Os trogloditas

TEXTO DE SÉRGIO VITORINO

Santos_InocentesO prós e contras de ontem teria sido bem diferente se o movimento lgbtq estivesse representado com um mínimo da sua diversidade, mas sobre os critérios de selecção de participantes com voz no prós e prós já muito dissertei.
Pessoalmente – postura individual que só me envolve a mim – decidi há vários anos (por altura do segundo referendo do aborto) não contribuir, não participar, não legitimar dito programa (mesmo que me convidassem de novo), e acho que cada telespectador devia ter acesso àquele estúdio pelo menos uma vez, e à negociação dos convites para as bancadas e primeiras filas da plateia, só para ter noção de tudo o que não se vê no ecrã, da forma como algumas pessoas são silenciadas e o decurso do debate manipulado, de quão duvidosos e manhosos são alguns critérios e algumas manobras de escolha.
Então deixaria de ser ver ali jornalismo, informação ou isenção, tal como ontem não se viu senão o sector mais ultra institucionalizado do movimento lgbt, mesmo sabendo que na defesa do projecto-lei de coadopção o conjunto do movimento, e o colectivo em que participo – panteras rosa – ídem, tem falado a uma voz, quer sobre as limitações do projecto, quer sobre a premência de o fazer aprovar.
A fraca qualidade da argumentação dos conservadores – a repetição ad nauseum do mesmo argumento do início ao fim do programa, a confusão permanente entre prentalidade, adopção e coadopção como se fosse tudo o mesmo – foi reveladora da falta de preparação dos sectores fundamentalistas para esse debate. No entanto, ainda que ininteligíveis para o grande público, penso que os embróglios jurídicos criados pela estratégia minimal e de pequenos passos imposta pelo PS ao movimentolgbt desde o estranhíssimo e mundialmente único “casamento sem adopção” pesaram sempre que foram usados pelos interventores conservadores como arma de arremesso.
Mesmo se a sua prestação também podia ter sido melhor, foram geniais algumas respostas da deputada Isabel Moreira, sobretudo quando respondeu ao pai da criança homofóbica “o estado não pode legislar em função da opinião do seu filho, se fosse o meu filho teria uma opinião diferente”. Em determinados momentos até apreciei algumas tiradas do Paulo Corte Real, que está (ligeiramente) mais combativo nas suas aparições televisivas, e senti-me muito identificado e solidário com as duas mães que falaram e com o Miguel Vale de Almeida na sua visível irritação perante aquela dose de homofobia pura, em particular quando o ex-deputado do PS disse ao Marinho Pinto – já quase sem ser ouvido porque lhe cortavam o microfone – que as suas afirmações sobre o “lobby gay” eram tão graves que raiavam o racismo.
Eu diria mais: foram comparáveis ao discurso anti-semita da “conspiração judaica mundial”. Perguntava o Marinho Pinto à Isabel Moreira se ela lhe estava a chamar nazi ou outra coisa. Pois até o outro troglo, o Vilas Boas, pareceu (atenção que o parece neste caso não é) mais moderado, quiçá melhor pessoa, perante o arraial de boçalidade e caceteirismo do Bastãonário da Ordem dos Advogados. É NAZI, mesmo.

Esta entrada foi publicada em 5dias. ligação permanente.

8 respostas a Os trogloditas

  1. Joana diz:

    Ena! Então Marinho Pinto é nazi? E eu que pensava que sabia o que era nazismo. Já agora explique-me bem como a molhares de iletrados (para nossa infelicidade).

  2. Bolota diz:

    Ricardo,

    A enfermeira que estava gravida de gemeos e que tinha a esposa ao lado, quando as crianças lhes perguntarem quem é o seu pai, até porque as crianças não vão viver numa redoma mas em contato com a sociedade, como vai a enfermeira responder??? A enfermeira e a esposa.

    Porque filhos só entre macho e femea. Tudo o que sai daqui são atropelos á naturesa.

    • Ricardo Ferreira Pinto diz:

      Bolota,

      O texto não é meu. É do Ségio Vitorino, como está bem assinalado logo no início.
      Não vi o Prós e Contras e não sei que caso é esse da enfermeira. Mas pelo que sei da lei, a co-adopção neste caso só se aplicará se o pai for anónimo ou se tiver perdido os poderes paternais. Caso contrário, o pai continuará a ser o pai e não haverá lugar a co-adopção. Espero não estar a cometer qualquer erro, penso que é isto.

      • é isso mesmo ricardo. quanto às acusações que faço ao Marinho Pinto estão relacionadas com as afirmações do mesmo durante a emissão em causa, denunciando uma espécie de conspitação homossexual, sugerindo que o país é governado por uma espécie de maçonaria gay, instando mesmo à perseguição e delação da orientação sexual das pessoas, que considerou de declaração obrigatória, o programa é auto-explicativo, joana, sugiro que vá vê-lo, há estas e outras pérolas que sustentam o que digo. Se de facto o viu e não concorda comigo, não temos mais de que falar. Adicionalmente, o percurso do senhor enquanto Bastãonário também fala por si, e nele não é menor a visita na prisão e posterior elogio pessoal a um líder da extrema-direita mais violenta que existe em Portugal. Uma vez mais, auto-explicativo e se conhece e não concorda comigo, também não temos mais o que argumentar.

  3. Já sobre argumentos baseados na “natureza”, recuso-me sequer descer a esse nível de argumentação, cara bolota, acorde, estamos no século XXI.

    • Bolota diz:

      Mesmo em pleno século XXI , procriar só entre macho e femea. Tudo o que sai daqui são atropelos á naturesa mesmo a insiminaçao artificial, Processo que admito por dóença e nunca por moda, como é o caso. Mesmo assim a questão do macho e femea é colocado.
      Ver uma jovem gravida de forma artificial exibir a esposa que tem ao lado…já nem coloco a questão da relação das crianças com a sociedade.

  4. B.P. diz:

    Troglodita é quem escreve assim …
    Mais nada. Por este andar, o 5dias está aqui está a perder um leitor (ou mil)…

Os comentários estão fechados.