande descontentamento porque os socialistas não o são de facto, porque o Bloco parece um tanto à deriva, porque o PCP é visto como imobilista? Certamente. Mas não seria a criação de algo ideologicamente incaracterístico, mais ou menos gelatinoso, que se insinuasse nos interstícios, que viria dar origem a uma base sólida e consistente. E ainda não vi nenhuma aproximação que não fosse isto mesmo, agora ou no passado recente, sempre que esta questão regressa à boca de cena. Se um partido deste tipo viesse a existir (o que eu não creio que venha a acontecer), até poderia ter, como o PRD teve, um resultado de estreia minimamente interessante e garantir uns tantos lugares ao Sol a muitos que os procuram. Mas não teria uma vida longa, como o PRD não teve, e, sobretudo, não resolveria o problema da esquerda portuguesa. O que resolverá então? Ah, isso é uma questão para um milhão de dólares, o caminho faz-se caminhando e o mundo não acaba amanhã.

(Também aqui)

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5 respostas a Um novo partido de esquerda? («Ressuscita, PRD»…)

  1. artur almeida diz:

    AQUILO A QUE VOCEMECÊ CHAMA DE IMOBILISMO, CHAMA-SE COERÊNCIA E MUITO TRAQUEJO. SÃO MUITOS, MUITOS ANOS A VIRAR FRANGOS

  2. Que os partidos de esquerda representados no parlamento se arrastam penosamente, sem a mais pequena estratégia de conquista do poder governativo, parece-me uma evidência dolorosa. É verdade, Joana, que “o caminho se faz caminhando” e que “o mundo não acaba amanhã”. Mas também é verdade que, como dizia o outro, amanhã podemos estar todos mortos. A urgência que hoje se nos coloca não é compatível com a paciência de quem passa a vida inteira esperando pelas “condições objectivas”.
    Também é verdade, porém, que nada disto se resolve com mais um partido. E, nesse ponto, a Joana disse tudo.

  3. Augusto diz:

    O BE parece um tanto á deriva…..para rir….

    O PRD era um projecto pessoal de Ramalho Eanes sem qualquer base ideológica, e por isso desapareceu..

  4. Antonio fernandes gomes diz:

    estão divulgando partido, qual o numero

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