Isto é Insustentável. Vamos comer os velhos!

Há mais de 200 anos Jonathan Swift fez uma proposta para resolver a fome na Irlanda: comer as crianças. Em primeiro lugar os filhos dos mendigos e, logo de seguida, os filhos dos pobres, o que teria múltiplas vantagens, entre elas o facto de as mulheres grávidas deixarem de levar pancada  – hábito então – porque carregavam no ventre algo que tinha saída no mercado, e não mais um pedinte a gritar com fome.

Creio que é hora de, nós portugueses, nos levantarmos e propormos medidas com este grau de sabedoria. Vai ser duro mas é um sacríficio necessário para reencontrar a nossa credibilidade nos mercados.

Comer as 100 00 mil crianças que estão em risco em Portugal, comer também as que estão a ser acolhidas em casas de famílias pobres que estão a recebê-las, não para tratar delas mas para ficarem com o magro rendimento que a segurança social lhes transfere por isso. Fazer um guisado de pensionistas, esses  perdulários, que descontaram toda a vida e agora querem descansar, o que está obviamente acima das possibilidades daquilo que Ulrich aguenta.  Pegar fogo aos lares, o que tinha como efeito colateral criar emprego no sector dos bombeiros – chama-se a isto empreendedorismo. Podemos estender a ideia às casas vazias. Pega-se fogo e logo a seguir o preço dispara com efeitos óbvios no rating do país. O Grupo Mota Engil recupera as casas e cria emprego – dinamismo empresarial.

Os desempregados, Ricardo Araújo Pereira, propõe, num texto magnífico, dar-lhes um tiro na cabeça. Discordo. Não será competitivo. Porque sem desempregados os que estão empregados perdem o medo e vão exigir um salário acima da reprodução biológica, cai a produtividade!

Podemos claro optar por transformar os desempregados em soldados. Aí sim, o PIB cresce. Transformamos a Auto-Europa numa montadora de tanques –com motores feitos na Alemanha para ter o apoio da comissão de trabalhadores da Wolkswagen de lá. E invadir os espanhóis, que estão com o mesmo problema, 4 milhões de desempregados a manifestar-se a toda a hora. Trata-se de cumprir a nossa palavra com os nossos parceiros e não nos deixarmos ficar mal no estrangeiro. Os professores desempregados que não forem para a frente de guerra,  podem ir para a fronteira ajudar à comunicação entre os generais portugueses e espanhóis. Os feridos, faz-se um acordo de cooperação com Espanha para dividir o tratamento deles, 1/3 pelo menos nos hospitais da CUF para garantir a rentabilidade do Grupo Melo e da Siemens. Os funerais idem, que ser enterrado sem dar lucro é uma regalia.

Os políticos que nos governam, esses sim, devem ficar onde estão, no Parlamento e no Palácio. Porque, o  que seria de nós sem o Governo deles, sem o Regime deles e sem o Estado deles?

Quanto cobardes cabem na palavra medo?

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7 respostas a Isto é Insustentável. Vamos comer os velhos!

  1. Carlos Pratas diz:

    Gostei de ler. Boa prosa. Carlos

  2. Don Luka diz:

    Numa leitura em 1-agonal pareceu-me uma gozação, ou uma metáfora sobre a sua própria infância que, segundo a wikipedia, foi má. Mas a ti fez-te mal a leitura, Raquel. Devias evitar ler tretas destas no futuro.

    Ontem, por acidente, ouvi o Doutor Júdice na tv. O Doutor Júdice mostrou-se indignado por haver em Portugal cidadãos, que ele designou por funcionários públicos, que, suprema abusação, recebem a tempo e horas, enquanto há muitos outros cidadãos, que ele designou “dos privados”, que não recebem a tempo e horas.

    O Doutor Júdice tinha vindo de Paris, onde, segundo o mesmo, tomou parte no tratamento de um contencioso entre uma empresa e um estado, e estava muito satisfeito porque tinha acabado de assistir ao apuramento de uma equipa portuguesa para uma meia-final de futebol. É isto a “direita” portuguesa: anafada, arrogante, estática, sempre inútil.

    Portugal, nem esquerda nem direita. Só fantoches.

  3. Carlos Pratas diz:

    ” Digno de espanto, se bem que vulgaríssimo, e mais doloroso do que impressionante, é ver milhões de homens a servir, miseravelmente curvados ao peso do jugo, esmagados não por uma força maior, mas aparentemente dominados e encantados apenas pelo nome de um só homem cujo poder não deveria assustá-los, visto que é um só, e cujas qualidades não deviam prezar, porque os trata desumana e cruelmente. Tal é porém a fraqueza humana: levados à obediência, obrigados a contemporizar, os homens não podem sempre ser os mais fortes ” La Boétie – Discurso sobre a seridão voluntária. século XVI.
    Um comentário ao teu belíssimo texto. Carlos Pratas

  4. Fonseca-Statter diz:

    Infelizmente é mais ou menos isso – enfim é esse o efeito final – aquilo que têm feito todas as guerras e em particular as «grandes»: destruir para recriar espaços de expansão para o sistema.

  5. xico diz:

    A irlanda já foi há 200 anos. Há menos de cinquenta, e infelizmente, aconteceu mesmo na China de Mao (comerem as crianças). Na Ucrânia, o celeiro da Europa, na década de trinta, morreu-se de fome, protagonizando um genocídio que certa história gosta de esconder, talvez porque não quiseram comer as criancinhas. Que tal como metáfora?
    Maior cobarde é aquele que não quer enfrentar os seus fantasmas e as suas crenças ideológicas.

  6. Olá Raquel…belíssimo texto! daria um belo filme de Woody Allen! se ele andasse á procura de um bom guião sobre o Portugal dos miseráveis e dos Iluminados.

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