Agostinho da Silva dizia, com piada, que os brasileiros eram «portugueses à solta». Se os protestos dos últimos tempos, aquém e além-mar, provam alguma coisa, é esta essencial verdade: se na velha metrópole fomos inventores dos protestos apartidários, laicos, e pacíficos, a nossa velha colónia, mais libertada e prafrentex que nós, disse o que nos ia na alma e sufocámos por pudor, inventando os protestos antipartidários, violentos, e macumbeiros: nem um rito candomblé, em Brasília, contra o deputado e pastor evangélico Marco Feliciano, faltou no cortejo de sublevações populares dos últimos dias. Apetece dizer que Marx estava inteiramente correcto quando fazia a conhecida piada sobre a anatomia do homem servir para deslindar a anatomia do macaco.
É evidente que reduzir tudo o que se passou nos últimos dias a uma palhaçada proto-fascista é um óbvio e inaceitável disparate. A defesa de melhorias na política pública de saúde, de educação, a exigência da estatização do serviço de transportes colectivos, a denúncia e condenação de um Governo que investe em estádios futebol «padrão FIFA» enquanto milhões de pobres se acotovelam em favelas, tem toda a justiça do mundo. Há lutas por objectivos progressistas em curso no país: mas ter intenções certas por motivos errados, ou das respostas erradas a perguntas correctas, características centrais que este processo foi desenvolvendo à medida da sua parcial fascização, deve merecer-nos cautela e espírito crítico. As revoluções não são convites para jantar, não são doces nem delicadas. As Noites de Cristal também não. O ponto está em distinguir as duas, e não em reconhecer a natureza atrabiliária da primeira.
Dito isto, é de analisar a deriva que estes protestos descreveram desde que o Movimento Passe Livre (MPL) os desencadeou até que se tornaram maciços protestos de gente vestida de branco – em sinal de antipartidarismo -, empunhando a bandeira do Brasil, cantando o hino rua abaixo, queimando bandeiras de partidos e dando corridas em osso aos militantes dos mesmos, atribuindo as culpas da actual situação «aos políticos», «aos corruptos» (conceito que se confunde no fundamental com o primeiro), e «aos partidos». E é bastante evidente que a velha dissociação entre o projecto moralista e o projecto socialista se afirmou descarnadamente neste andamento das coisas: em vez de um combate aos que em nome dos interesses do patrão quebram até mesmo a lei que o patrão escreveu, deslizaram as coisas para a exigência do cumprimento rigorista da lei do patrão, deixando-o totalmente de fora da crítica em curso e inclusivamente perseguindo, nas ruas, os que tentavam «manipular ideologicamente» os protestos nessa direcção.
As coisas foram assim e não podiam, aliás, ser de outra maneira. A ascensão e queda do PT, de partido político nascido da crescente organização de massas dos trabalhadores brasileiros, das greves do ABC paulista à CUT e da CUT ao partido da classe, e a dinâmica desse partido até à sua institucionalização integral, em aliança directa com a oligarquia, tornando-se agente de um processo de nacionalização do capitalismo à imagem e semelhança dos de variadíssimos governos (democráticos ou não) da América Latina dos últimos 80 anos – esta sua transmutação de vanguarda política da classe revolucionária em linha da frente dos interesses da burguesia brasileira, mesmo que com um amplo projecto de redistribuição da riqueza, acarretou um sentimento generalizado de desespero e ressaca entre os que construíram o partido e se desapontaram, e os que o conhecem agora e só têm nele um exemplar claro da aplicação de um projecto político nacional-desenvolvimentista e de reorientação da economia brasileira não no interesse do povo e dos trabalhadores, mas no dos grandes empresários do Brasil. Como escreveu Breno Altman, num texto que não sendo totalmente acertado consegue ferir o alvo mais de uma vez, «há crescente mal-estar com uma equação de governabilidade que preserva as velhas instituições, depende de alianças com fatias da própria oligarquia para formar maioria parlamentar, abdica da disputa de valores e renuncia à mobilização social como método de pressão». Ora, se um partido que saiu dos morros, das fábricas, dos sindicatos, das gigantescas assembleias em estádios e praças públicas, se transforma numa instituição e num esteio da burguesia, tal só pode, aos olhos mais desprevenidos, significar que nenhum partido é confiável e todos merecem ser olhados de lado. Não se inventa nada aqui: recordar o que foi o levantamento dos fascismos depois da traição social-democrata durante a I Guerra Mundial é simplesmente trazer para o presente um exemplo de que o que se passa no Brasil não é nada de novo debaixo do sol.
A questão está em que é um erro considerar-se que a solução é antipartidária, moralista, regeneradora das almas, é um catolicíssimo movimento geral de arrependimento e observância da Verdade revelada. A questão é material e objectiva, é política, é de classe. E as classes dominadas só derrotam as classes dominantes, como a história o prova, (1) organizando-se disciplinadamente sobre a base granítica de um programa político e de uma teoria revolucionária que corresponda aos seus interesses, e (2) vigiando, com implacável decisão, os desvios que se façam relativamente a esse programa político e a essa ideologia dentro das estruturas do movimento popular. Quando se rejeita o programa e a teoria, não se fica sem teoria, e menos ainda sem programa: o risco que se corre é o de se ficar com um programa e um instrumental ideológico que são os correntes, os hegemónicos, os do patrão, os de quem quer que mande. Na expressão proverbial, quando se rejeitam ideologias e teorias revolucionárias, com fatal certeza, descobre-se a América. Os brasileiros parecem prestes a descobrir a sua.


Esta (rápida) evolução do PT faz-me lembrar a mais antiga evolução do PRI mexicano…
De facto, há ali semelhanças…
Um muito bom texto.
Chapeau !
Muchas gracias!
“as classes dominadas só derrotam as classes dominantes”
Toc, toc,… Acorda, João, estamos em 2013. Já sabemos que essa linguagem deu em merda onde quer que quem a usou teve poder.
Quando alguém acha que são as linguagens e não as práticas que levam a problemas, estamos conversados. E bem sabemos os belos efeitos para a acção política consequente que a rejeição da percepção (óbvia e inegável) de que há classes, luta de classes, dominantes e dominados, teve para a emancipação a humanidade.
Não se rejeita a percepção de que existem desigualdades. Apenas se constata que elas se agravam onde ganha poder quem, em vez de contribuir com trabalho, impostos e propostas alternativas a sujeitar a votos, com elas enche a boca e as mãos de paus e gasolina.
Quem disse que a linguagem era o problema foste tu. Agora já é o método. Suponho que imagines que os dominantes vão ceder o lugar de livre vontade. Já agora, em capitalismo, quem paga impostos e trabalha é o povo. E até o povo apresenta propostas verdadeiramente alternativas, por via do seu movimento sindical organizado e do seu partido de classe.
“Apetece dizer que Marx estava inteiramente correcto quando fazia a conhecida piada sobre a anatomia do homem servir para deslindar a anatomia do macaco.”
– Marx está inteiramente correcto aqui. O macaco como momento evolutivo em direcção ao homem – se quisermos pensar assim em termos simplistas e para os devidos efeitos – só o é a partir do homem: é a anatomia do homem naquilo que de seu conceito remete para uma evolução do macaco que faz do macaco esse momento evolutivo. Ou seja, da anatomia humana coloca-se retrospectivamente o macaco como um momento do seu vir-a-ser.
Gostei.
Só uma crítica e um complemento. A crítica é que o anti-partidarismo vai muito para além do PT. Ele é global: está em Portugal, no Brasil, na Espanha, etc. etc. e o PT não. Eu acho que se trata de facto da crise do sufrágio universal (ou, pondo os pontos nos is, da democracia burguesa).
O complemento é que a realidade no Brasil muda da tarde para a noite. Na sexta briguei à hora de almoço para a esquerda deixar as ruas morrer (afinal, ainda somos nós que convocamos); e à noite para ir para as ruas disputar com os fascistas. Hoje parece-me que sobrestimamos o perigo fascista. Acredito que os fascistas foram polícias (a polícia militar) infiltrados e miúdos contratados por eles. Mas foi evidentemente algo bem articulado – o que assustou toda a gente que correu em socorro da esquerda. Isto traz boas e más notícias: o fascismo não está tão enraizado na população, como parecia há dois dias; mas os militares não estão para brincadeiras.
Abraço
Zé
Isso são boas notícias!
Boas notícias até veres a estatística de militares por habitante. Só na polícia militar é 1 para 500. E esse sistema de Unidades de Polícia Pacificadora, que está a ser montado nas favelas do Rio, coloca 1 para 80 pessoas nas áreas de “pacificação”. Eheheh
Mas o crescimento do sentimento antifascista foi uma magnífica surpresa.
América só há uma, a Latina e mais nenhuma!
Soy loco por ti, América,
yo voy traer una mujer playera
Que su nombre sea Marti,
que su nombre sea Marti
Soy loco por ti amores tenga como colores la espuma blanca de Latinoamérica
Y el cielo como bandera,
y el cielo como bandera
Soy loco por ti, América, (Bis)
soy loco por ti amores
Sorriso de quase nuvem,
os rios, canções, o medo
O corpo cheio de estrelas,
o corpo cheio de estrelas
Como se chama a amante desse país sem nome, esse tango, esse rancho,
Esse povo, dizei-me,
arde o fogo de conhecê-la,
o fogo de conhecê-la
Soy loco por ti, América,
soy loco por ti amores
El nombre del hombre muerto ya no se puede decirlo, quién sabe?
Antes que o dia arrebente,
antes que o dia arrebente
El nombre del hombre muerto antes que a definitiva noite se espalhe em Latinoamérica
El nombre del hombre es Pueblo,
el nombre del hombre es Pueblo
Soy loco por ti, América, (Bis)
soy loco por ti amores
Espero a manhã que cante,
el nombre del hombre muerto
Não sejam palavras tristes,
soy loco por ti amores
Um poema ainda existe com palmeiras,
com trincheiras, canções de guerra
Quem sabe canções do mar, ai,
hasta te comover, ai, hasta te comover
Soy loco por ti, América, (Bis)
soy loco por ti amores
Estou aqui de passagem,
sei que adiante um dia vou morrer
De susto, de bala ou vício,
de susto, de bala ou vício
Num precipício de luzes entre saudades,
soluços, eu vou morrer de bruços
Nos braços, nos olhos,
nos braços de uma mulher,
nos braços de uma mulher
Mais apaixonado ainda dentro dos braços da camponesa, guerrilheira
Manequim, ai de mim, nos braços de quem me queira, nos braços de quem me queira
Soy loco por ti, América,
soy loco por ti amores