O preconceito é inevitável, as minhas desculpas. Acabamos de saber que, alegadamente, um dos relatores do FMI para Portugal, portanto directamente responsável, com o governo, pelas políticas que destroem a vida de quem vive do trabalho em Portugal, não é ele mas a ex mulher, por sinal uma beldade tirada de um reality show berlusconiano, que afinal assinou por ele o que ele nunca escreveu. Confuso? Não! É que o regime em que vivemos é na verdade um monte de lama que a beleza da dita não apaga. Temos primeiros ministros que se licenciam ao Domingo, ministros que tiram cadeiras inexistentes, uma ministra de Merkel acusada de plagiar a tese de doutoramento, e um relator do FMI que, alegadamente, não só é um aldrabão como mandou a ex mulher para a fogueira para se safar. Um “pequeno safadote”diz a música de José Mário Branco. Enfim, um navio a ir ao fundo, em que os ratos não o abandonam mas sobem à vigia.
Isto passa-se num país e numa Europa onde os cientistas universitários, milhares, são submetidos anualmente a revisões de artigos, submissões de curriculum, relatórios, avaliações, um escrutínio exaustivo de todos os estudos que fazem. Aparentemente para ser governante não há nenhum processo de avaliação necessário mas apenas esperteza, malandrice, falta de vergonha e muita verborreia.
Dizem os mais optimistas que se trata de um defeito e não de feitio, que com partidos críticos no parlamento as coisas mudariam. Tenho dúvidas. Porque o problema não está em quem ocupa o lugar mas que lugar vai ocupar. Há uma inércia que repousa na ideia de que a política é feita pelos outros. É quase uma preguiça, que nos permite lamuriar, sem assumir responsabilidades e deveres. Mas o espaço da política não pode ser mais uma vez restringido ao parlamento e as eleições.
Há uma urgência de reinventar a política fora do ciclo eleitoral. Sem reinventarmos formas de controle directo sobre a vida pública, a começar pelo controle das contas do Estado, de forma permanente, estas situações vão-se repetir. Até ao ponto de as naturalizarmos e passarmos deste indignado “são uns ladrões“ para uma versão mais deprimente, que já existe noutros países, a do “rouba mas faz”.
É cansativo, no meio disto, ouvir tanta gente dizer que não vai à manifestação x ou y – uma prédica que Medina Carreira sempre aconselha semanalmente – porque “não vale a pena”. As manifestações, ou outras formas públicas de protesto, têm sido até aqui uma forma de “votar com os pés” contra este Estado de coisas. A sua ritualização não lhe retira as virtudes históricas. Que eu saiba, este Estado de coisas, no passado, só mudou quando as manifestações não acabaram. Ao se recusarem a regressar a casa estão as pessoas a dizer que a política poder ser feita por elas, sem intermediários.


O risco de inocuidade das manifestações não advém da ritualização, mas da conformação a tal ritual da luta como se este fosse toda a luta ela mesma. Como se demonstrar-se disposto a resistir fosse catarse e escape do imperativo de resistência, a ponto de se voltar para casa suficientemente aplacado para encaixar novas opressões até à manifestação seguinte.
Quando os opressores, alvos de uma manifestação ocorrida, a seguir se desdobram em elogios ao bom comportamento dos manifestantes, como se avaliassem o desempenho de actores e figurantes de um guião conhecido e de uma coreografia esperada, deveríamos reflectir. Não sobre se vale a pena manifestarmo-nos, claro está, mas até que ponto nos deixámos emparedar em formas legais de manifestação estreitadas paulatinamente pelo Poder no sentido de ilegalizar nela, quando não criminalizar, todo e qualquer aspecto ou acção que lhe faça mossa.
MJH
Longínquo Benim, compra de terras pelas multinacionais, especulação, concentração, monocultura. Quem vendeu chupa no dedo, o dinheiro nestas paragens não vale nada. A miséria continua. FMI e Banco Mundial, os meus parabéns. O investimento chegou, África está pujante e cresce como nunca.
http://www.monde-diplomatique.fr/carnet/2013-01-25-Speculation-fonciere-a-Djidja-au
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