Governo encurralado ensaia uma “fuga em frente”

Governo encurralado ensaia uma “fuga em frente”. Das dificuldades objectivas do governo sociopata prosseguir a sua acção e da oportunidade histórica de desfazer certos mitos neo-liberais/troikistas.

A pretexto da decisão do Tribunal Constitucional o governo recupera o relatório FMI e prepara-se para o assalto final ao estado social, tendo já aplicado uma espécie de lockout. Esta é uma fuga em frente que se confrontará com importantes obstáculos objectivos, não existem grandes exemplos históricos de contra-reformas desta amplitude implementadas em períodos de contracção económica persistente e sem fim à vista. Esta é uma oportunidade a não desperdiçar pela Esquerda para derrubar o governo e de caminho desfazer certos mitos neo-liberais.

Governo Encurralado

O Governo estava obrigado ao corte de 4000 milhões no estado e estava obrigado a corrigir o buraco criado pelas suas políticas de contracção económica, muito antes de qualquer decisão do Tribunal Constitucional. Mais, a estratégia dos sociopatas que nos governam sempre foi a de arrasar o estado social e muito do tecido económico existente, para no seu lugar implementarem uma utopia (distopia) ultra liberal. De Janeiro até agora, mesmo durante a 7ª avaliação da Troika, houve uma pausa neste rumo, a forte contestação social e a ruptura do pacto com o PS, criaram um ambiente que forçou o governo a suspender o ritmo dos ataques. Mas chegados a este ponto, confrontados com a decisão do Tribunal, que objectivamente é um obstáculo aos seus desígnios, é necessário retomar a ofensiva, não haverá melhor oportunidade para os sociopatas prosseguirem a contra-reforma. É uma oportunidade de passar as culpas dos erros passados e das futuras medidas impopulares, é uma oportunidade para o governo se ilibar. E ao diabolizarem assim o Tribunal Constitucional estão também a tentar neutralizar/inibir uma das poucas (se não a única) barreira institucional às suas acções – porque haverá mais orçamentos e legislação que terá de passar pelo crivo do Constitucional.

Da perspectiva governamental as únicas alternativas a esta “fuga em frente” seriam:

a) a sua demissão, mas o governo institucionalmente está blindado – Uma maioria, um governo, um presidente – e ainda possuí a força anímica para prosseguir esta tarefa, ainda tem folgo para um assalto mais, não é desta que atira a toalha ao chão. Até porque há algum fanatismo e espécie de instinto de sobrevivência à mistura… A esperança de conseguir arrasar o país para das cinzas criar um novo ainda não se desvaneceu completamente.

b) mudança de estratégia. Esta mudança foi ao de leve sugerida por sectores do CDS, passava por uma renegociação com a Troika tendo em vista um alongar no tempo e um moderar da contra-reforma. Ora, para isso acontecer era necessário uma renegociação firme, a Troika irá sempre sangrar o porco até ao limite (é essa a sua tarefa e é essa a sua natureza), por sua iniciativa nunca haverá relaxamento nenhum até porque da parte da Alemanha não há interesse objectivo em resolver esta crise. A Alemanha neste momento financia-se a juros perto dos 0%, porque haveria de querer alterar esta situação? E desenganem-se aqueles que acham que quando a crise chegar à Alemanha em força haverá uma catarse e um forte impulso para o Norte e o Sul da Europa em cooperação saírem da crise sem recriminações preconceituosas de parte a parte, antes pelo contrário. Quando a crise atingir em força o Norte a tendência será para um aumento das tensões e recriminações, não para um aumento da cooperação.

Uma renegociação a acontecer só virá por forte pressão do Governo Português. Isso é impossível. Primeiro, o ministro das finanças é um funcionário do BCE e está ao serviço da Alemanha/IV Reich, não da República Portuguesa (muito menos do povo Português). Segundo,  toda a estratégia de negociação é a estratégia de submissão, ou seja, fazemos tudo o que nos mandam para eventualmente aproveitar algumas migalhas que nos atirem, para além de estratégia falhada (pelo que acima já disse) é também uma estratégia que não se muda agora de um dia para o outro, sobretudo sem alterar de governo. Terceiro, a estratégia de fundo do governo, depende da Troika, sem a Troika a contra-revolução em curso não seria possível. No seu momento mais áureo Passos até falou em “ir além da Troika“, em última análise a Troika é o fiador da estratégia deste governo, confrontar a Troika seria anti-natura, seria um outro governo, não este.

Mas é importante também perceber que a Troika e o governo não são uma e a mesma coisa (embora no caso específico do ministério das finanças até seja). O Governo precisa da Troika para implementar a contra-reforma, a Troika precisa do governo para ter fiéis executores na sua província, mas o governo paga um preço. É que a sua contra-reforma fica refém das metas e ritmos definidos em conjunto com a Troika. Ou seja, a elite nativa executa o seu plano revanchista* num contexto de forte contracção económica, sem autonomia para gerir politica e economicamente este processo. Portanto,  não existe margem para ir isolando certos sectores a abater de forma faseada, não existe margem para ir vilificando certos sectores sociais enquanto se beneficiam outros, não existe margem para que a destruição económica em curso possa facilmente ser aproveitada por outros sectores. O resultado é a catástrofe social, económica e o esgotamento da base social de apoio do governo.

* destruir o estado social (capturando novos mercados rentistas e desestruturando a capacidade de resistência e dignidade popular); destruir obstáculos legais à dominação do capital sobre o trabalho (precarização, fim dos contractos colectivos, fim dos sindicatos…); arrasar o pequeno comércio (em benefício de monopólios/oligopólios privados)

A batalha que agora se inicia em torno da tentativa de destruição do estado social é decisiva, o seu resultado será decisivo não apenas para a sobrevivência deste governo, mas sobretudo para definir que tipo de sociedade iremos ter nas próximas décadas.

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Das dificuldades objectivas do governo prosseguir a sua acção

Para começar o governo retoma a ofensiva (numa acção que se assemelha a um lockout envergonhado) com base num pretexto pífio, a maioria social apoia a decisão do Tribunal Constitucional. Mais, a maioria social percebe que a necessidade de mais austeridade não é causada pela decisão do Tribunal, mas antes por um acumular de erros, compromissos e pela própria lógica que tem vindo a ser seguida. Só mesmo comentadores acéfalos ou a soldo podem achar que este episódio fornece uma grande janela de oportunidade política a Passos-Gaspar-Portas.

chantagem Troikista, é mesmo o seu mais forte argumento. Aliás, o que é sussurrado pela Troika através da Reuters parece encomendado por medida por Gaspar-Passos-Portas. A ideia de que não há qualquer margem de manobra negocial é a ameaça necessária para este governo impor o seu programa. Quer fora da União (US and Europe Deeply Divided on Austerity), quer entre outros países da zona Euro há espaço para outra atitude negocial, mesmo num plano minimalista. Aliás um dos grandes crimes de Passos-Gaspar-Portas é a nível Europeu comportarem-se não apenas como “aluno obediente”, mas pior, como fiel aliado (ou cão) da Alemanha, contra os interesses do seu povo e outros povos na mesma situação.

No entanto, o governo retoma a sua ofensiva contra o estado social num momento em que esgotou grande parte do seu capital político e desbaratou a sua base social de apoio. Tem de avançar agora devido às imposições da Troika. E não é só isso, depois das autárquicas o espaço de manobra será muito menor (ou nulo) e por mais que o actual pretexto seja pífio, não existirá momento melhor.

Para tentar cumprir o seu programa e arregimentar alguma base de apoio, lança-se então na destruição do estado social que se baseia nos cortes a fazer na educação, saúde e segurança social (como anunciado por Passos no Domingo passado). A horda de comentadores/fariseus a soldo grita em coro “já devia ter sido mais cedo” ou “agora sim fazem o que já devia ter começado desde o início”. Bem, a verdade é que os cortes na despesa do estado têm sido dramáticos:

Portugal tem recorde da Europa em cortes sociais, Em apenas dois anos – 2011 e 2012 -, Portugal foi o país da Europa que mais cortou na despesa social, tendo reduzido o bolo em 3,7 mil milhões de euros, quase o valor pretendido para a redução permanente na despesa pública (4 mil milhões) para 2013 e 2014.

Tem havido cortes significativos nos subsídios sociais e no número de pessoas que acede a essas prestações. Quase 66 mil pessoas perderam RSI com entrada de novas regras.

Na saúde e na educação tem havido cortes significativos. Qualquer coisa somada na ordem dos 3 mil milhões de euros (ou mais).

É completamente falsa essa ideia de que o governo tem tentado equilibrar o défice apenas pela receita. Os cortes no estado social estão já em curso e são profundos. Os cortes adicionais que aí vêm, não caem portanto em terreno virgem, onde seja fácil cortar e reduzir as lendárias “gorduras do estado”. Não, os cortes que aí vêm (e alguns que já foram feitos) não são um “emagrecimento”, são amputações! Equivalem a cortar braços, pernas ou a remover órgãos!

Ora esses cortes vão em directa contradição com a vontade expressa da maioria da população. Mas mais relevante talvez, seja o facto de que ao mesmo tempo que se vai destruindo esses sectores estatais, o sector privado não vai fazendo grandes ganhos, antes pelo contrário. É que o ano passado o número de pessoas com seguros de saúde diminuí! Ou seja a destruição do Serviço Nacional de Saúde em curso não está a conduzir mais gente para o privado, pelo contrário há muitos a tentar regressar ao SNS vindos das seguradoras. Nas escolas passa-se o mesmo. Apesar dos ataques à escola pública, o sector público tem sido o refúgio de muitos que transferem os filhos de colégios privados para escolas públicas.

É que como acima tinha dito, a actual contra-reforma é aplicada em época de recessão económica e em simultâneo com medidas que aprofundam a recessão, sem horizonte de recuperação. Não há qualquer folga que liberte/aumente rendimentos disponíveis para que a destruição do estado seja capitalizada pelo sector privado. Não há um acesso mais fácil ao crédito e o que há é um aumento de impostos generalizado.

Fruto da recessão, falências e desemprego a população em geral, apesar do degradar dos serviços públicos, vê se obrigada a recorrer a eles porque pura e simplesmente não tem capital disponível para pagar a  privados. Um dos “esquemas” a que o estado português recorreu no passado para contornar isso foram as PPPs. Mas o esquema está politicamente descredibilizado, e mais relevante, o governo não tem margem de manobra financeira para neste momento pagar essas alternativas (que ao contrário das fábulas propagadas pelos fariseus são mais caras para os cofres do estado que a prestação directa desses serviços).

Ora algumas conclusões absolutamente fundamentais podem e devem ser tiradas:

– É uma falácia total achar que, sobretudo no actual contexto, os cortes na despesa do estado, a destruição do estado social, irá libertar recursos que serão aproveitados pelo sector privado. Antes pelo contrário, o corte nos serviços sociais, o despedimento em massa de funcionários públicos, o fecho de centros de saúde e outros balcões de serviço público irão  directa e indirectamente provocar uma forte contracção na procura interna. O impacto agregado no sector privado dos cortes no sector público será extremamente negativo (ainda que certas franjas muito localizadas e ligadas politicamente ao governo possam vir a tirar alguns benefícios).

– Num momento de já grande fragilidade, um ataque à saúde, educação e segurança social irá terá efeitos sociais catastróficos. O nível de indignidade, sofrimento a que vastas camadas da população estarão sujeitas ( e já estão…) atingirá novos patamares.

– O nível de resistência social será maior do que aqueles que o governo e os fariseus estão à espera. Porque esses serviços são o último garante de dignidade, esperança e sobrevivência para muita gente. Porque não existe alternativa no privado, porque a base social de apoio que poderia haver em favor de soluções privadas foi desbaratada.

É que há uma diferença fundamental de contexto entre a actual contra-reforma e processos anteriores. Darei dois exemplos.

Em Portugal nos anos 80 e início dos anos 90, deu-se um intenso processo de contra-reforma com o desmantelamento do sector estatal na economia (privatização da Banca e da grande Indústria), desindustrialização, redução do sector primário, desregulamentação no trabalho, reforma fiscal (por exemplo o IVA, IRS e IRC na sua actual forma datam dessa altura) – depois há quem fale que não houve reformas estruturais. Ora, esse processo de transformação da sociedade e economia Portuguesa foi possível, sem rupturas de maior (embora tenham havido fortes protestos), mesmo com intervenções do FMI à mistura, porque apesar de tudo as quedas do PIB foram pontuais (vejam a tabela), ou seja não houve nunca nesse período mais de um ano com contracção do PIB (apenas em 84 e 93 isso aconteceu). Ou seja, tendo havido crises fortes, a verdade é que sinais de retoma eram visíveis e palpáveis num curto prazo de tempo. Sendo que alguns sectores sociais foram atacados fortemente e indústrias inteiras quase destruídas, houve, de facto, alternativas e paliativos. Estas transformações foram suportadas pelo horizonte de adesão à União Europeia (na altura CEE), desvalorização da moeda e mais tarde pelos fundos Europeus que, de facto, fluíram para o país, financiando/dinamizando sectores (retalho, banca, obras públicas…) que na altura compensaram a destruição económica efectuada noutras áreas.

Durante o negro reinado da Thatcher o mesmo se passou, ou seja, uma dramática transformação social e económica, com doses importantes de conflitualidade social. Sendo certo que certos sectores foram trucidados, a verdade é que no agregado não houve destruição de produto interno persistente. O que quero dizer com isto é que tendo havido alguns anos de recessão (ver dados) nomeadamente em 80, 81 e 91 (nesse último ano já não estava no governo) a verdade é que não houve nunca três anos consecutivos de recessão. Ou seja, pelo menos em certas áreas e para certos sectores, houve ganhos visíveis no curto prazo provenientes das suas políticas.

Neste momento em Portugal estamos no terceiro ano consecutivo de recessão, sendo que tudo indica que em 2014 o mesmo sucederá, ou seja, quatro anos consecutivos (pelo menos desde os anos 60 não há registo de haver dois anos de recessão consecutivos…). O PIB é um número muito agregado, mas de qualquer das formas dá nos a indicação da margem de manobra para ganhos, e mesmo que em certas áreas possa haver alguns ganhos (mesmo com o PIB a descer), a verdade é que para a grande maioria há perdas profundas. Ora não foram estes os resultados agregados apresentados por outras contra-reformas, ou dito de outra forma, outras contra-reformas bem sucedidas foram feitas em contextos onde apesar de tudo houve aumentos do produto interno bruto (seja devido ao aumento do crédito ou outras razões). As crises que serviram como espantalho para assustar as massas nessa altura foram curtas e a reacção teve bases para argumentar que as contra-reformas estavam a resultar e a produzir mais riqueza – o que no agregado, seja por que razão for, até era verdade. Não estou a discutir aqui a questão da redistribuição da riqueza/PIB ou as alterações nas componentes do PIB.

Portanto, ou a contra-reforma em curso em Portugal será um caso singular, em que as instituições e os regimes sobrevivem incólumes a estas contracções económicas sucessivas, ou haverá rupturas semelhantes às que ocorreram em crises da mesma magnitude (anos 20-30) – sendo que na Grécia a situação ainda é mais grave e que vários outros países europeus para lá caminham.

Não estou aqui a desprezar o factor subjectivo, ou seja, não existe uma relação linear, unívoca entre crise económica e processo político. Mas as crises, sobretudo desta dimensão têm um profundo impacto no mundo político e nas instituições. A minha tese não é de que esta situação irá desembocar automaticamente numa saída socialista e progressista para o actual impasse, mas abre portas. O que me parece claro é o seguinte:

– actual rumo é insustentável do ponto de vista económico e social, logo do ponto de vista político também. Por mais que os fariseus digam que “não há alternativa” a realidade tem muita força. De uma forma ou de outra as actuais políticas serão rejeitadas e os actuais regimes sofrerão importantes alterações.

– o factor subjectivo entra em grande força, na medida em que moldará a forma como as actuais políticas serão rejeitadas e quais as alternativas que serão instituídas. Estas rupturas adoptarão diversas formas de acordo com a correlação de forças em presença. Por exemplo na Hungria assiste-se ao desenvolvimento de um regime nacionalista/semi-fascista. Na Grécia o Syriza é a principal força de oposição e logo a seguir vêm os explicitamente nazis da Aurora Dourada. No Estado Espanhol a unidade nacional é posta em causa pelo independentismo catalão, entre outros o fenómenos. Na Itália há “os palhaços“.

Se porventura tivesse lugar uma enorme viragem de rumo na União Europeia/Alemanha, talvez fosse possível ainda conter estas rupturas. Mas, como acima referi, essa viragem não ocorrerá. Por falta de vontade e incentivos, aliada a uma falta de capacidade efectiva em solucionar o problema à medida que ele se vai alastrando. Mais, se alguma viragem de rumo ocorrer será no sentido de um aprofundar das rupturas e não da cooperação/solidariedade Europeia.

Portanto, para qualquer observador lúcido da situação, o actual rumo não proporciona qualquer perspectiva positiva. A única perspectiva realista no actual paradigma é, na melhor das hipóteses, o prolongar austeritário por longos anos, 5 anos diz a Merkel, outros já falaram numa geração ou em 20 anos. A fuga pelas exportações faliu com o aprofundamento da crise na Europa e mesmo noutros mercados a situação não é famosa (até porque os “emergentes” não estando em queda, registam crescimentos bem mais anémicos que há uns tempos atrás). A ideia de retorno aos mercados é uma fábula, o apoio continuado da Troika será sempre necessário neste paradigma, na melhor das hipóteses teremos um “teatrinho” em que a Troika sem cá estar directamente vai continuando a impor os seus ditames “or else”.

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Oportunidade histórica de desfazer certos mitos neo-liberais/troikistas

Sendo a situação insustentável, abre-se uma oportunidade histórica para desfazer certos mitos neo-liberais, coisa que desde o início da crise em 2008 não ocorreu. Em certo sentido isso seria de esperar. Confrontado com o agudizar de um problema a tendência natural é reforçar a dose de remédios conhecida e estabelecida. Só depois de estabelecida a falência desses remédios se ponderam alternativas. Esta é uma importante oportunidade para quebrar a hegemonia intelectual que a direita ultraliberal conquistou nas últimas décadas. Quais então alguns dos mitos que suportam o actual paradigma e poderão ser enterrados por muitos e bons anos?

É preciso cumprir os “compromissos”, Pois eu digo Salus populi suprema lex esto. O compromisso único e mais importante de qualquer governo deveria ser o bem estar do povo. O pagamento de dívidas do estado e a definição do que é dívida do estado e não é, deve estar subordinado a esse princípio. Do ponto de vista moral os compromissos com os pensionistas, funcionários públicos, pequenos empresários da restauração são mais ou menos válidos que os compromissos com os supostos “mercados”? Há quem diga que o default, o “não pagamento”  seria uma catástrofe absoluta. É falso, não tem de ser catástrofe nenhuma, aliás é uma condição necessária para sair do actual ciclo vicioso.

É interessante olhar para a forma como a falência é encarada nos EUA em contraponto com a Europa For the bulk of Europe, the only way to do a restructuring was to avoid insolvency proceedings, while in the U.S., in order to get a restructuring done, you start off by going into Chapter 11. – ver o que é o capítulo 11 aqui

Regressando à questão da dívida soberana, temos a Islândia que pura e simplesmente não pagou a dívida dos bancos que faliram aos credores estrangeiros. Temos a Argentina que desvalorizou a moeda e não pagou parte da sua dívida. Ambos esses países retomaram o crescimento após essas acções… e a Alemanha do pós-guerra? Uma das condições do seu sucesso foi a total renegociação da sua dívida, a Alemanha “não pagou” mais de metade da dívida que tinha! Aliás a Grécia, e bem, vem agora relembrar que a Alemanha lhe deve para cima de 160 mil milhões de euros

A lista de reestruturações e defaults soberanos é extensa. Incluindo os EUA, que por exemplo após a guerra civil recusaram-se a pagar as dívidas que os estados do sul tinham ao Reino Unido e à França… Um default, por si só, não é uma receita milagrosa, nem é algo que não envolva riscos e dificuldades. Mas está longe de ser o bicho papão que a direita neo-liberal/troikista faz dele.

Se sairmos do euro abre-se um buraco nos céus e todos seremos para ele sugados e daí desceremos directamente às profundezas dos infernos onde arderemos para toda a eternidade. Não? Estou a exagerar? Bem é que é o que parece, até vindo de alguma gente à esquerda… Até o banqueiro Ulrich já citou Francisco Louçã para defender a permanência no Euro, triste, muito triste.

Mas enfim, a verdade é que este é um debate que vai fazendo caminho e felizmente cada vez mais gente está a perceber o óbvio. Uma renegociação da dívida e um default total ou parcial, só é possível com, pelo menos, a hipótese de saída do Euro bem posta em cima da mesa. Para aqueles que passam a vida a dizer “vai ser uma desvalorização de 50%” pergunto o seguinte: em quanto já se reduziu o rendimento disponível dos portugueses desde o período dos PECs socratistas até este momento? E se estivermos a falar de uma família em que um dos elementos for funcionário público? E se forem os dois? E se for uma família em que um dos elementos é desempregado? Em todos esses casos, em quanto foi a redução de rendimento? E quais são as perspectivas de perda de rendimento (incluindo acesso a serviços públicos) para os próximos anos?

Aliás, em várias crises, por várias partes do mundo, seja na Finlândia do início dos anos 90, nos “tigres asiáticos” do final dos anos 90 ou no Portugal dos anos 80, uma das medidas sempre tomadas, fundamentais para assegurar a retoma económica, foi exactamente a desvalorização da moeda.

Quando daqui a uns anos se fizer a História deste período, as teorias e práticas da “desvalorização interna” (consideradas actualmente pelos fariseus como “única alternativa”) serão daquelas ideias que são consideradas erros absurdos, responsáveis por um sofrimento desnecessária e causa de catástrofes que começamos a viver

Mais uma vez, a saída do Euro não é uma solução fácil, não é uma varinha mágica, mas é um elemento fundamental para superar a crise. Até porque não é apenas através do Euro que a UE asfixia o povo português. Há uma bateria de directivas e regulamentos comunitários que impossibilitam uma política industrial com pés e cabeça e que têm de ser ignorados/rasgados/renegociados.

Só o investimento privado causa desenvolvimento e é produtivo. Pois, foram estas lógicas de pensamento que nos conduziram às famosas PPPs… Para fornecer bens públicos (infraestruturas de transporte, embora também existam tristes exemplos na saúde e educação) em vez de ser o estado a obter a dívida para financiar o projecto (que seria mais barata) são privados que fingem que a assumem (porque o estado depois assume uma taxa de rentabilidade garantida aos parceiros privados ao longo do tempo de vida da concessão), tudo porque supostamente a gestão privada seria mais eficiente e traria ganhos ao projecto e aos próprios cofres do estado… BARRETE!

O desenvolvimento industrial de qualquer das nações desenvolvidas esteve – em algum momento da sua história – sempre associado a forte investimento público e controle do estado sobre importantes sectores económicos. Não significa isto que qualquer investimento público seja positivo, ou que o controlo do estado sobre sectores estratégicos produza resultados automaticamente benéficos. Mas na situação em que nos encontramos, sem dúvida que apenas o estado tem a dimensão e a capacidade de assumir o risco necessária para levar a cabo certos projectos de investimento. E só o estado deve controlar certos sectores estratégicos, como a energia ou as finanças/crédito, que influenciam/condicionam a actividade de muitos outros sectores. Sem isso não me parece possível uma saída digna e democrática da espiral recessiva.

Depois da fase de delírio ideológico, a realidade parece que se vai impondo. Nem que seja para efeitos de propaganda, o governo vai falando de possíveis investimentos públicos – reabilitação urbana, terminais na trafaria e ligações ferroviárias de mercadorias (não estou a defender esses projectos específicos, mas ao menos já falam nesse conceito radical “investimento público”).

O que é preciso é baixar os salários. Bem acho que fora o António Borges, os sociopatas no governo e uns quantos talibãs neo liberais, já ninguém papa esta. Nem mesmo as confederações patronais…

As eleições seriam uma catástrofe… o poder cair na rua seria o Apocalipse. Por isso mesmo continuemos no corrente rumo em direcção ao abismo! Bem, mais uma vez, não é solução única nem milagrosa, mas o poder cair na rua é absolutamente necessário. Travar o actual rumo e adoptar algumas das medidas acima sugeridas implica assumir rupturas e confrontar importantes interesses instalados. Só um movimento de massas forte poderá impor estas mudanças, só a forte mobilização popular poderá empurrar certos elementos hesitantes no caminho recto e combater todo o tipo de sabotagem e golpismo que a reacção irá desencadear.

E vou para lá da questão da reivindicação e confrontação. A crise que vivemos é de tal ordem que só uma mobilização geral popular a poderá derrotar. Só uma população mobilizada, unida em torno de uma visão comum, tem a força, energia, inteligência e criatividade que serão necessárias para superar a crise.

Para já temos a Troika que parece vir fazer-nos uma visita para a semana. Seria um bom pretexto para a contestação voltar às ruas. Sem isso nada será possível.

O enterro destes mitos é não apenas uma oportunidade, é uma necessidade! É verdade que muitos outras estórias da carochinha existem. No desenrolar do processo histórico outras medidas e formas de organização social irão surgir, a cada etapa novas questões se colocarão. Neste momento, em traços gerais, este parece me ser o conjunto de mitos a desfazer e de tarefas a cumprir. Menos do que isto é que não vejo como…

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6 respostas a Governo encurralado ensaia uma “fuga em frente”

  1. xatoo diz:

    “governo encurralado”? eles andam por aí, com um batalhão de policias e “jornalistas” ao seu redor, todos disfrutando da desmesurada sombra da monumental estátuia neoconservadora de Belém (a NATO)… quem está encurralado é o povo.

  2. De diz:

    Nem sempre se concorda com tudo.Mas um texto poderoso, com pés para andar e com cabeça para convocar ao essencial.
    Dá gosto ler
    E a frase: “que se linche a troika”…um achado!

  3. lodo seguro diz:

    Parabens!

  4. um anarco-ciclista diz:

    de longe, o melhor texto nesta tasca… desde há muito!

    Retomando paradigmas mlitares, a teimosia de Hitler na frente oriental (tentativa de tomar Moscovo em 1941, cerco de Stalinegrado) custaram-lhe a guerra. o mesmo sucederá com este governo

  5. Eu dou-te cabo do canastro. Estás-me a dar muito trabalho a ler. Textos intermináveis, que carago.

  6. Pingback: Governo à beira da morte! Viva a luta popular que o destruiu! | cinco dias

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