Em busca do tempo perdido

do Pedro Levi Bismarck

O «Jovem Martim» (a mais recente descoberta televisiva do programa “Prós e Contras” da RTP) não é, ao contrário do que se possa pensar, o feliz paradigma dessa sociedade empreendedora e vibrante, capaz de superar as dificuldades “naturais” destes tempos de crise, mas sim o exemplo mais triste de uma sociedade que parece ter desistido de si própria e do seu futuro, ao deixar que o actual marketing ideológico capitalista colonizasse esse último território por explorar da vida humana – a infância.
Já não bastava a inclusão forçada de todos os espaços e tempos da nossa vida quotidiana (mesmos os mais insuspeitos) à lógica da produtividade, do trabalho e da economia, como até esse território da infância parece estar agora irremediavelmente consignado aos princípios da empresarialização. A vida como um negócio, a empresarialização da vida, onde cada um pode exibir com o melhor slogan o direito a transformar-se a si mesmo em mercadoria.
Aquilo que está em causa neste debate, mas que ainda não foi dito, não se prende tanto com a lógica exploratória e capitalista inerente ao mito do “empreendedorismo”, mas com o facto de que é o «Jovem Martim», afinal, o grande explorado, a vítima de um sistema e de uma sociedade que não só o excluiu do território da infância como o exibe triunfalmente enquanto génio e paradigma de um tempo por vir. E a mensagem é mesmo essa: “Olhem, meus filhos, vocês, homens do futuro, é nisto que se devem tornar”.

Se o «Jovem Martim» é paradigma de alguma coisa é-o de uma sociedade obcecadamente enredada numa lógica de marketing económico, que não hesita em fazer dos seus filhos troféus da sua própria degradação ética, política e social. Ao invés de reprovar o facto de tal «jovem» ser colocado tão precocemente no mercado de trabalho, “excluindo-o” da escola, esta sociedade derrete-se com a iniciativa-expertice deste self madepetiz, que tão bem soube utilizar as “raparigas mais giras” para vender os seus produtos (nada mais enternecedor que uma criança de 15 anos a dominar a gramátia da exploração capitalista). E, ao invés de defender esse tempo de aprendizagem e de conhecimento, que não é apenas o tempo-escola mas o tempo-infância liberto do trabalho (que, apesar de tudo, se fez como uma das mais importantes conquistas da humanidade nestas últimas décadas), esta sociedade elege o «Jovem Martim» como paradigma de um sucesso que, afinal de contas, não é mais que a sua própria derrota. Derrota de uma sociedade que já nem os seus filhos consegue proteger; derrota de uma sociedade que ao abdicar desse tempo-infância, mas também, dos tempos “não-produtivos” da cultura, do conhecimento e da política não faz mais que abdicar do seu próprio futuro. E porquê? Porque são esses, precisamente, os tempos próprios daquela outra ideia tão cara a toda a experiência humana europeia e ocidental: a liberdade. E, como bem o sabiam os gregos, só no espaço e no tempo oportuno da política é que o homem pode garantir a sua liberdade, não apenas individual, mas sobretudo, colectiva. Perder esse tempo, o da cultura, o da política, mas também o da infância, é tão só abdicar da sua liberdade. E é essa a sombra que não cessa de cair sobre o nosso passo. Dizia Sophia de Mello Breyner no seu discurso na Assembleia Constituinte a 2 de Setembro de 1975: “A cultura não existe para enfeitar a vida, mas sim para a transformar – para que o homem possa construir e construir-se em consciência, em verdade e liberdade e em justiça. E, se o homem é capaz de criar a revolução, é exactamente porque é capaz de criar a cultura”.

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7 respostas a Em busca do tempo perdido

  1. Miguel diz:

    O facto do Pedro e do Tiago não quererem empreender não lhes dá a superioridade moral para julgarem quem tal decide como “vítimas”. Por um país mais livre, metam-se na vossa vida.

    • De diz:

      De facto um post excelente,este do Pedro Levi, que o Miguel comenta com tanto fel na boca.
      Ó Miguel acalme-se que os trauliteiros que nos governam ainda não decretaram a diferença de opinião, nem a sua expressão livre e pública.
      Não “empreenda” assim dessa forma nem rabeie tanto. A cabotinice sobra em forma de complexo de inferioridade com tiques de censura serodia e tosca?

  2. Não acho que esse argumento faça grande sentido – o Martim não está na “infância”, é um “adolescente”, ou seja alguém que seria considerado um adulto durante a maior parte da história humana.

  3. Aliás, suspeito que, com a idade do Martim, muitos dos autores deste blog já militassem na JCP, no BE, no PSR ou em algo similar (eu com 16 anos já assinava o Combate).

  4. JgMenos diz:

    A aristocracia é o mais favorável ambiente de cultura, no seu sentido mais comummente aceite.
    Extinta a aristocracia como classe, cabe ao Estado garantir a sua subsistência promovendo os que dela dependiam a ocupar-lhe o lugar, mantendo o subsídio e minorando a dependência substituindo o latifúndio pelo orçamento.
    Tem de haver muitos Martim para sustentar esse regime, pelo que a sua promoção é a bem da cultura.

    • De diz:

      O ambiente “cultural” e a aristocracia?
      Essa mania de rotular como “comumente aceite” o que não passa de sonhos bolorentos de mecenas a sonhar ainda com tacões altos.
      O sangue azul fanado em busca de uma justificação para Martim?
      Ahahah

  5. Don Luka diz:

    O “jovem Martim” não é paradigma de porra nenhuma, é apenas um puto a tentar ganhar dinheiro. Quando muito é paradigma da espécie humana. Os verdadeiros paradigmas da desestruturação da justiça e da moral estão uns escalões etários acima.

    Nenhuma “esta sociedade” elegeu o “jovem Martim” como paradigma de porra nenhuma. Apenas um punhado de pessoas o aplaudiu. Entendê-los como representação da “sociedade” é absurdo.

    Proponho a criação da associação DCMP, Deixem a Coisa do Martim em Paz, arreiem antes em gajos do vosso tamanho.

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