A revolução não é um chá dançante… seja no Brasil, na Grécia ou aqui…

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No Brasil assiste-se ao maior protesto de massas desde há pelo menos 20 anos, ou até mais… A irrupção das massas na História é sempre encarado com “choque e surpresa”, não só pela reacção, mas também por certos sectores de Esquerda habituados a certos rituais simbólicos e a controlar o desenrolar dos protestos. Vem isto aproposito dos posts aqui publicados da Gui e do Mário Machaqueiro e de um texto, exemplo máximo do “Nacional-Tótósismo”, citado pela Gui de uma tal de Marília (que deve ser do PT ou lá perto).

Sobre as contradições no seio do movimento de massas e as reacções histéricas de uma certa esquerda já tinha aqui escrito a propósito de alguns episódios que se passaram em Portugal, no ponto 2 deste texto e ponto 8 deste texto.

Sobre o que se passa no Brasil cito aqui um texto de um camarada Brasileiro que julgo trazer uma análise mais lúcida do que as apresentadas nos últimos dias, pelo menos é um complemento necessário, relativamente ao movimento Brasileiro.

Henrique Carneiro – Historiador

O Brasil se levantou num protesto de dimensões gigantescas, cujo conteúdo social é a reivindicação de direitos irresolvidos há séculos. Tanto o rechaço aos aumentos de ônibus como à repressão policial, se acrescentam a indignação com gastos para uma Copa na qual o povo foi excluído, a reiteração cínica dos corruptos que saem e voltam a entrar no parlamento, inclusive para presidi-lo como é foi caso de Renan ou de Sarney. Em que se vê um julgamento de corrupção escancarado em que nenhum réu apesar de condenado foi preso.
A desigualdade social abismal que faz do nosso um dos países de maior concentração de renda do planeta foi maquiada com assistencialismo social e passou a se anunciar que os pobres viraram classe média.
E tudo isso foi feito em estrita colaboração entre praticamente todos os partidos políticos do país.
A revolta atual é contra todos os partidos, contra o sistema político, porque as massas não sabem distinguir algum diferencial no campo minúsculo da extrema-esquerda (menos de 1% somados PSOL, PSTU, PCB e PCO nas últimas presidenciais!).
A hostilização à extrema-esquerda é obviamente incitada pela mídia e cumprida por grupos fascistas que aproveitaram a situação para uma ofensiva que demonstra que o cálculo de uma pesquisa recente de cerca de 150 mil ultra-direitistas de tipo fascista no Brasil é um fato preocupante e subdimensionado.
Mas o fundo do sentimento antipartido é positivo!
É a ruptura com a institucionalidade do regime, com a farsa dos negócios eleitorais que governa o país debochando da população com o seu descaramento!
Há, é claro, o direitismo explícito da direita tradicional do PSDB e DEM (hoje Kassab) em São Paulo, onde isso é mais forte.
Mas, é preciso compreender as circunstâncias. Como explicar para o povo ignorante que o inimigo Haddad e sua bandeira vermelha não tem nada a ver com as bandeiras em geral da esquerda (e da direita, pois o rechaço aos partidos é total, tanto que nem por sonho alguma bandeira do PSDB ou outros poderiam ser levantadas!).
Como explicar que depois de tanta intransigência, apoio à repressão e aliança submissa com o governador Alckmin, haja um anúncio na imprensa do presidente do PT, Ruy Falcão, de que o partido iria fazer uma “onda vermelha” no ato da vitória!
Pagamos o preço não só da traição histórica do PT, mas da provocação feita por Falcão!
O movimento tem um sentido inicial de pura negatividade. É o “grande não” que estava represado há séculos! Nunca houve uma revolução neste país!
O povo tomou os métodos de atacar os palácios! Dizer que são provocadores ou vândalos é reduzir o sentido da ira social represada.
O que está ocorrendo é um contágio epidêmico revolucionário em todo o país, em cada menor cidade. Prefeitos são cercados, quase todos baixam correndo as tarifas das passagens. O povo aprendeu a lição, a partir de agora já conhece o método para arrancar reivindicações e para se vingar se houver repressão.
O processo está apenas começando. Em São Paulo, onde a vitória do passe foi enorme, é provável que arrefeça um pouco de imediato. No Rio de Janeiro, não descarto que esteja colocado a derrubado do governador e do prefeito, pois os 300 mil de hoje foram impressionantes!
Mas o mais agudo problema é claro que é o centro do poder. Em Brasília quase se assaltou o Planalto! Sobrou para o coitado do Itamarati.
E o que exigem esses manifestantes é irrealizável por Dilma.
Ela vai romper com Renan e Sarney e declará-los corruptos? Vai tirar os bispos evangélicos ultraconservadores do governo? Vai parar Belo Monte e deixar de matar indígenas? Vai romper com Feliciano e defender as liberdades? Vai romper com a indústria da repressão e legalizar a maconha? Vai deixar de transferir metade do orçamento para os bancos? Vai deixar de submeter a nossa soberania à Fifa e abrir os estádios ao povo com ingressos populares?
Não há a menor chance imediata de golpe, porque a direita já está no poder. Os bancos, o agronegócio, as empreiteiras, as empresas de transportes, estão todos com o governo.
Pois esta é a função do PT há 12 anos no poder. Domesticar o povo, neutralizar sua mobilização social, confundir a sua consciência ao abraçar todos os ex-inimigos, de Collor a Maluf, como dignos aliados.
Haverá golpe se uma situação como essa se prolongar por muito tempo e o governo perder sua função de freio do povo. Mas, mesmo nesse momento, será a pior situação para um golpe, com o povo decidido a fazer valer sua vontade nas ruas, com as forças de segurança abaladas e com uma situação internacional completamente desfavorável.
O movimento é progressivo, é o despertar do povo brasileiro em direção à resolução dos seus problemas históricos. Isso aponta para uma revolução social!
O grande dilema continua sendo o da consciência. O fator subjetivo!
O povo saiu a lutar contra todos, mas não sabe diferenciar nada, não conhece a política, só a abomina como carreirismo oportunista. É claro que isso não pode durar, e não apenas na espera das próximas eleições, que, é óbvio, será um terremoto no sistema de partidos do Brasil. Nem a volta de Lula será suficiente, ele, aliás, deverá sofrer mais do que todos o resultado da revolta histórica contra a traição do PT.
Os movimentos sociais organizados e a esquerda socialista terão de aprender muitas lições, a primeira será fomentar um foro comum, que aponte para uma Assembléia Popular como alternativa de contrapoder. A outra lição é a busca da unidade. A marcha comum em São Paulo contra os apartidistas e fascistas foi um exemplo que deve se mantido, a esquerda trotskista sobretudo, deverá aprender que ter como prioridade atacar-se entre si é o caminho da fragmentação. PSOL e PSTU estão desafiados à tarefa de constituir uma frente de esquerda com programa debatido democraticamente entre suas bases e o movimento social.
E os anarquistas e autonomistas em geral devem aprender uma enorme lição. A de que sua iniciativa na busca do espontaneismo e do horizontalismo pode ser uma façanha de aprendiz de feiticeiro e desencadear forças que não se podem direcionar.
As energias da explosão criativa da ação espontânea das massas na busca de seus direitos contra a pilhagem do Estado e da burguesia se deixadas por si só podem desandar no desespero da ausência de alternativas. Isso sim, leva no médio prazo a que a burguesia, as classes médias e o próprio proletariado passem a exigir qualquer ordem no lugar da desordem.
De momento, o elemento mais importante será a entrada das massas trabalhadoras e pobres. Se isso ocorrer, e de que forma será, define todo o futuro. O papel do movimento sindical mais do que nunca deixou de ser meramente sindical e se converteu numa exigência de posicionamento político.
Mas também devem surgir numa primavera de mil flores todas as formas de novos movimentos sociais, articulados por redes sociais, por causas específicas, por anseios participativos represados e que vão buscar a ação direta, a ruptura de todas as formas burocratizadas de organização política sindical e partidária.
Aos revolucionários está colocado o desafio de compreender os paradoxos do processo, ter claro que nada será fácil, buscar um novo patamar de atividade governado pela exigência da audácia e da rapidez de respostas e, acima de tudo, ter claro que aquilo para o qual esperamos a vida inteira começou!

Para além deste texto, há ainda umas quantas coisas que quero clarificar e sublinhar.

Começo por citar um brilhante comentário ao post da Gui,

Não se percebe: malta que passa a vida a desejar rebeliões (espero eu), a estudar a história dos movimentos sociais e das revoluções do passado e a traçar a régua e esquadro grandes planos de sociedades justas levantadas – das cinzas do capitalismo pelos trabalhadores explorados e pelas massas oprimidas – através da luta de classes. Mal veêm à tona o mínimo sinal de insurreição, na qual a Ordem é posta em cheque, o que inevitavelmente trás também à superfície forças antagónicas, contraditórias e muitas vezes impossíveis de aplacar com paninhos quentes, aqui d´él rei que a revolução está fora de controlo e à mercê de forças reaccionárias.
Ora porra para isto!(…)

Epá, se há fascistas na mistura é preciso que a malta se organize e se defenda. Não adianta fazer birra, como o miúdo que é dono da bola e quando o jogo não corre como previsto, pega na bola e vái para casa fazer birra nas redes sociais que há meninos maus em campo.(…)

No meio disto tudo há muita merda a acontecer? – há pois, há! Mas queriam o quê? manifestações que se transformam em motins não são idas à biblioteca para requisitar antologias de agit prop. Ou todas as manifestações que viram riot são secretamente manipuladas e controladas pela bófia, ou pelos provocadores fascistas, ou por agentes a soldo dos interesses da burguesia?(…)

Sobre o ataque a pessoal de Esquerda nas manifestações, vamos por os pontos nos is, o ataque começou por ser ao contingente que levava bandeiras do PT para as manifes, depois estendeu-se às forças à Esquerda que estavam ao pé.  Agora pergunto eu, se em Portugal o PSD e CDS trouxessem umas dezenas de tipos com bandeiras para uma manif tipo 2 de Março ou 15 de Setembro o que é que iria acontecer? Eu não ia ficar a ver, disso podem ter a certeza… e vocês o que é que fariam? É de estranhar que as massas (e oportunistas de extrema direita também) tenham corrido a pontapé os provocadores do PT que se juntaram às manifestações????

O texto do Mário tem vários pontos válidos, mas tem também várias falácias e afirmações perigosas…

Primeiro, é que acaba-se o texto e apetece perguntar, então todos este movimentos como  os indigandos, que se lixe a troika, primavera árabe, tudo isto é irrelevante? Mais valia estarmos em casa quietos porque não passam de protestos inconsequentes?

Segundo, citando o Mário «Aqueles que dizem que os “indignados” facilmente tombariam nos braços do primeiro caudilho fascista que lhes aparecesse não estão, pois, desprovidos de razão», há é? Onde é que isso já aconteceu? Em que locais e circunstâncias? Que eu saiba não aconteceu, que eu saiba elementos de extrema direita tentaram infiltrar o movimento em Portugal, Espanha e na Grécia, mas nunca o lideraram ou controlaram. Os únicos exemplos disso, são talvez os protestos na Líbia e na Síria, que foram tomados de assalto pelo Fascismo Islâmico. Mas aí a oposição social e política mais enraizada a Kadafi ou Assad já era a de raíz islâmica, mesmo anteriormente aos protestos.  E se levarmos as afirmações do Mário a sério então qual é a posição consequente? É atacar estes movimentos pois eles são as incubadoras do fascismo! O Mário defende isso? atacar os indignados ou o 12 de Março pois esses movimentos só estão à espera de um Mussolini para se entregarem em seus braços? Não será antes a ausência ou derrota dos movimentos de massas que abre as portas ao fascismo??? Não será abandonar o movimento e abandonar a rua a melhor garantia de que o fascismo vencerá? Não será a prioridade número um da Esquerda liderar ideológica e organicamente esses movimentos? É revelador o que o poder estabelecido, na altura o PS, disse apropósito do protesto do 12 de Março, ao contrário do que alguns insinuaram, não foi a incubadora de um movimento fascista, mas do “que se lixe a troika”, que com todas as suas limitações, não deixa de ser uma evolução positiva no desenrolar da luta popular.

Terceiro, mais uma vez citando o Mário «O problema está em que semelhante contestação é, em regra, não só politicamente analfabeta como repleta das limitações próprias de quem aceita colocar-se no papel subalterno do “protestante”». Mas existe algum exemplo histórico de um importante movimento de massas que não seja “analfabeto”? Os cidadãos que cercaram a Bastilha em 1789 tinham todos lido o contracto social do Rousseau? Será aceitável que tenham cortado a cabeça ao comandante da Bastilha após este se ter rendido? E os Guardas Vermelhos que se embebedaram após a tomada do palácio de inverno e as respectivas caves, repletas de álcool do melhor? Será que esses passam a “barra” do Mário? Sinceramente, não sei bem de que é que alguma malta está à espera… O que eu sei é que quem ficar à espera que o movimento de massas seja “politicamente alfabetizado” (o que quer que seja que isto signifique na prática) e absolutamente consciente do seu papel como sujeito de poder activo (seja lá como for possível medir isso) então pode puxar uma cadeira e sentar-se à espera, porque aí vai ficar toda a eternidade, à espera do movimento de massas imaculado dos puros que nunca irá chegar…

Entretanto o processo histórico com todas as suas contradições continua e é aí, na Rua, com as massas e as suas contradições, que a luta por um mundo melhor e contra as reacção tem lugar.

Quanto à Marília, não posso deixar de fazer alguns comentários, começando pelas perguntas que lança no final (já de si reveladoras)  “estamos mesmo diante da possibilidade iminente de um golpe? Estou louca?”. Sugerir que o movimento de massas está a ser manipulado (por quem? pelos Banqueiros que apoiam a Dilma???) para provocar um golpe é de uma baixeza sem limites. Se estás louca? Não me parece, parece-me mais que estas insinuações (é tudo “estranho” para a Marília, não há nada muito claro) são resultado de uma total ignorância do que é um movimento de massas real e a respectiva surpresa depois de vê-lo à sua frente, misturado com pré-conceitos pequeno-burgueses/pacifistas e alguma simpatia que a autora tem pelo PT (não se percebe se é militante do PT ou não).

pacificos_e_violentos_21-06-2013

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6 respostas a A revolução não é um chá dançante… seja no Brasil, na Grécia ou aqui…

  1. Logo à noite respondo a isto. Agora vou “curtir” o Sábado.

  2. Pingback: UMA RESPOSTA (EM ABERTO) | cinco dias

  3. Miguel diz:

    Caro Francisco,
    Amanhã, faz 138 anos que os índios americanos derrotaram a cavalaria do general Custer em Little Bighorn. Os índios lakota chamam-lhe a luta de Greesy Grass. Qual o significado desta batalha na história americana? Talvez, o mesmo para a nossa história actual. Não foi preciso muito para derrotar o exército de Custer e constatar os factos daquele dia. Os índios apenas tiveram que se unir. Da união à resistência, não houve hipótese para o exército chegar aos acampamentos, onde estavam os velhos, as mulheres e as crianças.
    Um pouco à semelhança daquele dia, parece que os americanos não estão a conseguir chegar aonde querem na Síria. Para isso, basta haver uma união e uma resistência.
    Há quem não acredite que seja possível, mas em Little Bighorn foi assim.
    Um abraço e continuação de bons textos
    Miguel

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  6. alex leonardo almeida oliveira diz:

    Um partido como o PT só poderia governar se tivesse parte da direita como aliados. Lula fez um governo que tirou mais de 40 milhões da miséria, construiu mais Universidades que todos os outros governos juntos, promoveu políticas sociais que nem Getúlio Vargas conseguiu. Fez o Brasil credor do FMI, quando ficou por décadas devedor e subordinado a sua política e mando. Sem aliar-se a estes setores da direita, sem fazer uma política onde bancos, industriais e fazendeiros também ganhassem LULA NÃO DURARIA MEIO ANO NA PRESIDÊNCIA. Lula espertamente usou a direita para fazer as políticas sociais que os miseráveis brasileiros tanto necessitavam. Getúlio Vargas fez o mesmo e os dois sofrem as críticas dos mesmos setores. Existe um grupo que quer privatizar a Petrobras, quer o pré-sal nas mãos dos americanos. Lula e o PT não tem outra maneira de impedir isso a não ser fazendo estas alianças e promovendo política que beneficie as duas pontas da pirâmide social. A alta por seu poder e a baixa pelo número de votos.

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