UMA RESPOSTA (EM ABERTO)

Disse ao Francisco que só lhe respondia à noite, mas, afinal, vou-lhe dar já a resposta. Enfim, uma resposta possível e incompleta, de quem tem mais interrogações do que certezas. Aviso que vai ser longa, pois este debate não se compadece com a brevidade que, eu sei, funciona melhor na blogosfera.

Bom, em primeiro lugar convém esclarecer que o meu texto não se reportava às manifestações ou movimentos de massas em geral, mas a um tipo particular de manifestações que tem ocorrido na conjuntura actual e nas quais julgo detectar o sentimento de desorientação (politicamente estéril ou inconsequente?) daquilo a que chamamos “classe média”, confrontada com a acelerada degradação do seu lugar social e simbólico. Em articulação com isso, também falei de como o velho “sujeito histórico” que associávamos aos movimentos de massas aparece agora estilhaçado em diversas contradições e fracturas identitárias. Em suma, faço aquelas “afirmações perigosas” – esta acusação delicia-me – típicas de quem já viu muita coisa correr mal e de quem está, por isso mesmo, longe de idolatrar as “massas”.

Mas, se quisermos pensar tudo isto num plano mais geral, importa começar por algumas distinções conceptuais: “manifestações de rua” ou “movimentos de massas” não se confundem com “revoluções”, nem sequer com “insurreições”. Podem ser simplesmente – são-no muitas vezes – descargas colectivas de destrutividade, intrinsecamente vesgas em termos políticos, a que se segue depois a invariável reconstituição da ordem. Se, daqui a uns tempos, a estrutura do poder e o sistema das relações de força no Brasil permanecerem mais ou menos intactos, quero ver o que o Francisco terá para dizer.

Já agora, um parêntese. O Francisco pergunta: “Não será antes a ausência ou derrota dos movimentos de massas que abre as portas ao fascismo?” A este propósito, eu gostaria de recordar, humildemente, ao Francisco que o fascismo é (ou foi historicamente) um movimento de massas. O Francisco sabe, com certeza, que a presença das “massas” não determina, à partida, o conteúdo político de um movimento ou daquilo que, cavalgando-o, define o sistema de poder resultante. É por essas e por outras que o pessoal que esteve a cantar loas à “Primavera árabe” anda agora com a viola tardiamente metida no saco. Afinal, também o Foucault se excitou bastante com a “revolução de massas” no Irão de Khomeini e vários intelectuais de esquerda iranianos apoiaram o Ayatollah, para depois serem devidamente engolidos por ele.

Em síntese, direi que a “conquista da rua”, que entusiasma tanta gente, me comove muito pouco quando os centros do poder efectivo se mantêm incólumes e serenos. E direi mais: acho absolutamente espantosa que uma certa malta de esquerda não pare um minuto para pensar no facto de as manifestações de rua na Grécia, muito mais aguerridas do que tudo o que ocorreu cá no burgo, não terem até agora conseguido inverter o programa de agressão e depauperação dos trabalhadores gregos que permanece em curso.

Significa isto que eu penso serem inúteis ou inevitavelmente inócuos os movimentos massivos de rua? Não, meu caros. E peço, por favor, que abandonem de vez o binarismo como forma de (não) pensar: se o gajo critica determinados aspectos dos movimentos de massas, logo é contra os movimentos de massas. Pensar a preto e branco destrói as células neuronais. A minha posição significa apenas que, no meu modesto entender, esses movimentos nada mudam se a esquerda não for capaz de preencher um certo número de requisitos:

– Incorporar tudo o que correu mal, demasiado mal, na história do socialismo do séc. XX, e fazer o luto definitivo pelo “socialismo real”, metendo de uma vez por todas na cabeça que se trata de uma das mais opressivas aberrações políticas do séc. XX, da qual praticamente nada de aproveitável poderá ser retido. Isto implica pensar o que poderá ser o socialismo enquanto alternativa sistémica ao capitalismo actual, como se articula ele com a pluralidade democrática, que espaço nele se reserva para o “mercado” enquanto sistema de produção e distribuição de bens de consumo, o que fazer com a famigerada “planificação económica”, como passar para um modelo que atenda ao carácter finito das energias não renováveis, etc., etc. Quando vejo gente que se reclama de rótulos políticos garridos, totalmente datados e historicamente pouco recomendáveis – “leninistas”, “trotskistas”, etc. – e que nada têm a dizer sobre estas questões, não sei se hei-de rir, se hei-de chorar. De uma coisa estou certo: podem ficar consolados em termos identitários – e quem sou eu para lhes tirar esse consolo? – mas não vão longe.

– Identificar, com rigor, a estratégia geopolítica que as oligarquias político-financeiras – um termo que me parece mais preciso que o de “burguesia” – têm vindo a tramar nestas últimas décadas. Essa estratégia passa, entre outros aspectos, pela destruição sistemática da classe média numa série de países, com a correspondente transferência maciça de riqueza, pela extensão do poder económico, político e militar dos Estados Unidos – de que o recente confronto com a França é sintomático – pelo controlo e apropriação definitiva das jazidas de petróleo no mundo árabe (que mil “Primaveras” floresçam para que tal desiderato seja atingido), e pela criação de condições que neutralizem o eventual poderio económico da China e que reforcem o isolamento da Rússia. Os lugares onde essas estratégias se decidem têm nomes. Os seus protagonistas também. Assinalá-los e atacá-los directamente parece-me ser um imperativo de esquerda. Mas, claro, posso estar enganado.

– Desenvolver, nos países europeus e em redes transnacionais, um conjunto de estratégias que estejam à altura do que as referidas oligarquias estão a preparar para o nosso mundo. Isto passa por ter ideias claras de como conquistar o poder político. Quando as organizações de esquerda abandonarem os tiques sectários, próprios dos grupúsculos fechados no conforto do seu casulo identitário, e a postura, igualmente confortável, de quem “contesta” mas nada faz para tomar o poder – note-se que não estou a excluir as vias tradicionalmente democráticas –, então é possível que elas se tornem uma alternativa aos olhos das “massas”. Isto obriga a ter um programa claro, exequível e politicamente mobilizador. Obriga também, muito provavelmente, a “sujar” as mãos, a fazer alianças, a renunciar aos maximalismos que têm tanto de ideologicamente “puro” como de politicamente inócuo.

Não sei se isto serve de resposta ao Francisco. Não toquei em todas as questões que ele levanta. Abordei apenas as que me importam. Espero não ter aberto a caixa de Pandora das invectivas e das acusações.

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5 respostas a UMA RESPOSTA (EM ABERTO)

  1. Antónimo diz:

    Diria eu que a única vantagem de não neutralizar economicamente a China e isolar a Rússias decorrem de haver quem rivalize com os EUA. No entanto, nada recomenda os dois países, piores que os EUA em registo de malfeitorias sociais, ambientais e laborais.

    O sujar as mãos, renunciar ao maximalismo fazer alianças é tramado. Em Portugal, obviamente não existe nenhum obstáculo sério que PCP e BE se unam – aliás, considero, e por estas caixas de comentários já o disse algumas vezes, que os dois partidos da esquerda se devem concertar e assumir publicamente o compromisso de ira eleições em separado mas com a decisão de que formarão Governo juntos caso obtenham mais votos que os outros todos (estão a 16 pontos do PS e em breve podem comer o PSD).

    Mas existem obsctáculos sérios há união entre estes partidos e o PS, que não desiste desta construção europeia e tem dentro quem considere a greve dos professores uma coisa ignóbil.

    Em volta de que questões concretas se podem unir estes dois partidos – PCP e BE? Parece-me que em torno das questões sociais, das questões ambientais, das questões económicas. Menos em termos europeus, mas mesmo assim sem grande fricção: A nenhum dos movimentos interessa a Europa que existe.

    Agora, em que pontos concretos se poderiam unir PS, PCP e BE? Nas questões sociais, de onde PCP e BE evacuam concessões aos privados. Nas questões económicas, quando o PS se tem aliado e defendido os sectores financeiros e dos serviços contra os sectores produtivos, sejam estes de que geração sejam? Na Europa, onde PS é cúmplice do que aí está, Maastricht, que não exigiu referendar, Euro ou Lisboa?

    • Mário Machaqueiro diz:

      Ora aqui está um comentário que me dá gosto comentar. É verdade que os regimes da China e da Rússia não se recomendam (pior, muito pior, o primeiro que o segundo). Note que eu próprio não estava a recomendá-los, mas apenas a constatar que, por motivos muito diferentes, constituem obstáculos à plena constituição de uma hegemonia norte-americana à escala mundial – isto para quem pense, como eu, que os Estados Unidos estão longe de se encontrarem na rota do declínio. Depois de uma década trágica de subserviência às mãos de Ieltsin, a Rússia de Putin conseguiu sacudir o jugo do FMI – isto é, dos Estados Unidos – e restabelecer parte da dinâmica imperial sobre o seu “hinterland”, o que não é pouca coisa. Uma vez mais, não estou a tecer laudas no plano ético-político, mas tão-só a reconhecer por que motivo a Rússia actual constitui um espaço de resistência ao projecto hegemónico dos Estados Unidos e à Europa que a ele cedeu e que dele constitui correia de transmissão.
      Quanto às considerações sobre as alianças possíveis entre PS, PCP e BE, subscrevo por inteiro e pouco tenho a acrescentar. Poderão o PC e o BE abandonar os respectivos sectarismos e construir a unidade? Tenho dúvidas, que são confirmadas pelas crispações que tantas vezes atravessaram este mesmo blogue. Seja como for, há neste momento um tema que divide a esquerda: permanecer no euro ou abandoná-lo. Esta última opção parece consensual no PCP, embora julgue que mesmo aí há divergências. O BE, pelo menos ao nível da sua direcção, inclina-se para a manutenção de Portugal na moeda única. Confesso que eu mesmo estou indeciso, visto que há bons argumentos de ambos os lados. Uma coisa é certa: ou a esquerda resolve este dilema ou será muito difícil estabelecer a unidade, dado que esta questão se prende com um objectivo programático fundamental.
      Ainda assim, creio que a dificuldade maior radica noutro lado. O drama da esquerda em Portugal, que é o nosso drama, é que sem o PS, nunca o PC e o BE poderão alguma vez aceder ao governo – e não vale a pena perderem-se em jogos florais na tentativa de negar esta evidência. Só que o PS não é um partido de esquerda, e não sei se alguma vez o virá a ser. Se fosse possível uma eventual ala esquerda do PS (mas onde está ela? Do lado dos Galambas que apoiaram Sócrates?) conquistar o aparelho interno do partido de modo a liderá-lo e a encetar uma aproximação às posições do PCP e do BE – que passaria necessariamente por rejeitar o memorando da Troika -, abrir-se-ia então uma esperança no sentido da construção real de uma alternativa à política austeritária. Mas isto parece uma miragem. De resto, Bilderberg já está, neste momento, a treinar a sua próxima foca amestrada. Chama-se António José Seguro.

  2. Pingback: Questões à volta de Revoluções e movimentos de massas “realmente existentes” | cinco dias

  3. Manuel diz:

    Concordo plenamente. Acho que os EUA deviam era usar, de uma vez por todas, o seu arsenal nuclear para democratizar a China e a Russia e, já agora, resolverem os problemas ecológicos desses paízes.
    Afinal, são regimes mesmo mesmo criminosos, veja-se a Russia, pela mão de Bush, invadiu o Iraque e matou 1 milhão, já a China, pela mão de Regan e outros, destruiu a classe média americana e individou aquele país insanamente, pondo aquele país num caminho (sem retorno?) para se tornar numa ditadura à maneira clássica.

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