Que se lixe a troika e a seguir faz-se o quê? Lixa-se os agentes da troika. Uma resposta a Henrique Monteiro

«Que se lixe a troika! Ok! E faz-se o quê?», interroga Henrique Monteiro no Expresso e no Facebook, para concluir que não há alternativa à troika e que «não é possível fazer milagres».

Conheci o Henrique Monteiro «há muitos anos, quase 40» quando, acha ele agora, era um «idiota útil». Baixo, magrinho, usava uma gabardina sebenta estilo «inspector Columbo» e um sorriso malandro na cara. Era-me simpático, embora nunca tenhamos chegado a ser amigos. Diz ele que na altura alinhava em coisas como «unimo-nos todos contra uma coisa e, depois, logo se vê do que somos a favor». Na verdade, não era bem isso: ele era a favor do que achava que existia na China, e frequentemente as discussões políticas acabavam, à falta de melhor argumento, com ele a invocar os 800 milhões de chineses que supostamente defendiam o que ele dizia. Nisso, parece que a única coisa que mudou foi o número de chineses: agora são mais…

«Como pagamos aos credores as nossas dívidas, se os mercados nos cortam o crédito e a troika não dá mais dinheiro?», pergunta Henrique Monteiro.

Tantos erros no ditado, Henrique Monteiro! As dívidas não são nossas. São essencialmente dívidas privadas, contraídas pelos bancos, que foram buscar dinheiro a outros bancos e instituições financeiras: sobretudo alemãs, francesas, inglesas. Estados como o português, o irlandês, o espanhol ou o grego fizeram-se garantes dessas dívidas privadas e põem os cidadãos contribuintes a pagá-las. E quem são os beneficiários desses pagamentos? Mistério. Jörg Rasmussen, do directório do BCE, disse a Harald Schumann, jornalista do canal Arte, que não se pode divulgar quem são os beneficiários dos pagamentos que todos os cidadãos estão a fazer para salvar a banca por que «isso está protegido pelo segredo industrial e comercial».

Mas não é escandaloso gastar milhares de milhões de euros dos contribuintes para financiar o reembolso de credores/especuladores privados sem que se saiba sequer quem são esses credores/especuladores? O dinheiro «emprestado» a Estados como Portugal, Irlanda, Espanha e Grécia faz apenas uma viagem de ida e volta. Volta para os bolsos dos especuladores que, a partir de bancos alemães e outros, investiram dinheiro em projectos privados sem garantias reais de serem viáveis. Num texto de hoje, curiosamente, H. Monteiro afirma que «o único prejudicado de uma má escolha é o próprio». Porém, está a defender o contrário: um capitalista pode ter lucro, mas também se arrisca a ter perdas. Ora o que está a acontecer é que alguns capitalistas que fizeram más escolhas querem transferir as perdas para os contribuintes dos países do Sul da Europa. E estão a contar para isso com a colaboração dos governos desses países, entre eles o nosso.

«Não pagamos? Sendo assim, como nos financiamos?» Eis outra pergunta interessante.

Estas dívidas não são pagáveis. Todos, a começar pelo BCE e pela UE, o sabem. Chegará sempre um dia em que não poderão ser pagas. Mas entretanto que acontece: vamos «dando sangue» aos bancos alemães, franceses, britânicos. E governos como o de Passos Coelho aproveitam a oportunidade para destruir o Estado social, cortar salários e subsídios, promover despedimentos. Na verdade, o objectivo mais importante do «pagamento da dívida» é operar uma contra-reforma de dimensões gigantescas e fazer uma transferência maciça de recursos do trabalho para o capital.

A actividade económica só poderá ser relançada se estas dívidas assumidas pelos Estados forem anuladas. Ou seja, mais tarde ou mais cedo, será necessário cancelar a dívida. A continuação desta política, em que os Estados assumem a dívida essencialmente de investidores privados, acabará por ir bater às portas da Alemanha (de onde proveio boa parte do financiamento desses investimentos privados). Por isso haverá financiamento, Henrique Monteiro. Os capitalistas do Norte da Europa não querem prescindir da força de trabalho do Sul. Muito pelo contrário.

Wolfgang Schäuble, ministro das Finanças da Alemanha, diz que é preciso salvar os bancos porque, como eles estão todos ligados, se um perde a credibilidade, todos podemos perguntar-nos se os outros são credíveis. Por isso, a intervenção do BCE, diz Jörg Rasmussen, teve como critério garantir a estabilidade dos preços e a estabilidade dos mercados financeiros. Não, evidentemente, salvar a economia dos países do Sul da Europa.

Mas afinal, se afirmam que os resgates são indispensáveis para salvar o sistema, ao menos dêem-nos as provas dessa afirmação. Isso ninguém até agora o fez.

About these ads
Esta entrada foi publicada em 5dias. ligação permanente.

5 respostas a Que se lixe a troika e a seguir faz-se o quê? Lixa-se os agentes da troika. Uma resposta a Henrique Monteiro

  1. Nuno diz:

    Vale a pena ouvir toda a palestra deste senhor, principalmente esta parte que conta o golpe da invasão financeira da Alemanha às economias do “sul”.
    Um facto gravíssimo bem longe de ser do conhecimento público.

  2. Estêvão diz:

    Uma verdadeira anedota.

    “São essencialmente dívidas privadas…”
    AHAHAHAHAHAH
    Que palhaçada.

    • António Paço diz:

      Onde está a palhaçada, Sr. Estêvão? As dívidas da banca privada são públicas? Ou passaram a ser públicas a partir do momento em que o governo as «nacionalizou», assumindo-se como responsável pelo seu pagamento? E sabe por acaso quem são os «nossos credores»? Já viu alguma lista deles?
      Não quer partilhar connosco os seus conhecimentos?

  3. D.Barbosa diz:

    Eu lembro-me de ver o Henrique Monteiro defender, a talhe de foice, a carga policial (digna do Capitão Maltez) sobre manifestantes pacíficos (alguns sexagenários…) indefesos, em frente à Assembleia da República. Depois, todos soubemos que aqueles pobres polícias foram apedrejados durante horas, por meia dúzia de delinquentes, devido a um desentendimento entre a GNR e a PSP, que levou a que a ordem não fosse rapida e devidamente reposta (e a que esses polícias perdessem toda a capacidade de descerniment)o. A partir daí, ganhei aversão (confesso) a todo e qualquer “arrazoanço” do Henrique Monteiro, que está, de facto, sempre ou quase sempre equivocado no que diz (e no que não diz…). Muitos foram os hippies que degeneraram em yuppies. Mas as dívidas não são apenas privadas. Os próprios estados têm dívidas, originalmente por eles contraídas. O problema é que, responsável, não é apenas quem pede o crédito, mas também quem o dá, apesar de o devedor não ter notoriamente condições para o pagar…

Os comentários estão fechados.