A democracia é uma chatice

No mesmo dia, o PSD decidiu brindar-nos com duas pérolas de cultura democrática. Gostamos de as ouvir, sobretudo nós, os comunistas, que ao dizer de alguns pretendemos a implantação em Portugal do mais despótico regime que mão humana podia alguma vez confeccionar, e que aparentemente teríamos lições a colher junto destes mestres do pluralismo e do respeito pelos direitos liberdades e garantias. Diligente, como sempre procuro ser, corri ao caderninho de apontamentos e fui lesto em registar os dois sábios conselhos, que não resisto a comentar.

O primeiro foi dado por ninguém menos que Alberto João Jardim, homem que prezo pela façanha de ser Presidente Regional da Madeira há quase tantos anos como os que Fidel passou na chefia do Estado cubano. Sugeria Jardim, decerto no seguimento da proposta de Nuno Crato, ontem vinda a público, de «mexer numa série de coisas» na Lei da Greve, que esta fosse liminarmente proibida aos trabalhadores dos transportes, da saúde, da justiça, e das forças armadas. Concordando, acho pouco. Desde logo, e sendo sabido que existe um estigma em relação ao trabalho agrícola (em boa hora denunciado pela ministra da tutela), penso que a proibição devia ser extensível a todos os assalariados rurais, que claramente só fazem greve por repulsa pessoal em andar a cavar terra. Também não entendo como não referiu Jardim que o direito de greve não pode vigorar para os trabalhadores de hotéis de cinco estrelas, que com isso perigam a imagem de Portugal como destino turístico de estrangeiros endinheirados, comprometendo o afluxo de divisas e o equilíbrio da balança de transações correntes. Ou porque concedeu Jardim à sinistra corporação dos professores o direito de parar os trabalhos e deixar, assim, os jovens da nação à mercê da vadiagem, dos cafés e dos charros, quando deviam estar na escola a aprenderem a ser homens. Jardim é, visivelmente, um homem que amoleceu muito desde os tempos da FLAMA: o direito à greve só devia vigorar nas profissões que não impliquem nenhum transtorno para nenhuma pessoa em nenhum momento. Salvo em tais circunstâncias nada legitima que o trabalho pare, e negá-lo é, francamente, ceder sem verticalidade mínima ao politicamente correcto. Um erro crasso.

Por seu turno, Poiares Maduro identificou o grande problema nacional do nosso tempo: em Portugal, as coisas não andam porque «tudo é contestado». Enfim chegou ao poder quem tivesse a coragem de pôr o dedo nesta ferida! Com efeito, se não somos a terra da leite e do mel isso nada tem que ver com o desmantelamento do tecido produtivo, com a promoção do desemprego, com a precarização do trabalho, com o ataque aos direitos sociais e a descaracterização da democracia pelo tratamento desigual e desprovido de isenção dispensado às várias correntes de opinião nos meios de informação. Tudo isso é paleio esquerdista para iludir o essencial: que a salvação do país está na supressão liminar desse hábito birrento e aborrecido de tudo criticar, tudo contestar, tudo maldizer. Felizes são os países onde não existe nenhum tipo de protesto, nenhuma forma de oposição a quem governa, onde, felizes e contentes, os cidadãos obedecem sorridentemente aos líderes e percebem que deles só pode vir o bom, o belo, e o verdadeiro. Só lamento que Poiares Maduro não dite,sobre este assunto, qualquer solução a tomar, atendo-se ao desabafo desanimado: porque não proíbe ele a crítica pública dessas decisões? Porque não põe comissões de fiscalização do espírito positivo (atenção, não lhe chamemos censores!) a purgar jornais e revistas da sinistra peste contestatária? Porque não emprega um conjunto diligente de inspectores na procura pelos cafés, os restaurantes, os autocarros, os metropolitanos e as salas de espera, desses nossos réprobos concidadãos que criticam e fomentam pela palavra o espírito de sedição, que os retire discretamente de circulação e, nos termos eufemísticos do 1984 de Orwell, os «vaporize»? Para grandes males, Sr. Ministro, grandes remédios! Não se pode encarar e debelar uma doença nacional desta gravidade com tibieza: seja dinâmico, seja determinado! O povo lhe agradecerá!

Foi com proveito, quase com gula, que li as declarações destes dois responsáveis. Anotei-as, sublinhei-as, memorizei passagens dos dois discursos. Comprometo-me a, no próximo plenário, partilhar estas importantes lições de democracia com o colectivo partidário do Glorioso. Estamos a andar mal, camaradas! Só um país onde os trabalhadores nunca parem (nem nas greves, nem nos fins de semana, nem nos feriados – saravá, Rui Rio! -, nem sequer na doença ou na maternidade), e estejam sempre felizes e bem dispostos, será um país de futuro. Até porque, importa reter, a contestação atrai energias negativas, gera sentimentos de peso e desconforto, aborrece, irrita, tira de nós o entusiasmo e o sorriso no rosto. Longe, bem longe de nós, querermos alguma vez criticar ou não trabalhar. Ser trabalhador consciente ou cidadão interventivo é um péssimo serviço que se presta ao país e ao povo.

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16 respostas a A democracia é uma chatice

  1. De diz:

    Na mouche

  2. Dezperado diz:

    O Jardim ta velho e caquetico…como o gordo soares….eles falam, mas ja ninguem liga ao que dizem.

    O Poiares Maduro, com esse discurso, deveria ler mais livros do Estaline para aprender o que é a democracia!

    • De diz:

      A menorização estereotipada do Jardim é apenas uma das formas de se tentar esconder o facto do Jardim pertencer ao bando neoliberal caceteiro que governa o país.
      Faz parte da mesma trupe.Tem os mesmos objectivos. A outra face dum Cavaco ou dum Passos.De um Relvas ou de um Dias Loureiro,E o que diz soa a ouro para todos os que pensam o mesmo e têm vergonha de o dizer ou para aqueles que o replicam, salivando com as promessas futuras.
      O poiares é o Jardim em potência com os genes do relvas.O candidato a, para substituir o senhor de turno.Com os apetrechos “democráticos” aparelhados de acordo com o manifesto sinistro de qualquer neoliberal friedmaniano.

      A necessidade de pescar Estaline no meio das águas turvas destes facínoras que nos governam é o sinal evidente de algum desnorte ou de algum ranger de dentes pelo expor desta canalha terrorista?

  3. Mas o Fidel não era ditador.

  4. Gentleman diz:

    Uma pergunta: enquanto comunista nunca o incomodou o facto de na maioria dos regimes que se reclamaram marxistas-leninistas o direito à greve não existir?…

    • De diz:

      Uma pergunta: esta será a forma meio cobarde de tentar proteger os ditos de um personagem, PSD de coração e Bokassa de acção?
      Uma espécie de fuga para o infinito, tentando arranjar um pretexto para retirar as barbas que estão de molho ? E que precisa do conforto de mais do mesmo, para que o rasto ideológico de Jardim faça o seu caminho de deriva fascistóde?
      (Curioso como na net, nos antros da extrema-direita mais ou menos neoliberal surjam as mesmas interrogações, ora na boca de promissores futuros governantes, ávidos de serem recompensados pelo trabalho, ora de anquilosados advogado, ávidos para manterem o seu trabalho)

      Thatcher, uma das sósias ideológicas de Jardim, declarou guerra ao movimento sindical; «partiu-lhe a espinha» e quase aboliu o direito à greve.”Concomitantemente quando era Ministra da Educação, em 70-74, aboliu o leite escolar para as crianças entre os 7 e os 11 anos; fez da década de 80 um pesadelo para os trabalhadores e o povo britânico; confrontada com a greve dos mineiros em 1984, destacou 20 000 policiais para a reprimí-la de forma brutal.Privatizou tudo o que havia para privatizar na Grã-Bretanha; aboliu, na prática, no início da década de 80, o salário mínimo, e fez triplicar o desemprego em apenas três anos do seu governo. A “dama de ferro” é a da guerra colonial das Malvinas, a do ‘Poll Tax’ (o imposto baseado no princípio de que os que menos ganham têm de pagar proporcionalmente mais) e a da tentativa, derrotada dentro do seu próprio partido, de abolir os sistemas públicos de Saúde e Educação”.
      Thatcher chamada aqui pela semelhança de métodos e de fins com Jardim, jaz morta e enterrada e o seu ideário é hoje quase unanimemente posto em causa nos 4 cantos do globo.Jardim é apenas o sub-produto em vias de decomposição acelerada
      Quanto aos tais regimes que se reivindicavam de marxistas-leninistas…a procissão ainda vai no adro e isso de se tomar a nuvem por Juno tem destas coisas.
      Bora lá a outra pescaria.
      A democracia, mesmo a burguesa, é uma chatice

      • Dezperado diz:

        A forma sorrateira como o DE chuta a pergunta para canto, ve-se que ficou embaraçado!

        • De diz:

          Acha?
          Então leia bem a demarcação do terreno feita.
          A pescaria como método de acção e como método de reacção não pode passar impune.Mas já agora o autor do texto já lhe deu algo para pensar

    • João Vilela diz:

      A greve prejudica sempre a classe dominante. Em tese, se a classe dominante é o proletariado, a greve é sabotagem pura e simples. Sobre a existência ou inexistência de poder popular na URSS podemos um dia discutir.

  5. ansomilo diz:

    Sobre o primeiro personagem nada mais merece que desprezo, pois já me habituei às suas bestialidades,qual imbecil e, como dizia o seu “amigo”, na tropa, Manuel António Pina, era um bom filho da … já naquele tempo.
    Quanto ao segundo, também imbecil, é um homenzinho sem carácter e por isto: dias antes de ser ministro disse que o governo deveria ser demitido, pela sua política e o reformado de Belém formar executivo em substituição, hoje já se contraria, primeiro com as suas declarações sobre a greve dos professores, afirmando que o seu colega crato não adiou o exame de português porque não havia comprimisso dos sindicato em aceitar, como isso fosse possível, dado não haver tempo de convocar greve com a antecedência devida, em caso de adiamento.
    Outro caso que denota a sua sacanice foi o de, numa entrevista recente, defender o pagamento dos subsídio de férias em Novembro, qual ignorante, ao responder que o mesmo estava a ser pago desde Janeiro, nos duodécimos, ou seja, estavam os funcionários públicos e os reformados a receberem antecipadamente, quando estes valores correspondem ao 13º. mês e foi por conveniência do desgoverno a fim de amenizar o roubo que efectuaram aos referidos trabalhadores.
    Haveria outras situações e dizeres de outros membros da corja que seriam motivo para refelectir e pensar o que será desta democracia com gente desta, sem escrúpulos e com propósitos de destruição de tudo quanto de Abril foi conquistado.

    • Acreditas mesmo que vivemos em Democracia?

      • João Vilela diz:

        Vivemos numa democracia burguesa, onde vigora um conjunto de direitos, liberdades e garantias, arrancados pela luta dos trabalhadores.

        • Ditadura camarada. Esquece lá isso da democracia. Tens direitos tens, direito a estar calado, direito a não protestar, direito a estar sentado no sofá. Tem juízo. Democracia sem justiça, sem segurança social, sem ensino público de qualidade e gratuito e saúde… não há democracia. Ainda para mais quando a constituição com a troika nacional e internacional a põem de lado.

          • João Vilela diz:

            Tenho demasiado respeito pelos que enfrentaram o fascismo, a PIDE, a censura, a guerra, a Legião e a bufaria, para acolher essa tese. Eu falo mal do Governo no café sem ir preso. Eu escrevo a dizer mal do Governo e não vou preso. Eu sindicalizei-me, fui a manifestações, subscrevi petições, protestei com a polícia por estar a cometer ilegalidades,e nunca fui preso. Quando em nenhuma destas circunstâncias se foi preso, não se vive em ditadura. É tão simples quanto isto. Pode viver-se numa democracia sitiada e mutilada, como todas as democracias burguesas são, mas banalizar e desvalorizar o que se conquistou de liberdades civis e políticas com a luta e a morte de tantos e tantos trabalhadores portugueses é a soberana prenda aos fascistas.

          • Abre a pestana camarada, quem disse que as ditaduras têm de ser iguais?! Ah, que lindo, um camarada a achar que não vivemos em ditadura. Ora pois claro, assim como é que podemos lutar contra algo em que muitos não sabem o que é, ou não querem admitir o que é.

          • João Vilela diz:

            Abre-a tu. Quem não entende que banalizando este regime e dizendo que é uma ditadura «embora diferente» está a caucionar o que a direita quer e a demsobilizar a luta pelas conquistas de Abril é que incumpre o que é dever de um camarada. E isso não é lindo. É, por sinal, bem feio.

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