“Django Libertado”, de Quentin Tarantino

Depois das temáticas abstractas anteriores, Tarantino ganhou o gosto à paródia históricaSe em Sacanas Sem Lei o alvo era o holocausto, aqui efectua uma revisitação particular da escravatura. Apesar dos terrores nazis serem mais recentes e, portanto, envolverem de forma mais próxima a memória das pessoas, Django Libertado tem o condão polémico extra de confrontar a América com um período negro da sua história. E são bem sabidos os traumas que os americanos têm com o passado que, de alguma forma, os envergonha e não enaltece os seus feitos heróicos. O que já não se esperava era ouvir alguém fracturante como Spike Lee ficar tão incomodado com a abordagem mais sarcástica de Tarantino.

Mas, enfim, falemos do cinema propriamente dito. A primeira sequência é avassaladora. Depois da bela panorâmica inicial ao som do tema título, uma espécie de rockabilly entre o sensualão e o épico, temos a fabulosa libertação de Django e o “ligeiro” distúrbio com os oficiais da lei de uma pequena terra. Talvez falte um pouco da paciência que tem a primeira cena de Sacanas Sem Lei, mas o brilhantismo não é muito menor, até porque os diálogos são delirantes e o tom erudito do discurso de Schultz é desconcertante. Pode haver aqui demasiadas semelhanças entre o papel de Christoph Waltz neste filme e o do caçador de judeus no filme anterior (ele é genial em ambos, isso será indiscutível), mas é preciso não esquecer um aspecto que está longe de ser um pequeno pormenor: se antes era o “mau”, agora é o “bom”, o que mostra Tarantino a baralhar e a arrumar com todas as convenções de género (outra vez).

Em termos de narrativa, a história é muito simples. Schultz é um caçador de prémios que precisa de Django para atingir três alvos. Quando percebe o instinct killer do antigo escravo, sugere-lhe uma parceria profissional. Em troca, dá-lhe um terço dos lucros e a promessa de resgate da mulher, escrava numa fazenda do Mississippi. A história é perfeitamente banal, mas é no particularismo do cinema de Tarantino que residem os principais méritos do filme, capaz de pegar no western e moldá-lo por completo de acordo com os seus códigos próprios. A artificialidade propositada dos jactos de sangue (um pouco como em Kill Bill I, mas as diferenças de argumento são enormes), o humor negro característico, o lado politicamente incorrecto assumido ou a tensão em lenta progressão estão aqui patentes de forma vibrante. E, claro, é precisão não esquecer algumas cenas de antologia: a evocação surrealista do Ku Kux Klan (Tarantino brinca com coisas sérias como ninguém), a interpretação de Beethoven com harpa, o ambiente sofisticado que rodeia a luta dos negros, etc, etc, etc.

Dois outros aspectos merecem nota obrigatória. Por um lado, as notáveis interpretações, sem qualquer erro de casting. Há Jamie Foxx (Django) e Leonardo Di Caprio (Calvin Candie, um sádico comerciante de escravos) no ponto, mas há essencialmente o já referido Waltz e o grande Samuel L. Jackson. Há vinte anos ele seria muito provavelmente o Django, agora, de forma quase irreconhecível, é o braço direito de Calvin Candie, um velho perspicaz e implacável, sem quaisquer escrúpulos para com os escravos que comanda. O facto de se tratar de um negro é Tarantino a baralhar tudo novamente. Por outro, e como sempre nos filmes do realizador, a banda-sonora é perfeita. Há a música típica de um western spaghetti, com composições do crónico Ennio Morricone ou esse viciante tema chamado Trinity, mas também coisas completamente distintas, como o cândido tema italiano Ancora Qui ou ainda  r’n’b e hip-hop (do mais pesado), John Legend e Rick Ross, porque nada no western tem de voltar a ser como antes.

Django Libertado tem cerca de três horas de duração, mas, pese embora uma parte intermédia ligeiramente mais morna, em nenhum momento chega a ser entediante. Toda a longa cena do jantar em casa é impressionante e merecia que o filme terminasse aí, mas Tarantino resolve prolongar a coisa para um volte-face e um derradeiro ajuste de contas (ainda) mais auspicioso. Seja como for, é possível discutir um ou outro pormenor e manifestar uma ou outra preferência, mas fica a pergunta final: não será quase heresia tentar encontrar defeitos numa obra-prima como esta?

9/10

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6 respostas a “Django Libertado”, de Quentin Tarantino

  1. Concordo inteiramente com o João: um filme 5 estrelas. Dos 7 filmes que já vi, o meu preferido é o Amor. Atenção a um filme muito bom “Beasts of the Soutern Wild – Óscar para a miúda de nome difícil como o da personagem – Quvenzhané Wallis.

  2. Pisca diz:

    Perfeitamente de acordo com o post, já o Lincoln depois arrastadamente visto, parece-me um pastelão que só o nome do Spielberg consegue dar algum alento

  3. Nazaré Oliveira diz:

    Bom dia, João Torgal!
    Publiquei agora mesmo no meu Fbook este belíssimo post apresentado no 5 dias.net q tb sigo no meu blogue.
    Excelente!

    Nazaré Oliveira
    (Já agora…sou mãe de um “Torgal”: Francisco Torgal)

    Um abraço

    • João Torgal diz:

      Obrigado pela publicação, Nazaré.

      Quanto aos Torgais, ainda que possivelmente afastados, seremos certamente parentes.

  4. Concordo com tudo o que foi dito!
    Vi o filme e adorei! Aliás… nem me apercebi das 3 horas de filme.
    Foi o primeiro filme que vi de Tarantino… e já estou a tratar de organizar a minha lista para ver os filmes dele. 🙂

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