“Guia Para um Final Feliz”, de David O. Russel

Ao ver o trailer de Guia para um Final Feliz (o próprio nome…), era fácil imaginar o pior. Juntando um homem bipolar (Pat) a tentar recuperar a ex-mulher e uma viúva em processo de escape sexual (Tiffany), com alguns toques de humor mais duvidoso e previsível, seria lógico enquadrar o filme algures num misto de comédia romântica gasta e drama familiar barato. Tirando Jennifer Lawrence (pelo menos por causa do desempenho em Despojos de Inverno) da equação, os próprios actores não ajudavam: Bradley Cooper não se tem destacado pela presença em trabalhos de grande qualidade (As Palavras é interessante, mas ele é um dos elos mais fracos) e a filmografia de Robert de Niro foi perdendo alguma respeitabilidade nas últimas duas décadas. Contudo, se não nos deixarmos levar pelas opiniões preconcebidas, Guia Para um Final Feliz consegue ser um filme bem surpreendente.

A questão que se coloca é onde estarão os méritos da obra de David O. Russel. Em diálogos e momentos bem mais inteligentes do que o esperado (as corridas constantes ou o frenesim das apostas do bizarro pai de Pat, por exemplo)? Na forma quase caótica como a trama se vai desenvolvendo, numa espécie de insanidade generalizada? Numa montagem plena de ritmo e de movimento, quase em sintonia com o descontrolo emocional associado à bipolaridade de Pat? Em boas interpretações, com destaque para Cooper a encarnar bem o drama do protagonista? Talvez um pouco por tudo isso. O certo é que, dentro de um género onde há um sem fim de propostas profundamente ocas e descartáveis, Guia para um Final Feliz tem qualquer coisa de original que o afasta desse registo mais medíocre.

Apesar das diferenças hereditárias e de circunstâncias de vida dos protagonistas, há, do ponto de vista do cruzamento de duas personagens desenquadradas e completamente à deriva, algumas semelhanças com o prodigioso Inquietos. Não terá a magia, nem a emoção do filme de Gus Van Sant, até porque o final é demasiado banal, mas tem uma densidade psicológica e uma criatividade bastante acima da média. Uma boa surpresa, portanto.

6/10

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2 respostas a “Guia Para um Final Feliz”, de David O. Russel

  1. O João é um excelente crítico de cinema. Nada de encriptada escrita que se lê nos jornais sem preciosismos. .

    • João Torgal diz:

      A minha referência será o João Lopes, que foge desse estereoptipo. É alguém que fala de cinema com respeito, emoção e profundidade, sem pseudo-intelectualismos.

      Muchas gracias pelos elogios 🙂

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