A química do mal

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Um país do Médio Oriente ataca civis dentro do que proclama serem as suas fronteiras, com uma substância muito peculiar. Este produto químico não é, tecnicamente falando, “tóxico”, pois não se limita a envenenar quem o inspira; incendeia-se em contacto com o ar, agarrando-se ao corpo e às roupas dos que são banhados pelas suas chuvas letais. Depois, cada gota arde e arde, furando a carne até ao osso, produzindo cadáveres “caramelizados”, na pitoresca linguagem de alguns observadores.

O uso de fósforo branco (assim se chama a poção mágica) sobre civis é há muito proibido; em 1980, inúmeros países assinaram um “Protocolo sobre a proibição ou restrições no uso de armas incendiárias”. Mas Israel (assim se chama a nação pirómana) não o subscreveu. E, há menos de 5 anos, o Tsahal fez cair um dilúvio de chamas – adquirido aos bons amigos americanos, depois de testado em Fallujah – sobre a cidade de Gaza. A nova Esparta não se conteve: mesmo famílias que procuraram refúgio numa escola da ONU foram regadas do ar. E lá ficaram a arder. Nunca ninguém mediu as cinzas com cuidado que bastasse para chegar a um número incontroverso de vítimas. Então, não houve presidentes indignados a traçar linhas vermelhas, nem governos a gritar juras de vingança. Nem tribunais capazes de condenar a atrocidade.

 O abismo onde medram ditaduras como a da Síria devolve-nos o olhar com que pretendemos sondar a sua escuridão. E, de quando em vez, até nos mostra um espelho nada lisonjeiro.

Sacado daqui.

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12 respostas a A química do mal

  1. imbondeiro diz:

    Palavra de honra que eu muito gostaria de saber a resposta a duas simples questões: por que cargas de água qualquer crítica ao militarismo fascista de Israel tem de ser contrabalançada com uma obrigatória referência a uma qualquer ditadura árabe? E qual será a causa de desse cardápio de ditaduras árabes referidas nunca constarem os principais mentores do terrorismo fundamentalista internacional, ou seja, a Arábia Saudita, o Qatar e os Emiratos Árabes Unidos?
    Um estado terrorista como Israel merece ser equiparado a vizinhos seus, mesmo sendo eles ditatoriais, quando é o orgulhoso carcereiro da maior prisão do Mundo – a Faixa de Gaza – onde escraviza e massacra a seu belo prazer todo um povo? Quando, nos últimos meses, Israel bombardeou a Síria por três vezes ( uma delas com mísseis de cruzeiro e a partir do Mediterrâneo Oriental ) e a Síria não respondeu, quem foi o criminoso de guerra? Foi Assad? Ou foi essa democracia “sui generis” dos falcões do Knesset? Quem é pior aqui: um “ditador” que tenta manter a independência e a viabilidade do seu país como pátria multicultural e muiticonfessional de variados povos ou a sanha militarista sociopata de uma “democracia” de apartheid que tenta escravizar e destruir os seus vizinhos?

  2. Miguel diz:

    OK, em relação aos dois primeiros parágrafos. Sobre o último, note que a Síria terá eleições presidenciais em 2014 e que Assad se encontra à frente das sondagens, com 70% dos votos. A maioria do povo sírio apoia o seu presidente, porque ele está contra Israel e aquilo que descreve nos parágrafos anteriores.

  3. Eli Lavon diz:

    e provas disso? todos fala, falam, acusam estes, acusam aqueles. mas para uns é preciso provas, e outros basta a palavra dos rainhas da situação. para estes rainhas para denegrir Israel vale tudo. preferem os rainhas os métodos dos assassinos palestinianos que mandam jovens inocentes envergar coletes de esplosivos e rebentar com autocarros também eles cheios de inocentes. Israel não mata dessa foram cobarde. Quando é preciso eliminar um inimigo, Israel fá-lo de forma frontal, inteligente e precisa, limitando ao máximo as vítimas colaterais.

    • A.Silva diz:

      Oh seu palerma, estes ataques criminosos de Israel, foram amplamente divulgados, com imagens e tudo (como mostra a foto que ilustra o texto), coisa que os sionistas/fascistas nunca negaram.
      Mais um a defender criminosos.

  4. Eli: o uso da substância foi admitido por Israel. http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-22310544 Não que isso tenha levado a qualquer espécie de condenação judicial.

    Miguel: que eu saiba, também havia eleições por cá antes do 25 de Abril. So what?

    Imbondeiro: é ao contrário. Israel foi mencionado para contrabalançar a presente histeria com as armas químicas. Quanto ao resto, venha o diabo e escolha, embora eu não hesitasse muito se tivesse de escolher por aquelas bandas um local para os meus filhos crescerem. Por certo que não os deixaria em no meio de uma teocracia brutal, à mercê da Sharia, como as que se propagam naquela zona.

  5. Miguel diz:

    A situação por cá antes do 25 de Abril não pode ser comparada com a Síria de Assad. São duas situações muito diferentes. Depois, veja qual a posição de Assad sobre Israel. A comunicação que fez após a derrota de Israel na guerra com o Líbano, em 2006, demonstra que lado Assad defende no Médio Oriente.

    Depois, o vosso blog não diz nada sobre a ditadura da Arábia Saudita que vende armas químicas aos rebeldes que fazem a guerra na Síria. Neste caso, não há nada a dizer, mas sobre aquilo que os americanos e israelitas afirmam ser “a ditadura de Assad”, há sempre alguém a acenar com a cabeça e a dizer que sim, como o caso do Luís Miguel Rainha.

  6. Miguel,

    A HRW não dá jeito e é credível apenas quando denuncia a execução ilegal de apoiantes de Kadafi (http://www.hrw.org/news/2011/10/24/libya-apparent-execution-53-gaddafi-supporters%5D
    Quando dá conta das misérias do regime de Assad, talvez mereça um pouco do mesmo crédito (http://www.hrw.org/news/2012/07/03/syria-torture-centers-revealed) Assim sendo, não me parece que as denúncias se limitem a sionistas e americanos. E não me parece que a situação, em termos de repressão e tortura generalizada seja comparável à do regime de Salazar; por aparentar ser muito, muito pior. Mas isso sou eu, claro.

    • Miguel diz:

      Há mais fontes do que essas que está a divulgar… mas se vai dizer que Assad é muito pior que Salazar, garanto que vai cair num enorme equívoco.
      Depois, se começar um texto a descrever os horrores de um ataque israelita, com bombas de fósforo branco, a maioria do povo sírio (que está com Assad) aprova; mas se decide acabar a sua exposição denegrindo o presidente sírio – que esteve sempre contra o regime sionista – aí, posso garantir que não terá o apoio da maioria do povo sírio que, neste momento está com o seu presidente.
      Em todo o caso, não estou a querer dizer com isto que não tem direito à sua opinião. O Luís é livre de se expressar, mas os equívocos da sua exposição estão garantidos.
      Saúde e bom trabalho.

      P.S. Sobre algumas fontes alternativas, fui (em tempos) leitor da “Uruknet” até que esta foi atacada por “hackers” sionistas que divulgaram massacres de Assad, desde a primavera árabe. Se essas fontes fossem credíveis, o povo sírio já teria derrubado o seu presidente há muito tempo.

    • Rocha diz:

      Já sobre a tortura e castigo colectivo que aplicam as ditaduras da Arábia Saudita, Israel, Turquia, Jordânia, Qatar – todas parte da santa aliança para derrubar o governo de Al Assad – a HRW já tem pouco ou nada a dizer. Importa sobretudo centrar acusações de Al Assad e desviar dos seus regimes vizinhos muito contestados (a Turquia revoltosa por exemplo parece que já passou de moda para os mais esquecidos).

      O Luís Miguel está a fazer um belo trabalho de lavar as mãos como pilatos. Enquanto isso o Exército Árabe Sírio comandado por Al Assad é de facto a única força capaz de resistir os “rebeldes sírios” da al qaeda e irmandade muçulmana apostados em fazer da Síria uma nova Líbia.

      É que nos planos do imperialismo o paleio de direitos humanos é puramente instrumental. Mas no terreno alguém tem de garantir a sobrevivência de minorias étnicas e religiosas e de um Estado laico garante dessa coexistência e não é a lavar as mãos que se salvam as populações cercadas pela al qaeda e irmãos muçulmanos.

      • Interessante é ver como imagina a HRW (não sou accionista ou coisa similar, note-se): como uma entidade que aponta uns e ignora os crimes de outros. Isto sem sequer se ter dado ao trabalho de usar o Google para confirmar o preconceito (http://www.hrw.org/world-report/2013/country-chapters/saudi-arabia , só por exemplo). Não; independentemente da sua experiência, o sectarismo não é uma bitola universal.
        Por outro lado, também já houve quem visse em Hitler um eficaz adversário para as hordas comunistas. A miopia é endémica.

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