AUTO-ESTERILIZAÇÃO “DE MASSAS”

Para os que se entusiasmaram com a explosão de imensas manifestações de rua no Brasil, e com a violência “revolucionária” “de massas” que elas pareciam transportar, os últimos acontecimentos, denunciados aqui, mostram uma realidade muito mais complexa, cheia de desenvolvimentos potenciais com uma carga politicamente medonha. O que nos obriga, se quisermos ter um módico de lucidez, a reflectir sobre as condições dos movimentos de massas na era do capitalismo tardio, esta em que estamos mergulhados.

Tudo se passa como se fosse impossível procurar, em fenómenos como os que ocorrem agora no Brasil, um denominador comum. A implosão do movimento operário e da realidade social e política que o sustentava desembocou neste magma confuso em que todos os gatos parecem pardos. O que mais impressiona nas descrições que “linkei” atrás nem sequer é a infiltração dos manifestantes por elementos de extrema-direita. É a balcanização da política “de massas” que elas sugerem, o facto de não haver um bloco social unido e coerente, mas uma fragmentação e atomização dos sujeitos sociais, rasgados por diversos interesses muito pouco coincidentes e por clivagens identitárias profundas: os “pobres” das favelas e a “classe média”, os “vermelhos” e os “fascistas”, os “partidários” e os “apartidários”, etc., etc. Dir-se-ia que a divisão do corpo social numa miríade de indivíduos em competição uns com os outros – o sonho neoliberal – se transferiu para estas manifestações de rua, movidas por uma vaga “indignação” moral contra alvos abstractos e propensos à generalização despolitizada: a “corrupção”, os “políticos”, a “austeridade”. No Brasil ou, acrescentaria eu, nas manifestações portuguesas dos “indignados”.

Se a isto acrescentarmos a ausência de um programa político capaz de estruturar o protesto, fruto do descrédito em que caíram os milenarismos salvíficos de uma certa esquerda no estertor do séc. XX, temos então uma verdadeira desorientação “de massas”, unicamente capazes de catarses colectivas, tão gigantescas quanto estéreis e voláteis.

Mas isto pode ser lido de outro modo. Podemos estar a assistir, não ao nascimento da classe média como actor político, mas à sua agonia. Se pensarmos que o grande plano das oligarquias político-financeiras, as que formatam o mundo nas reuniões de Bilderberg, é a supressão gradual da classe média numa série de países, algo que exige a eliminação programada de fatias inteiras da população – atiradas para uma situação de carência e de desprotecção social absolutas –, e se tivermos em conta que é a classe média o motor principal destas manifestações (e aí Daniel Oliveira tem razão), então o que se está a passar pode ser o sinal de que a dita classe não vai aceitar esse destino sem contestação.

Contudo, o seu espernear é, ao mesmo tempo, uma confissão de impotência. Pense-se no “slogan” do movimento dos “indignados” em Portugal: “Queremos a nossa vida”. Na sua forma realmente integral, seria algo como: “Queremos a nossa vida de volta”. O que parece justo – nada mais legítimo do que esta reclamação – mas ao mesmo tempo patético, já que nem sequer equaciona a possibilidade de interrogar os fundamentos políticos dessa vida que se quer. Estamos aqui a anos-luz do acordar para a cidadania que muitos insistem em ver nestas “indignações”.

O problema está em que semelhante contestação é, em regra, não só politicamente analfabeta como repleta das limitações próprias de quem aceita colocar-se no papel subalterno do “protestante” – um papel que nunca subverte o lugar do poder, mesmo quando, por acaso histórico, até o derruba.

Aqueles que dizem que os “indignados” facilmente tombariam nos braços do primeiro caudilho fascista que lhes aparecesse não estão, pois, desprovidos de razão.

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9 respostas a AUTO-ESTERILIZAÇÃO “DE MASSAS”

  1. um anarco-ciclista diz:

    lamentável as conclusões que certa esquerda tira das manifs do Brasil…

    Depois, do alto do seu arrogante vanguardismo iluminado, ainda se dão ao luxo de falar em “desorientação das massas”, quando os maiores desorientados têm sido as direcções sindicais e políticas das classe – para não falar dos intelectuais engajados…

    • Mário Machaqueiro diz:

      Leu com atenção o que eu escrevi? E foi capaz de pensar? É que não encontrei um único argumento no seu comentário. Isso sim, é lamentável. A acusação de “vanguardismo iluminado” é coisa que não me atinge: nunca pertenci, nem tenciono pertencer, a qualquer clube que se tome por vanguarda seja do que for. Poderia citar aqui aquela famosa frase do Groucho Marx, mas agora não me apetece. Mas também lhe digo que, se desconfio das “vanguardas”, também não confio mais nas grandes marés de massas ululantes que levam tudo à frente como rolos compressores. A história, aliás, está cheia de exemplos sinistros de como tais “movimentos” desembocam, regularmente, em regimes opressivos. O fascismo, com as suas várias cores, espreita muitas vezes por detrás das festas “revolucionárias”, que duram o tempo da catarse destrutiva e que se esvaziam quando as “massas” começam à procura do primeiro paizinho que lhes assegure a lei e a ordem. Nota à margem: é espantoso como o pessoal aprendeu tão pouco com a miséria social e política que brotou tantas vezes dos “movimentos de massas” do século XX.
      Quanto à desorientação das direcções sindicais e dos “intelectuais engajados”, perfeitamente de acordo. Mas também aí é preciso argumentar um bocadinho. Quando tiver argumentos, volte sempre que será bem-vindo.

      • um anarco-ciclista diz:

        Li com muita atenção a forma como o sr. Mário caracterizou como “patético” os movimentos de indignados, por exemplo!

        • Mário Machaqueiro diz:

          E o que infere daí?
          Em rigor, eu não caracterizei como “patéticas” as manifestações dos “indignados”. Estive na última: dificilmente participaria numa iniciativa que considerasse “patética”. Caracterizei como “patética”, mas também como possivelmente “justa”, uma das palavras de ordem associadas a essas manifestações. E expliquei porquê. Como disse, quando você quiser argumentar, será bem-vindo. Caso contrário, se for só para mandar “bocas”, irá para lixo.

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  3. miguel serras pereira diz:

    Caro Mário Machaqueiro,
    o seu post conta-se entre o que de melhor tenho lido, escrito na região portuguesa, sobre os acontecimentos no Brasil. Na base de um acordo sobre pontos essenciais, ao argumentário oposto por um “Anónimo” ao texto do Passa Palavra que ambos citamos e do qual fiz um post no Vias (cf. http://viasfacto.blogspot.pt/2013/06/o-fascismo-e-uma-minhoca-que-se.html), argumentário com alguns pontos comuns ao deste “um anarco-ciclista” que aqui comenta, respondi o seguinte, que aqui transcrevo, porque creio que sublinha algumas ideias que os dois partilhamos:

    “ler o artigo como uma apologia do PT, ou de outro partido, ou da necessidade de uma direcção esclarecida e superior, como alternativa às “massas amorfas” é uma sobreinterpretação abusiva e/ou falta de imaginação. O que o artigo faz é denunciar a ameaça fascista, por um lado, e pôr em evidência a incapacidade, à esquerda, por parte das organizações existentes para a combaterem. Em termos mais gerais, a perspectiva não é o paternalismo, mas a tomada de consciência de que a alternativa não é entre organização hierárquica e desorganização (“massas amorfas”), mas entre o governo hierárquico, de conteúdo e forma classistas, da sociedade e/ou da acção política, e o autogoverno democrático dos trabalhadores e cidadãos comuns” (cf. http://viasfacto.blogspot.pt/2013/06/o-fascismo-e-uma-minhoca-que-se.html).

    Penso ainda que vale a pena ler o artigo de Caio Martins Ferreira, também no Passa Palavra, que se intitula “O povo nos acordou? A perplexidade da esquerda frente às revoltas”, e começa e acaba com um alerta perante “A situação [que] nos coloca a urgência de reformular nossa postura na luta de rua e reafirma a centralidade do trabalho de base” (cf. http://passapalavra.info/2013/06/79837). Na realidade, quem se pretende apostado na transformação radicalmente democrática das instituições, a que deveríamos reservar o nome de “transformação revolucionária”, não pode deixar de assumir,a cada momento da acção, a necessidade de uma auto-transformação não menos profunda.

    Cordiais saudações solidárias

    msp

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